FERNANDO GABEIRA, DRAUZIO VARELLA E SANDY DEFENDEM A CAMISINHA NA FOLHA DE S.PAULO

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17/3/2007 – 11h15

A camisinha é assunto de destaque na edição deste sábado, 17, do jornal Folha de S.Paulo. Em sua coluna, na segunda página do primeiro caderno, o deputado federal Fernando Gabeira declara que “condenar o uso da camisinha representa um erro histórico, desses que nos fazem pedir desculpas meio século depois.” Na Folha Ilustrada, em entrevista a Mônica Bergamo, a cantora Sandy fala sobre o veto ao seu nome e ao do irmão, Junior, para cantar no encontro do papa Bento 16 com jovens no Pacaembu e afirma que é católica mas diverge da igreja. “Eu apóio o uso da camisinha, sempre apoiei e vou apoiar.” Na última página da Ilustrada , o médico Drauzio Varella assina o artigo “O Crime da Camisinha”, onde ele escreve que “levar a sério a opinião dos religiosos a respeito da melhor estratégia para combater a Aids é tão ridículo quanto contratar epidemiologistas para rezar missa e ouvir confissão.” Leia a coluna de Gabeira, a entrevista de Sandy e o artigo de Drauzio Varella na íntegra.

SEGUNDA VIDA

LULA FALOU sobre sexo seguro, criticou a Igreja Católica. Recebeu resposta rápida e dura. Isso já aconteceu comigo. Mencionei o tema num congresso internacional sobre Aids e o representante da Santa Sé ficou bravo. Condenar o uso da camisinha representa um erro histórico, desses que nos fazem pedir desculpas meio século depois.

No caso do aborto, a resposta também é direta. Numa das eleições no Rio, dom Eugênio Sales, que é um homem conservador, mas muito inteligente e estudioso, lançou uma lista de candidatos que não deveriam ser votados pela Igreja Católica. Como só tinha cinco segundos de propaganda, reagi assim: o arcebispo manda você não votar em mim, mas acha que você não deve usar camisinha; não se pode confiar nele em tudo o que recomenda. O papa Bento 16 diz agora que o segundo casamento é uma chaga.

Não é isso que a vida me ensinou. Andei pelas ruas do Rio com o senador Nelson Carneiro e testemunhei o carinho que as pessoas tinham por ele: “O senhor me ajudou a ser feliz, aprovando o divórcio, agora tenho uma segunda vida”. Existe, no entanto, um aspecto admirável no papa e sua tomada de posições. Ele não está preocupado em inchar a Igreja Católica: assim pensamos, esta é a palavra de Deus, quem se aproximar que saiba que não fazemos concessões no que nos parece essencial.

Em analogia com partidos políticos, constatamos que são raros os que se mantêm fiéis às suas posições. A política, é claro, alimenta-se da realidade, precisa responder constantemente às mudanças sociais. Saber adaptar-se aos novos tempos é importante. Mas transformar-se apenas para ficar no poder, ou para alcançar um coeficiente eleitoral, é um tipo de oportunismo que o comportamento de Bento 16 nega.

Isso não quer dizer também imobilismo completo. Foi divulgada a síntese de um documento no qual a Igreja Católica estaria reavaliando o uso da camisinha. Nos textos que li, isso era possível quando um dos cônjuges for soropositivo. Sinceramente, acho que, num caso desses, não é preciso de grandes estudos religiosos. É apenas condenar o suicídio.

Sempre tive dificuldade na cadeia a aceitar a greve de fome como forma de luta. Mesmo em Ghandi, a abstinência sexual parecia incompreensível. O número de pessoas que morrem todo ano com a Aids na África é equivalente aos mortos nos campos de concentração na 2ª Guerra. Com todo o respeito à integridade ideológica dos católicos, não há outro caminho a não ser o diálogo. Na vida real, as pessoas continuarão se amando e casando mais de uma vez.(Fernando Gabeira)

“Nem o papa é santo”

Um dia depois de receber a notícia de que setores da igreja vetaram seu nome e o do irmão, Junior, para cantar no encontro do papa Bento 16 com jovens no Pacaembú, a cantora Sandy falou à coluna:
FOLHA – Você é batizada e crismada?
SANDY – (rindo) – Sou batizada e tenho primeira comunhão. Sou de família católica. Na verdade, a gente não pôde participar do evento com o papa por causa de um compromisso inadiável que não podemos ainda revelar. E agora sai na imprensa que fomos dispensados do evento porque não temos o perfil da igreja. Não entendo. Todo mundo sabe que temos família, valores e uma conduta muito séria, né? E agora vem essa. É no mínimo surpreendente.
FOLHA – É que vocês, por exemplo, fizeram campanha pelo uso da camisinha, que a igreja condena.
SANDY – Eu apóio o uso da camisinha, sempre apoiei e vou apoiar. A gente aí diverge.
FOLHA – Você namora, fica.
SANDY – E tenho um noivo, né?
FOLHA – É melhor namorar e ficar ou ser santa e cantar para o papa?
SANDY – (rindo) Bom, primeiro que casar virgem não é atestado de santidade, né? Essa imagem me perseguiu por muitos anos, de ser intocável, santinha, virgem. Por muito tempo exploraram um assunto que não importa para ninguém, na verdade. Confundiram a minha discrição, a minha seriedade, com essa coisa de ser santa e tudo o mais. Não tem nada a ver. Eu não tenho essa opção. Ninguém é santo. Nem o papa.

