Festival Contato – Mais Arte, Menos Aids: Debate na Sé reforça que desigualdade ainda impulsiona novas infecções por HIV e dificulta o acesso à prevenção

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Quando a cidade decide ouvir: a Praça da Sé, o corpo coletivo e a coragem de falar sobre HIV

No fim da tarde de 1º de dezembro, Dia Mundial de Luta contra a Aids, São Paulo viveu um daqueles momentos raros em que a cidade — barulhenta, desigual, apressada — parece parar para escutar. Dentro do Projeto Contato: Mais Arte, Menos Aids, a Praça da Sé se tornou uma imensa sala de conversa a céu aberto. Um auditório sem portas, sem convites, sem reservas. Um espaço onde qualquer pessoa poderia chegar, sentar, perguntar, discordar, revelar, aprender.

Era um auditório movediço: começou em um canto, migrou para outro quando a chuva apertou, se recompôs sob guarda-chuvas, ganhou novos rostos conforme o vai e vem diário da Sé. Mas permaneceu. E permanecer é uma palavra carregada quando o assunto é HIV.

O debate, mediado pela jornalista Roseli Tardelli, diretora da Agência de Notícias da Aids, reuniu duas mulheres que encarnam, cada uma a seu modo, a luta cotidiana contra o estigma e pela dignidade: Guggaã Taylor, mulher vivendo com HIV há 30 anos, psicóloga e ativista; e Dra. Mafê Medeiros, infectologista do Instituto Emílio Ribas e pesquisadora do CRT.

Onde normalmente há pressa, medo e invisibilidade, naquele domingo houve escuta. E onde normalmente há silêncio, houve conversa — conversa profunda, generosa, necessária.

A pergunta que incomoda há 43 anos: por que ainda há novas infecções? Foi Mafê quem trouxe, com uma serenidade firme, a resposta que a ciência insiste em gritar há décadas: “Porque a desigualdade continua produzindo infecção.”

A epidemia já não é desconhecida como nos anos 1980, mas seus efeitos seguem estruturados nos mesmos marcadores: raça, território, classe, gênero, identidade. Informações existem — e estão em todas as plataformas —, mas acesso, cuidado e segurança não são igualmente distribuídos.

A fala de Mafê atravessou a praça: “Saúde não é só comprimido. É casa, é comida, é segurança para sair de casa, é não temer a violência. Quem não consegue garantir o básico não consegue garantir prevenção.”

E naquele momento, é como se a praça inteira compreendesse que falar de HIV não é falar de um vírus: é falar do Brasil.

Guggaã: uma vida que rompe narrativas

Se Mafê trouxe as lentes da ciência e da política pública, Guggaã trouxe o corpo. O corpo que vive, adoece, cai, levanta, aprende, se reconhece, se reinventa.

Ela nasceu com HIV, ainda numa época brutal da epidemia, Guggaã contou sobre o período em que, acreditando que morreria cedo, abandonou o tratamento por dois anos. E depois enfrentou a primeira internação que, segundo ela, “recolocou a vida no trilho”.

Mas seu relato foi além da biografia. Foi uma denúncia. “A escola não sabia falar de HIV. A saúde não sabia. A família não sabia. Eu cresci sem linguagem para entender o que se passava comigo. É isso que ainda acontece com muita gente.”

Quando Guggaã fala, a praça silenciosa parece ouvir algo que sempre soube, mas nunca disse: que ninguém vive com HIV sozinho — e que ninguém deveria morrer por falta de conversa, acolhimento e possibilidade.

A chuva, os guarda-chuvas e a insistência: metáforas de uma luta que não esmorece

Quando começou a chover, o auditório se deslocou. Cadeiras foram arrastadas, equipamentos cobertos, pessoas se abrigaram debaixo de marquises improvisadas. E, enquanto a cidade corria para se proteger, o debate continuou. A imagem: um grupo de pessoas enfrentando a chuva para continuar falando de HIV.

Como disse Roseli: “A gente é igual ao HIV: não desiste.”

Aquela pequena teimosia coletiva dizia muito sobre a história da resposta à epidemia no Brasil: feita na rua, na urgência, na criatividade, na resiliência.

