Família, fé e acolhimento: os pilares que transformaram a vida de Rute após o diagnóstico de HIV

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Aos 68 anos, Rute Jovina da Silva Lima, moradora de São Miguel Paulista, carrega no rosto o sorriso de quem aprendeu a resistir. Mãe de quatro filhos, avó de seis netos e bisavó de dois, ela descobriu o HIV em 2024. A notícia, recebida em uma sala de consulta, quase a levou ao desespero. Atualmente, ela conta como o diagnóstico transformou sua vida e quais foram os apoios que lhe deram forças para seguir em frente.

“Quando eu soube da infecção pelo HIV, pensei até em suicídio, acredita? Foi um choque muito grande. Eu chorava sem parar, não aceitava”, lembra.

Nossa entrevista entrevista com Rute traz a história de uma mulher que enfrentou o estigma, a depressão e o medo. Ao lado da família, da fé e do Instituto Vida Nova, ela encontrou apoio para cuidar não apenas do corpo, mas da mente — uma trajetória que também dialoga com as reflexões do Setembro Amarelo, mês dedicado à prevenção do suicídio e à valorização da vida.

O impacto do diagnóstico

Os primeiros sinais apareceram com sintomas físicos:

“Tive diarreia e vômito, durante 15 dias. Minha filha falou: mãe, isso não é normal, vamos ao médico. Chegando lá, ele pediu exames. No dia da consulta, se eu tivesse olhado o papel antes, tinha saído correndo e feito uma besteira”, recorda.

Quando recebeu a confirmação, o mundo pareceu desmoronar:

“Ele falou: você está com o vírus do HIV e sífilis. Eu gritava na sala. Comecei a chorar, eu dizia que não aceitava. Ele me pediu calma e disse: aceita que dói menos. Eu só pensava em acabar com a minha vida.”

Mudanças e primeiros passos

Apesar do choque, Rute encontrou no cuidado médico e no acolhimento da equipe de saúde o primeiro ponto de apoio:

“A infectologista foi excelente. Ela me tratou com muito carinho. Depois me encaminharam para o posto de saúde. Fui bem recebida e comecei a entender que eu não ia morrer”, conta.

Rede de apoio e acolhimento

O caminho de superação começou quando ela chegou ao Instituto Vida Nova, organização localizada na zona leste de São Paulo criada para apoiar pessoas vivendo com HIV e suas famílias:

“Ali eu encontrei o amor de todos. Do Américo, da Gi, da Eliana, da Ariana, do Marcos [equipe do Instituto]. Nossa, eu fui muito bem recebida. Ali é a minha segunda casa. Passei na psicóloga, conversei com fisioterapeuta, fiz academia. Foi onde minha vida começou a mudar.”

Além das atividades físicas, foi no Instituto que ela encontrou novos amigos:

“Já chego brincando com todo mundo, zoando. As meninas falam: ‘dona Rute, com a senhora não tem tempo ruim, a senhora é fogo!’ Eu gosto de levar alegria pra todo mundo.”

Família e fé

Outro pilar essencial foi a família:

“Minhas duas filhas mais velhas estavam comigo no dia da consulta. Elas ficaram apavoradas, mas não me deixaram sozinha. Meus netos brincam comigo, estão sempre ao meu lado. Sou muito feliz com minha família.”

A fé também tem lugar central em sua rotina:

“Eu sou evangélica, vou à igreja, faço campanhas e orações. Isso me dá forças para seguir em frente e continuar acreditando.”

Saúde mental e resiliência

Hoje, Rute fala sobre a importância de cuidar da mente tanto quanto do corpo:

“Se a nossa cabeça não tá bem, o corpo também não fica. O médico sempre me fala isso. E eu sinto que é verdade. A gente precisa estar alegre, animada, entusiasmada. Não pode deixar a tristeza pegar.”

Ela reconhece que o tratamento e a adesão correta aos medicamentos foram decisivos para dar mais tranquilidade:

“Eu tomo tudo certinho, logo de manhã, para não esquecer. Isso me dá paz, porque sei que estou cuidando de mim.”

Sonhos e mensagem final

Apesar dos desafios, Rute mantém o bom humor, os sonhos e, principalmente, uma bondade imensurável:

“Meu sonho é ficar rica, ganhar na loteria pra poder ajudar os amigos da fundação. Já falei pra eles: se eu ganhar, dou um milhão pra cada um. Eles torcem pra eu ganhar logo”, ela diz sorrindo.

Um exemplo de como Rute transformou a própria dor em acolhimento está na lembrança de uma conversa recente:

“Conheci uma amiga cujo filho estava passando pela mesma situação que passei. Eu disse: diz que eu quero conhecer ele, pra tentar levar alegria pra ele”, contou.

O episódio mostra como, mesmo carregando marcas profundas, ela se tornou fonte de apoio e inspiração para outros.

E para quem enfrenta agora o mesmo caminho que ela percorreu, Rute deixa um recado cheio de esperança:

“É não deixar a peteca cair. É ser feliz, ser alegre. Aproximar-se da família, dos amigos, não ficar sozinho. Eu sou muito alegre, comigo não tem tempo ruim. Se todo mundo fosse assim, não teria tristeza no mundo. Hoje sou uma pessoa feliz novamente.”

Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)

Estagiário em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

Dica de entrevista

Instituto Vida Nova

Telefone: (11) 2297-1516

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