O CRIME DA CAMISINHA

Drauzio Varella

Quanto sofrimento os senhores de aparência piedosa ainda causarão em nome de Deus?

“Preservativo tem que ser doado e ensinado como usar”, disse o presidente, no Dia Internacional da Mulher. É a primeira vez que um presidente da República faz defesa tão contundente do uso da camisinha em nosso país. Imediatamente, a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou nota: “A posição da Igreja é clara. Sempre o foi. Não mudou nem mudará. Não repetiremos nosso parecer a respeito. O modo de educar nossos adolescentes e jovens não pode ser feito com base na permissividade, incitando-os a um comportamento desregrado”.

Assim que surgiram os primeiros casos de Aids, estudos epidemiológicos conduzidos entre homens homossexuais de San Francisco, usuários de drogas injetáveis de São Paulo, prostitutas da Tailândia, caminhoneiros do Quênia e outros grupos de risco demonstraram de forma irrefutável que o preservativo era a forma mais eficaz de evitar a transmissão sexual do HIV.

Baseada nas pesquisas, a Organização Mundial de Saúde passou a recomendar que todos os países promovessem o uso e garantissem o acesso universal aos preservativos.

Na época, o papa, autoridade máxima do catolicismo, pronunciou-se contra a orientação da OMS, com o argumento de que distribuir camisinhas seria incitar os jovens a práticas condenáveis. Segundo ele, havia uma receita infalível para acabar com a AIDS: “Sexo, só depois do casamento, e nunca fora”.

Quem pode discordar de Sua Santidade? Se todos os habitantes da Terra acatassem sua prescrição, a epidemia realmente chegaria ao fim. O problema é que um número absurdo de mulheres e homens tem a mania de manter relações sexuais antes, durante e fora do casamento. Essas pessoas são tão insensíveis aos conselhos do sumo pontífice, que mesmo se ressuscitássemos Hitler, Stálin e Torquemada e os reencarnássemos em diabólica trindade numa única autoridade eclesiástica dotada dos mais incríveis poderes do mundo, ela seria incapaz de convertê-las à fidelidade conjugal e à castidade pré-matrimonial.

Você pode argumentar, leitor, que essa discussão é irrelevante, que o adolescente com a namorada no canto escuro não deixará de colocar a camisinha porque os bispos são contra nem vai fazer uso dela só porque o presidente Lula é a favor. De fato, mas a resposta pronta da CNBB ao presidente é emblemática. Explico por quê.

A força da oposição obstinada da Igreja Católica à distribuição farta e gratuita de preservativos não está absolutamente em sua influência moral ou religiosa sobre seus fiéis, cada vez mais raros e restritos às idades em que a atividade sexual se torna bissexta. O poder dos religiosos está em intimidar os políticos brasileiros.

De que forma? Faça a experiência de visitar um posto de saúde numa cidade qualquer. Pergunte se existe no município alguma estratégia de distribuição de camisinhas. Nos postos em que elas estiverem disponíveis, você ouvirá que são entregues aos que forem buscá-las. Por que as autoridades fazem corpo mole na hora de fazer a camisinha chegar às mãos dos usuários que mais necessitam dela: os mais pobres, os mais jovens, os que moram mais longe, os usuários de droga, as mulheres que vendem o corpo?

Por uma única razão: os políticos fogem do confronto com a Igreja Católica como o diabo da cruz. Só por causa da distribuição, o prefeito vai se indispor com o bispo? Mesmo que o padre da cidade discorde da orientação dada por seus superiores, como acontece com muitos religiosos sensíveis às agruras das comunidades em que atuam, que força terá para subverter a hierarquia da Igreja?

Levar a sério a opinião dos religiosos a respeito da melhor estratégia para combater a Aids é tão ridículo quanto contratar epidemiologistas para rezar missa e ouvir confissão. Diminuir a velocidade de disseminação do HIV é tarefa para técnicos da mais alta qualidade, capazes de elaborar programas de prevenção baseados em evidências científicas incontestáveis.

A CNBB afronta o presidente da República porque pretende reafirmar para os políticos menos poderosos que sua “posição é clara. Não mudou nem mudará”. Se não mudou nem mudará, pergunto: por quanto tempo a Igreja Católica cometerá o crime continuado de dificultar o acesso dos brasileiros à camisinha, em plena epidemia de uma doença sexualmente transmissível, incurável? Quanto sofrimento humano esses senhores de aparência piedosa ainda causarão em nome de Deus, impunemente?

Fonte: Folha de S.Paulo

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