Exibição da série “Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente” abre Dezembro Vermelho em São Paulo com debate sobre memória, estigma e vulnerabilidades

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A abertura oficial do Dezembro Vermelho 2025 em São Paulo — mês de mobilização nacional para prevenção do HIV/aids, enfrentamento ao estigma e defesa dos direitos das pessoas que vivem com HIV — reuniu gestores, ativistas, profissionais do SUS e representantes da sociedade civil na exibição especial do primeiro episódio de Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente, série da HBO Max produzida pela Morena Filmes. A sessão, realizada na noite deste domingo (30) no Hotel Pestana, marcou o início da programação municipal com arte, memória e diálogo público sobre os desafios atuais da resposta à epidemia.

Memória como cuidado coletivo

Antes da exibição, Cristina Abbate, coordenadora da Coordenadoria de IST/Aids da Secretaria Municipal da Saúde, destacou que o 1º de dezembro é, sobretudo, um dia de homenagem e reflexão. “É sempre um dia de memória. A gente traz para a sociedade a lembrança das pessoas que não tiveram oportunidade de estar aqui, de ter suas vidas preservadas e de usufruírem dos avanços que hoje existem”, afirmou. Ela destacou que a escolha do episódio não foi casual: “Ele retrata com precisão o momento inicial da aids no país. Só faz sentido nosso trabalho se for para melhorar a vida das pessoas que vivem com HIV.”

A gestora também agradeceu a presença de diversos parceiros da rede municipal e estadual, ressaltando que a resposta paulistana é sólida porque se constrói coletivamente, em diálogo permanente com serviços, hospitais, movimentos sociais e academia.

Uma volta aos anos mais duros da epidemia

O episódio exibido revisita os anos 1980 e 1990, período em que o HIV era marcado pelo desconhecimento, pela ausência de tratamentos eficazes e por mortes que traumatizaram gerações. A série usa elementos documentais para contar histórias de medo, resistência, vazio e luta, recuperando uma memória que ainda orienta políticas e acolhimentos atuais. O público acompanhou emocionado cenas que ecoam até hoje no SUS, especialmente nos serviços que atendem populações vulnerabilizadas.

“Por que ainda lutamos tanto?”

Após a exibição, a diretora da Agência de Notícias da Aids, Roseli Tardelli, mediou uma roda de conversa com Cláudio Pereira, presidente do GIV; Márcia Marci, gestora cultural e ativista; Victor Bebiano, diretor da série; e o médico Aluísio Segurado. A abertura do debate partiu de uma pergunta de Roseli, que ecoou a inquietação sentida no cinema improvisado da sala: “Quase 45 anos depois do início da epidemia, por que ainda lutamos tanto? Por que ainda dói quando chega um diagnóstico? Por que ainda perdemos pessoas?”

Um vídeo enviado pelo ator Evandro Manchini — que vive com HIV há dez anos — reforçou essa reflexão. “Se temos tratamento gratuito e eficaz, por que ainda há tantas pessoas morrendo? O estigma pesa na decisão de viver, de seguir o tratamento. HIV não é moral, é saúde pública”, disse.

Avanços, retrocessos e desigualdades persistentes

Cláudio Pereira foi o primeiro a responder. Ele reconheceu os avanços tecnológicos e clínicos — do tempo em que um exame levava um mês para ficar pronto aos testes rápidos de hoje —, mas afirmou que a desigualdade segue como eixo central das dificuldades. “Questões sociais ainda estão presentes de maneira muito forte. A discriminação, a incapacidade de aceitar o outro… Parece que estamos voltando algumas casas.”

Vulnerabilidade programática e responsabilidade institucional

A discussão foi aprofundada por Aluísio Segurado — médico, pró-reitor de graduação da USP, diretor do Instituto Central do Hospital das Clínicas e líder da chapa ‘USP Pelas Pessoas’, vencedora do primeiro turno da eleição para reitor da universidade, reconhecido por sua atuação técnica no enfrentamento da pandemia de Covid-19.

Ele apresentou o conceito das três dimensões da vulnerabilidade — biológica, social e programática — e destacou que a responsabilidade do poder público é atuar justamente nesta última: “É nossa missão garantir que insumos, prevenção, diagnóstico e cuidado cheguem a todos os ambientes. Vulnerabilidade programática não pode seguir existindo.”

A fala mobilizou o público, sobretudo profissionais que lidam diariamente com desafios de acesso e continuidade de cuidado.

Transfobia, racismo e apagamentos históricos

Em uma das falas mais emocionantes da noite, Márcia Marci, mulher trans e gestora cultural, explicou por que a epidemia ainda pesa tanto sobre travestis e mulheres trans. “A resposta não é única. São muitas respostas. A comunidade trans no Brasil sempre foi deixada para trás. Nunca fomos prioridade nas políticas públicas”, afirmou. Ela resgatou perdas profundas, apagamentos e o impacto do racismo estrutural sobre as mulheres trans — sobretudo as negras.

Márcia lembrou ainda que, por muito tempo, travestis e mulheres trans não tiveram sequer o direito ao nome social e foram marginalizadas inclusive dentro do próprio movimento LGBT. No fim da fala, emocionada, pediu desculpas pelas cenas fortes da série e revelou que era a primeira vez que via o episódio acompanhada da mãe e da sobrinha, presentes no evento.

Debate coletivo aponta urgências

A troca de perguntas após o painel evidenciou que o episódio da série foi apenas um gatilho para questões mais profundas: desafio da adesão ao tratamento, novas tecnologias de prevenção, impacto do estigma, racismo estrutural, situações de violência, necessidades específicas da população trans e o papel das ONGs na manutenção da resposta brasileira ao HIV/aids.

O cineasta Victor Bebiano disse que esse era justamente o propósito da obra. “Memória é ferramenta política. As histórias do passado nos ajudam a enxergar o que ainda precisamos fazer no presente.”

“A arte tem a capacidade de abrir caminhos onde antes parecia não haver nada. Quando contamos novas histórias, quando revisitamos nossa memória coletiva com outros olhares, também reescrevemos o futuro”, destacou Victor.

Ao unir arte, memória, ciência e mobilização social, a Coordenadoria de IST/Aids reforçou que o Dezembro Vermelho é um chamado à reflexão e ao compromisso. A noite terminou com a sensação de que o passado da epidemia ainda pulsa, mas que a luta — plural, afetiva e política — segue viva e necessária.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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