03/12/2014 – 20h
Na foto, Ivan com Eliana Gutierrez, coordenadora do Programa Municipal de DST/Aids
Os 25 anos do Centro de Testagem e Aconselhamento em DST/Aids Henfil foram comemorados nessa quarta-feira à tarde no Teatro Parlapatões, na Praça Roosevelt , em São Paulo, com coquetel e exibição do documentário “De Gravata e Unha Vermelha”, da diretora Miriam Chniderman. O filho do cartunista e escritor Henfil, morto em 1988 após ter se infectado com HIV numa transfusão de sangue, veio do Rio para prestigiar o evento.
Com 45 anos, Ivan Cosenza de Souza, produtor cultural responsável pelo Instituto Henfil, não sabia que existia um CTA com o nome do pai dele. Assim que soube, fez questão de ceder a assinatura Henfil, a mesma de toda a obra do artista, para o material de divulgação do evento. “ Estou conhecendo esse trabalho agora e posso ceder também alguns desenhos que meu pai fez com o tema aids”, disse ele.
Chamado ao palco para falar na abertura das comemorações, Ivan destacou a importância do CTA fazer um trabalho que vai além da assistência médica. “Ele proporciona acolhimento e isso é essencial para os pacientes. Meu pai era um homem forte, que nunca se abateu com a hemofilia com a qual viveu anos. Mas o diagnóstico do HIV o abateu e ele morreu muito rapidamente após recebê-lo.”
Ivan disse que a história do pai se mistura com a do CTA Henfil, pois uma das bandeiras dele era a luta contra o preconceito e o estigma. “Meu pai foi o primeiro artista a tornar público que tinha HIV. Ele queria desmistificar que o vírus tinha público alvo.”
Falou dos tios, irmãos de Henfil, que também contraíram o vírus em transfusão nos anos 80. Um deles, o sociólogo Herbert de Souza, conhecido Betinho, dá nome a outro serviço de atenção especializada em DST/aids na cidade de São Paulo – O SAE Betinho, em Sapopemba.
O outro tio, Francisco Mário, era músico. “Betinho e Chico Mário sobreviveram mais tempo após o diagnóstico, embora tivessem saúde mais frágil”, comentou Ivan.
Duplo pioneirismo
Representando o secretário municipal de Saúde José de Filippi Junior, o secretário adjunto Paulo de Tarso Puccini disse que estava ali comemorando um duplo pioneirismo. “Do cartunista Henfil, que era comprometido com os direitos humanos, e do CTA Henfil, o primeiro do estado de São Paulo” falou Puccini. “As equipes que montaram esse CTA também sofreram discriminação, preconceito. Foi um momento duro para a organização desse tipo de serviço.”
Puccini saudou a equipe do CTA Henfil e citou, um por um, o nome dos 23 funcionários dele, além dos agentes de prevenção e da equipe que trabalha no projeto de redução de danos.
Eliana Gutierrez, coordenadora do Programa Municipal de DST/Aids, falou da importância histórica do CTA, que é o segundo do Brasil. “Nesses 25 anos, ali foram realizados 200 mil testes com altíssimo número de resultados positivos. Ali se faz diariamente o exercício da tolerância e do acolhimento.”
Eliana destacou que o trabalho do CTA Henfil é voltado para as populações-chave, especialmente os homens que fazem sexo com homens (HSH). “É um serviço certo, com equipe certa no lugar certo”, disse a coordenadora.
Gerente do CTA, a psicóloga Solange Maria Santos Oliveira (na foto, ao lado da cineasta Miriam Chniderman) , disse que nesses 25 anos muitos percalços apareceram mas o momento ali era de comemoração e de olhar para os êxitos da “custosa caminhada”.
Solange é uma entre mais três funcionários que estão no CTA desde o começo. Com a experiência de quem passou pelas várias fases da doença ela apontou o maior desafio atual da rede de serviços.
Atenção e desafios
“No momento em que surgem as novas tecnologias, o desafio maior é o uso do medicamento como prevenção. Aprendemos que apenas isso não implica em adesão do paciente ao tratamento. É preciso disponibilizar (recursos), acesso e adesão e se faz isso considerando não só o paciente mas o sujeito social e psicológico que ele é”, disse Solange.
Coordenadora de saúde da região do centro, Sonia Maria disse imaginar o momento em que foi dado cada um dos 200 mil diagnósticos registrados no CTA Henfil. “Esse centro cumpre o papel de estar onde o segmento mais vulnerável está para identificar os casos, acolher e oferecer tratamento.”
A exibição do filme “De Gravata e Unha Vermelha” encerrou o evento. Não é um filme sobre aids, mas sobre a alegria de cada um ser o que é, respeitando as diversidades, como definiu sua diretora, Miriam Chniderman.
Na produção, em forma de documentário, muitas pessoas, entre elas famosas como Rogéria, o cantor Ney Matogrosso, o estilista Dudu Bertholini e o cartunista Laerte, se abrem sobre sua sexualidade e revelam passagens de sua trajetória na construção do próprio corpo.

Dica de entrevista:
CTA Henfil /Programa Municipal de DST/Aids
Tel.: (11) 3397-2000/2369
Fátima Cardeal (fatima@agenciaaids.com.br)



