Folha de S. Paulo: A epidemia de aids nunca acabou – por Cynthia Araújo

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Leonardo Moreira, roteirista da série “Máscaras de Oxigênio não Cairão Automaticamente” (Morena Filmes em coprodução com a HBO), junto de Patricia Corso, acredita que um trauma deve ser atravessado. Não é possível falar sobre temas envoltos em tabus desviando dos sofrimentos que eles causam. É necessário se deixar comover, sentir, doer.

“A epidemia de Aids era vista como um problema do outro”, diz Leo. Na série, expressões comuns na década de 1980 como “câncer gay” e “doença homossexual” demonstram que o vírus infectava o sangue e a imagem das pessoas ao mesmo tempo. O preconceito chegava ao corpo ainda antes da doença.

A série consegue construir um personagem sexualmente livre como o protagonista Nando, sem reforçar a ideia de que o vírus está ligado à promiscuidade, a partir da atuação impecável e visceral do ator Johnny Massaro.

Para o roteirista, soaria hipócrita um protagonista que não se sentisse no direito de viver a sua sexualidade, ainda mais no contexto histórico de fim da ditadura e retomada de direitos. Nando —um filho e amigo especialmente generoso, amante apaixonado e profissional gentil— subverte a ideia de que um personagem gostável é aquele que cumpre o papel moral geralmente imposto pela sociedade.

Massaro conta que teve a oportunidade de conhecer alguns “sobreviventes” e suas histórias, marcadas por muitas perdas. Mas que não houve uma inspiração específica: “foi mais como a construção de um mosaico”.

A série cumpre um papel muito importante como documento, como registro de memória. Relatos desses sobreviventes nos ajudam a contar uma realidade que os dados oficiais não informam. E que a arte nos ajuda a lembrar e inserir na história.

As vítimas

Leonardo Moreira diz que, se o preconceito em relação à sexualidade é grande hoje, era infinitamente maior 40 anos atrás. “As pessoas não queriam ser consideradas sujas, como era a ideia da época”, afirma.

Qualquer um poderia —e pode— ser infectado. O HIV não tem uma transmissibilidade muito acentuada, mas há muitos casos de pessoas infectadas em, por exemplo, uma única relação sexual, que é a principal forma de transmissão do vírus.

Não é a liberdade sexual de Nando, no entanto, que lhe transmite o vírus, mas um namorado que não se considera homossexual, porque só tem um parceiro. É o marido de Sônia, heterossexual, monogâmica e extremamente religiosa, que a infecta. Sônia foi uma das personagens que mais me impactou. A atriz que a interpreta, Rita Assemany, conta que teve amigos “carregados pela Aids”.

“E convivo com outros tantos, ainda aqui, habituados ao vírus HIV já há quase 30 anos! Na minha juventude, suportei a ansiedade da espera por um resultado que demorava muito. Passei noites em claro, na companhia dos fantasmas de uma doença. Testemunhei o abandono pela família, de pessoas muito queridas. Fui a muitos enterros”, diz.

Moreira afirma que a opção da equipe de roteiro pelo personagem central livre não dava conta de tudo. Entre os personagens também infectados ao redor do protagonista Nando, biografias reais ganharam espaço.

Dentre elas, as de pessoas que, envoltas em estigma e medo, não esperaram a morte física. Elas não queriam enfrentar, antes, a morte social. Mesmo hoje, quando há tratamentos que permitem uma vida longa e saudável para a maioria das pessoas que convivem com o vírus, elas são cem vezes mais suscetíveis ao suicídio. O assunto ganha espaço com Paka (Matheus Costa), vítima muito jovem da doença.

São também muitas as Sônias. Rita define a personagem que interpreta como alguém que conviveu com uma pessoa por décadas e, repentinamente, descobriu saber tão pouco sobre ela: “Sônia foi traída pelo marido; com uma travesti; e esse marido não só adoeceu, como adoeceu a esposa de uma doença biológica e moral, morreu e matou”.

A esperança que renasce com o outro

Uma das cenas que mais marcaram Massaro foi a descoberta sobre Nando pela mãe, Raquel (Carla Ribas). Tanto na revelação de sua homossexualidade, quanto na de sua doença, ela reagiu com amor e tolerância. Perguntei ao ator se mães assim existiram. “Gosto de acreditar que sim, que é possível, lindo, desejável e, sobretudo, necessário agir com amor e tolerância na imensa maioria das situações”.

