“Faça o seu abadá da prevenção”: infectologista defende camisinha, gel e autonomia para curtir o Carnaval com prazer e segurança

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Infectologista explica a importância desse item da mandala da prevenção combinada, pensada para ajudar pessoas a escolherem as estratégias mais adequadas ao seu contexto.

A ideia de criar uma barreira física para reduzir riscos durante o sexo não é nova. Registros históricos indicam que formas primitivas de preservativos já existiam há séculos, feitas com tecidos, linho e até membranas de origem animal. No entanto, o uso desses materiais estava mais ligado à prevenção de doenças venéreas conhecidas à época, como a sífilis, do que a uma política estruturada de saúde pública.

Foi apenas no século XX, com o avanço da ciência e da indústria do látex, que os preservativos passaram a ter o formato e a eficácia próximos dos atuais. A popularização da camisinha de borracha marcou uma virada importante, tornando o método mais acessível, resistente e confortável, o que ampliou seu uso em larga escala

No Brasil, o preservativo ganhou um papel central a partir da resposta à epidemia de HIV, especialmente a partir dos anos 1980 e 1990. Campanhas públicas, distribuição gratuita e ações educativas passaram a associar a camisinha não apenas à prevenção de doenças, mas também ao direito à informação, ao prazer e à autonomia sexual.

Com o tempo, a estratégia evoluiu. O Sistema Único de Saúde (SUS) passou a disponibilizar não apenas o preservativo externo, mas também o preservativo interno e o gel lubrificante, reconhecendo que a prevenção precisa considerar diferentes corpos, práticas e contextos. Hoje, esses insumos fazem parte da mandala da prevenção combinada, ao lado de testagem, PrEP, PEP e vacinas.

Com a chegada do Carnaval, período marcado historicamente por maior liberdade sexual no Brasil, falar sobre prevenção ao HIV e a outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) torna-se ainda mais urgente. Dentro da mandala da prevenção combinada, o uso de preservativosexterno e interno, associado ao gel lubrificante, segue sendo um dos pilares centrais para uma vivência sexual mais segura, prazerosa e responsável.

Segundo o infectologista Dr. Álvaro Furtado, a mandala da prevenção não é uma regra rígida, mas um conjunto de estratégias que precisam ser conhecidas e incorporadas ao cotidiano das pessoas. “Ela reúne tudo aquilo que quem tem vida sexual ativa deve conhecer e implementar na própria vida, antes, durante e depois do Carnaval”, explica.

A mandala da prevenção e o “abadá” do cuidado

Para o especialista, o Carnaval evidencia algo que faz parte da realidade brasileira: o aumento da liberdade sexual. “As pessoas vão para os blocos, se conhecem, têm mais facilidade de ter atividade sexual. Isso é um fato histórico do nosso país. Mas liberdade precisa conversar com responsabilidade”, afirma.

É nesse contexto que a prevenção combinada ganha força. De forma didática, o infectologista compara a estratégia a um “abadá da prevenção”. “É como abrir a pochete e ter tudo ali dentro: camisinha, gel lubrificante, testagem, PrEP, PEP e vacina. Não existe só camisinha. Existem várias ferramentas que, combinadas, funcionam muito melhor.”

Preservativos: eficácia depende do uso correto e constante

Os preservativos externo e interno seguem como ferramentas altamente eficazes na prevenção do HIV e de outras ISTs, desde que utilizados corretamente e em todas as relações. O problema, segundo o médico, não está na camisinha em si, mas na dificuldade de adesão.

“As pessoas não usam camisinha 100% das vezes. Ou não sabem colocar, ou não sabem retirar, ou usam de forma inadequada. Aí o que acontece é uma falsa sensação de ineficácia”, explica. Ainda assim, ele reforça: “Se a pessoa consegue usar todas as vezes, é um excelente método de proteção e um dos grandes pilares da prevenção.”

Gel lubrificante também é prevenção

Apesar de muitas vezes negligenciado, o gel lubrificante tem papel fundamental dentro da prevenção combinada. Seu uso reduz o risco de traumas, microfissuras e sangramentos durante a relação sexual, situações que facilitam a transmissão de infecções.

“Sem lubrificação adequada, pode haver trauma e microfissuras, que são portas de entrada para patógenos. O gel lubrificante protege porque mantém a mucosa hidratada e diminui esse risco”, explica o infectologista.

Ele também alerta para o tipo correto de produto: “O ideal é o lubrificante à base de água, como os disponibilizados pelo Ministério da Saúde. Produtos à base de óleo ou silicone podem romper o preservativo e aumentar o risco.”

Mandala da prevenção

Onde encontrar camisinha e gel gratuitamente

Preservativos e gel lubrificante estão disponíveis gratuitamente em todas as Unidades Básicas de Saúde (UBSs) do país. Além disso, centros de referência que ofertam PrEP e PEP também distribuem esses insumos, assim como realizam testagem rápida para HIV, sífilis e hepatites virais.

“Basta procurar a unidade de saúde mais próxima ou consultar a lista de serviços no site do Ministério da Saúde. Não precisa ter vergonha nem justificativa”, reforça o médico.

Falar de prevenção sem moralismo

Para o infectologista, um dos maiores desafios ainda é o discurso moralista em torno do sexo. “Existe muita dificuldade em falar sobre sexualidade, como se fosse algo errado. Mas sexo faz parte da vida”, afirma.

Ele defende uma abordagem mais natural, especialmente no Carnaval. “Hoje temos ferramentas com eficácia comprovada. Não usar essas estratégias, tendo tudo disponível no SUS, é uma pena. Precisamos vencer o moralismo e fazer com que as pessoas se sintam à vontade para buscar prevenção.”

Em São Paulo, por exemplo, os preservativos e lubrificantes podem ser encontrados também nas estações de metrô, trem e terminais de ônibus.

A mensagem para o Carnaval

A orientação final é clara: avaliar a própria vida sexual e não ter medo de combinar estratégias. “Se você deixou de usar camisinha alguma vez, isso já é um sinal para buscar a prevenção combinada. Não é vergonha, não é motivo de medo.”

Segundo ele, prevenção também é autonomia. “Faça o seu abadá da prevenção. Use camisinha, use gel, teste, conheça a PrEP e a PEP. Dá para curtir o Carnaval com prazer, liberdade e segurança. Isso é prevenção moderna.”

Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)

Estagiário em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

Dica de entrevista

Dr. Álvaro Furtado

Instagram: @dr.alvarocosta

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