Fim do apoio da AHF ameaça resposta comunitária ao HIV no Brasil: “A gente fica com o coração apertado”

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A notícia de que a Aids Healthcare Foundation (AHF) vai encerrar, até o fim de 2025, seus projetos de testagem e prevenção comunitária no Brasil caiu como um balde de água fria sobre as organizações que, há uma década, têm sido responsáveis por levar o diagnóstico e o acolhimento a territórios muitas vezes esquecidos pelas políticas públicas.

Em Parintins e Tabatinga, no Amazonas — regiões onde o acesso à saúde é desafiado por distâncias, fronteiras e preconceitos —, duas associações comunitárias que atuam há anos na linha de frente da resposta ao HIV relatam o impacto da decisão.

“A gente fica com o coração apertado”: a realidade em Parintins

Em Parintins, a Associação de Gays, Lésbicas e Travestis — que há 18 anos atua no enfrentamento ao HIV/Aids — é uma das afetadas. O projeto chegou à ilha em 2015, dentro da iniciativa Viva Melhor Sabendo, em parceria com o Ministério da Saúde. Desde então, a associação, liderada por Fernando Moraes, o Dinho, tem sido responsável pela testagem por fluido oral, ações educativas e orientação comunitária voltadas à população-chave — especialmente pessoas LGBTQIA+, profissionais do sexo e jovens.

“No município, somos os únicos que fazem o trabalho de prevenção, orientação e testagem comunitária. Não somos ligados às UBSs. Estamos nas ruas, nas praças, em frente de eventos, onde a população está”, explica Dinho.

Com uma média de 300 testes por mês, a associação identificava entre cinco e seis casos positivos de HIV nos períodos de maior mobilização. Mesmo sem vínculo direto com o sistema público, a equipe acompanhava pessoalmente os diagnosticados até o Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), garantindo a vinculação ao tratamento e, muitas vezes, buscando a medicação para quem tem medo do estigma.

“Os que a gente diagnostica continuam com o tratamento, porque confiam na gente. Diferente de quando é na UBS, que a pessoa se sente julgada. É por isso que o abandono do tratamento é menor entre os que a gente acompanha”, conta.

Para Dinho, o impacto da descontinuação será direto no diagnóstico precoce, que salva vidas: “Antes do projeto, víamos muita gente internada já em estado grave. Hoje não vemos mais. Isso mostra que o nosso trabalho deu resultado. Mas e agora, com o fim do projeto? Como vai ficar essa população?”, questiona.

Um presente amargo

No dia em que a parceria completou 10 anos, a equipe de Parintins recebeu a notícia de que o projeto seria encerrado. “No mesmo dia em que fizemos 10 anos, recebemos o comunicado de que o projeto acabaria. Foi um choque. Ficamos abalados, tristes. A AHF foi nosso respaldo por tantos anos”, relata Dinho.

O documento, segundo ele, foi curto e direto, mencionando apenas “questões internas inevitáveis”. Sem o financiamento, a associação deverá interromper as testagens, uma das principais frentes de atuação. “Nosso trabalho de prevenção e orientação vai continuar. Mas a testagem, infelizmente, deve acabar. E a gente sabe o quanto isso vai impactar o município”, lamenta.

Com cerca de 60 novos casos de HIV registrados apenas em 2025, Parintins enfrenta um cenário preocupante. “Somos uma ilha, e o número é muito alto. As comunidades rurais também estão sendo afetadas. O índice está crescendo. E quem vai estar lá para diagnosticar precocemente quando o projeto acabar?”, questiona Dinho.

Tentativas de sobrevivência

Dinho já tenta alternativas locais para manter as atividades: “Vamos apresentar um mini projeto para ver se o município pode custear o trabalho. Mas é difícil. O projeto da AHF também nos sustentava financeiramente. Só eu sou funcionário público — o resto da equipe dependia totalmente do recurso.”

Apesar do cenário incerto, ele insiste que não vai desistir: “A gente faz por amor. Mesmo que o projeto acabe, se alguém precisar de ajuda, de medicação, a gente não vai virar as costas. O movimento nasceu para cuidar das pessoas.”