É no amor da comunidade que tanto Nando, quanto Sônia encontram esperança. No amor livre de julgamentos, no acolhimento incondicional. O mesmo não acontece com Paka, membro de uma família mais preocupada com o estigma do que com a doença.

Para Assemany, “apesar de ser uma dona de casa ‘carola’, engaiolada em dogmas religiosos e entraves sociais, Sônia se permite sobrevoar outra realidade, outro território, e entender novas formas de viver; com suas outras dores e prazeres”.

Ela não muda radicalmente, mas se adapta. Para ela, se a Bíblia diz que Deus mora entre nós, então “Deus pode estar em qualquer um”, como em Francesca (Kika Sena), a travesti que era amante do seu marido, agora morto.

“Máscaras de Oxigênio não Cairão Automaticamente” atravessa o trauma, o caos e o medo, mas, pela generosidade de personagens como Léa (Bruna Linzmeyer) e Raul (Ícaro Silva), pela força do coletivo e da tolerância, promove não desespero, e sim pulsão de vida.

“Essa ‘pulsão de vida’ é, desde o princípio, um dos pontos mais importantes para mim. Se ela não estivesse ali, não haveria contraste quando Nando enfrentasse o diagnóstico e, consequentemente, não haveria engajamento do público em torcer por sua vida. Como escrevo roteiros e dirijo, acredito que acaba sendo relativamente natural buscar entender, como ponto de partida, qual a função narrativa de uma personagem. E, nesse caso, me parecia bastante clara a importância de ele ser cativante, mesmo dentro do seu egoísmo, ironia e acidez, para que a história fosse bem contada”, diz Massaro.

O ator pensa muito na morte: “como sei que vai acontecer, procuro viver da forma mais livre e leve que consigo, partindo do entendimento básico de que a dor e o sofrimento são constitutivos e distintivos. Acredito que, dessa forma, estarei mais conciliado com o fim quando ele chegar”.

A urgência da vida também não chega para Nando depois do vírus; ele sempre viveu assim.

Para Carol Minêm, que dirige a série com Marcelo Gomes, “Máscaras” mostra que a força da mobilização popular, nascida da união das pessoas pela dor e pelo amor, interferiu no rumo da história no Brasil: “a resistência, a militância que se formou naquela época, pavimentou o caminho para a quebra de patentes e a democratização do acesso aos medicamentos pelo SUS, o que nos tornou referência mundial. No entanto, o preconceito é um muro mais alto do que as barreiras políticas ou de patentes industriais. É uma doença cultural que silencia e afasta as pessoas do tratamento e da prevenção. O tabu é a barreira intransponível que impede a erradicação do vírus em nosso país. A luta é contínua e a nossa mensagem final é um grito de resistência e afeto, sintetizada na fala do Nando no final da série: ‘Ainda estamos aqui, Vida’.”

Andréia Horta também tem uma participação forte e importante como a personagem Andréia Brito, que homenageia a coragem da atriz Sandra Bréa, uma das únicas pessoas públicas soropositivas a expor a sua condição. Bréa afirmava ter contraído o vírus em uma transfusão de sangue, mas isso não a livrou de ser vítima de muito preconceito. Ainda assim, ela foi uma das vozes mais importantes no cenário público e em campanhas de conscientização sobre a Aids.

Embora o assunto pareça distante, mais de 600 mil pessoas continuam morrendo todos os anos em razão de consequências do vírus HIV. Em 2022, mais de um milhão de novas pessoas foi infectada, especialmente entre populações vulneráveis e marginalizadas.

Como disse em texto anterior aqui na coluna, esse cenário não impede que investimentos importantes de enfrentamento ao vírus sejam cancelados. Mesmo antes de interrupções importantes de auxílio, 9,2 milhões de pessoas vivendo com HIV ainda não tinham acesso a tratamentos que salvam vidas. Entre elas, estão 620 mil crianças de 0 a 14 anos.

“Máscaras de Oxigênio não Cairão Automaticamente” é um importante documento histórico. E também um alerta para o presente e para o futuro.

Dois atores em foco, um com camiseta cinza e outro com camiseta preta, estão em cena enquanto um assistente segura claquete com informações da produção. Ao fundo, equipe e equipamentos de filmagem são visíveis em ambiente interno.Dois atores em foco, um com camiseta cinza e outro com camiseta preta, estão em cena enquanto um assistente segura claquete com informações da produção. Ao fundo, equipe e equipamentos de filmagem são visíveis em ambiente interno.

* Cynthia Araújo é doutora em Direito, autora de ‘A Vida Afinal: Conversas Difíceis Demais para se Ter em Voz Alta’

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