Revista Quem / Fernando Campos: ‘As pessoas pensam que nós, cegos, não temos sexualidade’

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Fernando Campos ficou conhecido nas redes sociais por compartilhar todas as curiosidades de seu dia a dia, mas com um diferencial: o influenciador de 30 anos fala com humor e leveza sobre a relação que tem com a deficiência visual, que aconteceu em sua vida ainda na infância, quando foi diagnosticado com retinoblastoma bilateral aos dois anos de idade.

 

Ele já acumula mais de 400 mil seguidores nas redes e um dos temas que mais trata ali são as curiosidades acerca de sua vida pessoal, como o namoro com Bruno Furtado, com quem começou a morar junto esse ano. Em entrevista à Quem, Fernando lembra que o conheceu em uma micareta, correndo atrás do trio elétrico de Ivete Sangalo.

 

“Nós ficamos, ele amarrou uma pulseirinha no meu braço com o Instagram e o celular dele. Alguns dias depois, eu entrei em contato e a gente começou a sair. Nunca tive medo de que ele fosse uma dessas pessoas que só tivessem curiosidade porque o Bruno começou a demonstrar interesse até mais cedo do que eu e sempre foi muito carinhoso, muito respeitoso”, se recorda.

 

Contudo, o influenciador destaca que já passou por momentos bem tristes de pessoas que o rejeitaram justamente por ser uma pessoa com deficiência visual. “Passei por algumas situações chatas com outras pessoas antes de conhecer ele, como: estar conversando com alguém no WhatsApp, ou em aplicativo de paquera, e quando eu dizia que era cego, o cara sempre parava de responder”.

 

Fernando não foge de nenhum tipo de pergunta. Inclusive, ele é um dos convidados do documentário Transo, que entra para o catálogo do Globoplay em 2024, que explora temas como intimidades, masturbação, brinquedos eróticos e preferências sexuais. O documentário reforça a mensagem poderosa de que as pessoas com deficiência não só sentem prazer, mas também vivem vidas sexuais ricas e intensas.

 

“É muito importante esse tema porque é uma questão muito invisibilizada. As pessoas com deficiência são tidas muitas vezes como santinho, anjinho, coitadinho, e é arrancado a libido de nós. Então é um grito de liberdade e as pessoas vão gostar muito de assistir porque é um documentário que contém histórias fascinantes, é emocionante, é engraçado em muitas partes, e é sutil, é leve”, comenta.

 

É comum perceber que pessoas sem deficiência sentem curiosidade e até fetiche por PCD, muitas vezes menosprezando os sentimentos dela e usando-a apenas para satisfazer os desejos pessoais. Fernando acredita que a curiosidade é, até certo ponto, bem-vinda, mas quando alguém ultrapassa esse limite é desrespeitoso.

 

“Estou colocando a minha cara nas redes sociais para responder a curiosidade de outras pessoas sobre a vida da pessoa com deficiência, inclusive sobre a sexualidade delas, diante da minha vivência. Porém, isso vai até um certo ponto, uma pessoa ficar com um PCD só porque tem curiosidade, fetiche e deseja satisfaze-lo, e depois a pessoa não quer ter algo sério porque tem vergonha é completamente reprovável.”

 

Fernando Campos e o marido, Bruno Furtado, nos Lençóis Maranhenses — Foto: Reprodução/Instagram

Gay e PCD

 

Durante a adolescência, ainda na fase da puberdade, Fernando começou a perceber que o que sentia pelos homens era mais do que amizade. Este foi um processo um longo para quem é cego e para alguém que não tinha referências de homens gays e cegos. O primeiro passo foi aceitar a si mesmo para, depois, falar sobre o assunto com os amigos e com a família. Ele recebeu todo o apoio necessário de seus familiares e diz que é difícil estar na intersecção entre o deficiente visual e o homossexual.

 

“Quando somos pessoas com deficiência, nós já pertencemos a um grupo que está à margem, que é excluído da sociedade. Quando nós nos entendemos como gays, nós percebemos que fazemos parte de mais um grupo que também é excluído. Eu já ouvi comentários dentro e fora das redes sociais de pessoas dizendo ‘não basta ser cego, também é gay’. Essas palavras só mostram que realmente as pessoas pensam que nós, cegos, não temos sexualidade.”

 

Sobre os desafios específicos que ele enfrenta por ser um homem cego e gay, o influenciador afirma que essa intersecção o coloca em uma série de locais de vulnerabilidade, pois o Brasil ainda é o país que mais mata pessoas LGBTQIAPN+ no mundo. De acordo com o levantamento do Grupo Gay da Bahia, realizado a partir de notícias publicadas nos meios de comunicação, foram 242 homicídios somente em 2022 – ou uma morte a cada 34 horas -, além de 14 suicídios.

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