A equipe de Parintins é formada por gays, lésbicas, travestis, mulheres trans e profissionais do sexo — pessoas que enfrentam o mesmo estigma que combatem. “O projeto foi um divisor de águas. Trouxe dignidade, saúde e presença nas periferias. A gente não pode deixar isso morrer”, finaliza Dinho.

“Sem a AHF, nosso trabalho praticamente acaba”: a situação em Tabatinga

Na fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, onde o fluxo de pessoas e culturas é intenso e as distâncias são medidas por rios e mototáxis, o trabalho de prevenção ao HIV também está ameaçado.

A Associação de Gays, Lésbicas e Travestis na Tríplice Fronteira (AGLTTF) atua há nove anos com o apoio da AHF e agora enfrenta o mesmo destino.

“Sem o apoio da AHF, nosso projeto tem 99,9% de chance de acabar. A única fonte de recurso é ela. E sem recurso, não tem testagem, não tem transporte, não tem prevenção”, afirma Roberto Machado, coordenador do Viva Melhor Sabendo em Tabatinga.

A equipe de Roberto é pequena — quatro bolsistas e dois voluntários —, mas o alcance é imenso. Atuam até de madrugada, realizando testagens rápidas, distribuição de preservativos, orientação bilíngue em português e espanhol e vinculação imediata ao tratamento.

“Trabalhamos com jovens, com a população privada de liberdade, com indígenas e com pessoas em situação de vulnerabilidade. Quando diagnosticamos alguém, já na segunda-feira a pessoa está em tratamento. Fazemos questão de acompanhar cada caso.”

Fronteiras e desafios

Em 2024, a GDTF realizou 4.400 testagens, o dobro do volume de anos anteriores. Até outubro de 2025, já eram 3 mil testes, com 23 novos casos positivos, sendo cinco entre indígenas das etnias Ticuna e Cocama. “O que mais preocupa é que esses novos casos estão entre 14 e 21 anos. São adolescentes e jovens. A prevenção precisa continuar”, alerta Roberto.

Tabatinga é o terceiro município com mais casos de HIV do Amazonas, atrás apenas de Manaus e Parintins. Mas as dificuldades vão além da epidemiologia: “Aqui não existe transporte público. Um mototáxi custa R$ 10 para ir e R$ 10 para voltar. Cada saída de campo custa em média R$ 20 por pessoa. Só conseguimos ir às comunidades porque o projeto cobre o deslocamento.”

A equipe também atua no município vizinho de Benjamin Constant, a 45 minutos de barco, onde realiza testagens e garante o acesso ao tratamento.

“Nós mesmos buscamos os pacientes no porto, levamos ao SAI, garantimos a coleta de exames e devolvemos com a medicação. Tudo isso com o apoio da AHF e com a força de vontade de uma equipe incansável”, diz Roberto, emocionado.

Povos indígenas em risco

Uma parte essencial do trabalho da GDTF acontece junto às comunidades indígenas Ticuna, Cocama, Itopi e Bora, localizadas na zona urbana e rural. Duas vezes por mês, a equipe participa de festas e celebrações locais, levando testagens e informações com apoio das lideranças e tradutores indígenas.

“Quando vamos, conseguimos fazer entre 200 e 250 testagens em uma só noite. Colocamos as pessoas em tratamento imediato. Mas sem o projeto, isso tudo vai acabar. As comunidades vão ficar desassistidas”, lamenta.

Na Colômbia, segundo Roberto, um teste de HIV custa cerca de 95 mil pesos (R$ 150). Muitos cruzam a fronteira para fazer o teste gratuito com a equipe brasileira. “A política de HIV na Colômbia é diferente. Aqui, com o apoio da AHF, a gente garantia prevenção e tratamento gratuitos para todos — inclusive estrangeiros”, explica Roberto.

“A gente previne vidas. Conseguimos colocar famílias inteiras em tratamento — mãe, pai, filhos, cunhados. E isso muda o futuro de uma comunidade inteira”, diz.