Prevenção combinada: a ciência que avança, o acesso que ainda falta

O que há de mais avançado na prevenção ao HIV e outras ISTs? Dra. Mafê traduzia a ciência para a praça — e a praça respondia com perguntas, surpresa e desejo de saber mais.

PrEP – a prevenção antes da exposição

Ela explicou que a PrEP (profilaxia pré-exposição) hoje pode ser usada de duas formas: diária, quando a pessoa toma um comprimido por dia para manter proteção contínua; sob demanda, indicada principalmente para homens gays e bissexuais, em situações específicas, em que a pessoa toma os comprimidos algumas horas antes e após a relação sexual.

A plateia reagia com espanto. “Existe isso?” — e Mafê sorria, como quem diz: existe, funciona e é direito.

PEP – a prevenção depois do risco

A PEP (profilaxia pós-exposição), explicou ela, é uma corrida contra o tempo: deve ser iniciada em até 72 horas após uma situação de risco, tomada por 28 dias. É eficaz, gratuita e salva vidas — mas ainda pouca gente sabe.

DoxiPEP – prevenção para sífilis e clamídia

Respondendo a uma pergunta específica da plateia, Mafê esclareceu que a DoxiPEP é o uso da doxiciclina após o sexo para reduzir o risco de sífilis e clamídia, com forte evidência internacional e estudos agora iniciando no Brasil, em São Paulo e no Rio de Janeiro. “Funciona, mas exige responsabilidade”, alertou. Antibióticos têm impacto individual e coletivo — e cada avanço precisa vir acompanhado de cuidado ético.

Os injetáveis: o futuro que já existe, mas ainda não chegou para todos

E então veio a parte que mais impressionou o público: os antirretrovirais de longa duração, que eliminam a necessidade de tomar comprimidos diários.

Cabotegravir: uma injeção a cada 2 meses.

Lenacapavir: uma injeção a cada 6 meses.

“Imaginem tomar duas injeções por ano e estar protegido. Isso transforma vidas”, disse Mafê, lembrando que esses métodos já são realidade em pesquisas brasileiras e devem chegar ao SUS nos próximos anos — desde que haja prioridade política.

A praça silenciou. As pessoas se olharam com uma mistura de alívio e incredulidade. Era como se alguém tivesse acabado de abrir uma janela para um futuro mais gentil. “A ciência está pronta. O que não está pronto é o acesso. Precisamos democratizar.”

Como falar com a juventude? Educação de pares, afeto e linguagem

Ao responder à pergunta sobre como alcançar jovens — grupo que concentra grande parte das novas infecções —, Mafê foi categórica: “Jovem escuta jovem. O SUS precisa aprender com isso.” E Guggaã completou: “Antes de falar de HIV, a gente precisa falar de acolhimento.” Não existe prevenção sem vínculo.

Perguntada sobre seu autocuidado, Guggaã disse com a honestidade de quem já atravessou o pior: “Eu me cuido porque eu quero viver. Me alimento bem, faço terapia, movimento o corpo, aprendo sobre mim. Cuido da minha saúde como qualquer pessoa — só que mais.”

Um Brasil que ainda precisa escutar

No fim, a Praça da Sé já estava molhada e ainda assim havia gente — muita gente — acompanhando o debate, fazendo perguntas…

A praça testemunhou algo raro: uma conversa pública sobre sexualidade, direitos, prevenção, desigualdade e dignidade. E nesse encontro, a cidade revelou um Brasil que ainda existe: um Brasil que quer saber, que quer entender, que quer cuidar — quando tem espaço e quando é tratado com respeito.

O Festival Contato “Mais Arte, Menos Aids 2025” foi realizado pela Agência de Notícias da Aids em parceria com o Sesc Carmo, e, neste ano, a iniciativa contou com o apoio do Sesc São Paulo, da Coordenadoria Municipal de IST/Aids de São Paulo, das farmacêuticas Gilead e GSK/ViiV Healthcare e da Casa Gil Gondim, apresentando uma programação diversificada.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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