
Alyce Santos de Deus, de 21 anos, viralizou nas redes ao contar a história de sua família. Em entrevista à Marie Claire, ela conta que seus pais a tiveram pelo ‘método tradicional’, fala sobre situações em que precisou combater a homofobia e defende a importância do acolhimento a famílias diversas
“Na verdade, eu só queria fazer parte de uma trend de famílias. Por isso, fiz um vídeo mostrando uma foto dos meus pais, em que meu pai estava montado de drag queen ao lado da minha mãe”. Foi dessa forma que a estudante Alyce Santos de Deus, de 21 anos, atiçou a curiosidade do público sobre a história de sua família e viralizou na internet
A jovem é filha de Sandra e Paulo, um casal de amigos que se conheceu ainda na juventude. Solteiros e sabendo da orientação sexual um do outro – a mãe, uma mulher hétero, e o pai, um homem gay –, eles decidiram ter um filho juntos.
Ao compartilhar detalhes da composição familiar nas redes, Alyce viralizou de uma forma nunca prevista por ela. “Eu não imaginava que fosse explodir [em visualizações]. Confesso que perdi um pouco o controle e fiquei desnorteada, porque vieram muitas pessoas e comentários”, conta a jovem à Marie Claire.
O que mais repercutiu, além dos pais terem orientações sexuais diferentes e não viverem uma relação afetivo-sexual, foi a forma como os bons amigos decidiram ter um filho juntos, sem qualquer método laboratorial, como fertilização In Vitro ou barriga solidária: “Eles me tiveram naturalmente”, pontua Alyce.
O começo de tudo
A ideia de se tornar pai acompanhava Paulo na juventude, no entanto, ele não sabia se teria alguma chance de tornar o sonho realidade. Foi então que o homem sugeriu a ideia a Sandra, que a princípio pensava se tratar de uma brincadeira do amigo. Cinco anos depois da primeira conversa, os dois foram contagiados novamente pela possibilidade
“Quando meu pai estava com 27 anos, ele começou a pensar que já estava ficando velho e, então, a conversa com a minha mãe ficou séria, porque ela também parou para pensar nisso. Eles me tiveram naturalmente, mas eu só vim mesmo na terceira tentativa.”
Assim como para outras pessoas da família, a relação de Paulo e Sandra nunca foi um segredo para Alyce e ela, por consequência, também não escondia o fato das pessoas de seu convívio. “Desde pequena, meu pai queria que eu soubesse que ele é gay e como eu fui feita, não exatamente como, mas em que circunstâncias. […]Eu faço questão de introduzir esse fato nas três primeiras conversas”, diz.
A jovem explica que geralmente traz o tópico logo no início de uma nova relação, seja de romance ou de amizade, porque quer evitar violências contra seus pais: “ Tenho receio de encontrar alguém que fale alguma coisa bizarra sobre a minha família e que me magoaria. Sei que estamos em uma época bem mais moderna, mas ainda tenho esse cuidado”.
A resistência ao preconceito
Quando enfrenta discursos discriminatórios contra a família, a estudante aponta que nota uma maior incidência de comentários homofóbicos contra a orientação sexual do pai, o que ela não tolera em nenhuma circunstância. Alyce conta que, em um dos poucos momentos inconvenientes fora da web, chegou a desfazer uma amizade ao notar um comportamento homofóbico.
“Eu não esperava passar por isso depois de adulta. Há pouco tempo, um garoto fez umas piadas homofóbicas logo que comentei que o meu pai era gay. Achei aquilo muito estranho e cortei o contato totalmente.”

Alyce e o pai, Paulo — Foto: Arquivo pessoal
Ela comenta que sua consciência e respeito pela diversidade foi algo construído pela família ao longo dos anos, graças à mente aberta dos pais. Alyce relembra que já chegou a reproduzir falas conservadoras e preconceituosas, por influência religiosa. Ela só conseguiu mudar o pensamento conservador com muitas conversas, principalmente com seu pai: “Eu falava coisas com as quais nem me identifico. Por um ou dois anos, eu reproduzi aqueles pensamentos, mas depois, eu e minha mãe paramos de frequentar a igreja e eu fui amadurecendo. Meus pais conversaram muito comigo no processo”.
Dentro de casa, a estudante avalia que o relacionamento com Sandra e Paulo sempre foi fundamentado no amor e na liberdade. Desde a infância ela vive com a mãe, mas tem a presença do pai constantemente. Ambos nunca se ausentaram nos cuidados com ela e são amigos até hoje: “Eles nunca tiveram nada além de uma amizade e a relação deles é muito boa”.
Rede de apoio para outras famílias
Com a repercussão do vídeo, a família de Alyce recebeu diversos comentários. Apesar das falas preconceituosas de uma parcela dos internautas, a jovem focou nas mensagens positivas e, em especial, nos relatos de pessoas com histórias parecidas: “Os relatos que recebi foram marcantes. Um rapaz gay contou que ele e a amiga lésbica tiveram uma filhinha. Outra menina comentou que o pai também é homosexual. Há histórias semelhantes”.
Com a publicidade inesperada de seu relato, a jovem espera gerar debate sobre acolhimento às famílias diversas: “As pessoas julgam muito as coisas que são vistas como ‘fora do padrão’, mas famílias como a minha são funcionais, elas existem e elas têm que ser respeitadas”.
Para Alyce, a dinâmica dessas famílias não é o mais importante a ser observado, mas sim que os filhos sejam bem cuidados e recebam amor.
“Muitas vezes, as famílias que estão ‘fora dos padrões’ são até mais amorosas do que uma família tradicional. O importante é que exista carinho.”