Sem a AHF, ele teme o aumento da transmissão e do abandono do tratamento: “As pessoas podem voltar a adoecer. O que a gente construiu em nove anos pode ser perdido.”

“O combate ao HIV não é uma pauta de nicho, é uma questão de humanidade”

Em São Paulo, a presidente do Instituto Cultural Barong, Marta McBritton, também recebeu com choque a notícia do fim do financiamento. O Barong, uma das ONGs mais tradicionais do país, com 30 anos de atuação, também será impactado pela decisão.

“Sabemos que essa decisão não foi fácil. Embora a AHF disponha de uma estrutura muito maior, partilhamos o mesmo DNA: o das organizações nascidas da sociedade civil, movidas pelo compromisso ético de salvar vidas e enfrentar o HIV com coragem. Encerrar o apoio certamente não foi simples — mas, diante de circunstâncias políticas globais, tornou-se inevitável.”

Marta conta que recebeu a notícia durante um encontro em Amsterdã, com ONGs de diversos países. Lá, percebeu que o problema é global: cortes de financiamento se multiplicam, especialmente desde as políticas internacionais iniciadas durante o governo Trump.

“A reeleição desse grupo político nos Estados Unidos é um alerta inequívoco — sinal de que cresce, em diversas partes do mundo, a indiferença diante da epidemia de HIV e da pauta dos direitos humanos. Esse alerta deve ecoar no Brasil: quando o descaso se naturaliza, vidas se perdem.”

Ela destaca que o Barong, conhecido por sua unidade móvel que chega às ruas e periferias de São Paulo, já precisará reduzir ações.

“Neste primeiro momento, será inevitável reduzir drasticamente o número de atividades. É doloroso reconhecer que, sem recursos, territórios com índices crescentes de HIV — e já marcados pela escassez de acesso à PrEP e à PEP — poderão voltar a um cenário de abandono.”

Marta também alerta para a dificuldade crônica de captar recursos no setor privado.

“A maioria das empresas ainda evita associar sua imagem a temas ligados à sexualidade, por receio ou conservadorismo. O estigma nunca foi superado — apenas se transformou. E esse estigma ainda dita decisões e limita compromissos, inclusive no financiamento da saúde pública.”

“O combate ao HIV não é uma pauta de nicho, é uma questão de humanidade. Houve um tempo em que o Brasil falava abertamente sobre sexo, prevenção e prazer com responsabilidade. Hoje vivemos o inverso: um país mais moralista e menos informado. Esse retrocesso cultural custa vidas.”

Mesmo diante da incerteza, Marta garante que o Barong seguirá resistindo. “Em novembro de 2025, o Barong completa 30 anos. Não era o presente que esperávamos receber. Ainda assim, seguimos firmes: nenhuma vida é descartável, nenhum corpo é invisível. Seguiremos — com menos recursos, talvez, mas com a mesma coragem.”

Um alerta coletivo

O fim do apoio da AHF expõe um vazio perigoso na rede de prevenção e testagem do HIV no Brasil. Em Parintins, Tabatinga e São Paulo, a interrupção das atividades ameaça o alcance comunitário construído por anos de confiança, presença e escuta. Entre o coração apertado de Dinho, a indignação esperançosa de Roberto e o chamado ético de Marta, ecoa a mesma mensagem: sem base comunitária, a resposta ao HIV enfraquece — e quem paga o preço são sempre os mais vulneráveis.

Redação da Agência de Notícias da Aids

Dicas de entrevista 

Associação de Gays, Lésbicas e Travestis de Parintins

Instagram: @agltpin2007

Instituto Cultural Barong

Site: www.barong.org.br

Associação de Gays, Lésbicas e Travestis na Tríplice Fronteira

Instagram: @aglttf

 

Leia também :

https://agenciaaids.com.br/noticias/ahf-anuncia-descontinuacao-de-projetos-de-testagem-comunitaria-no-brasil-a-partir-de-2026/

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