“Exagerado”: entre versos e coragem, Cazuza volta a São Paulo na maior exposição já dedicada ao artista

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São Paulo foi palco, na noite de quarta-feira (14), do coquetel de abertura da maior exposição já dedicada a Agenor de Miranda Araújo Neto. “Exagerado”, como ele próprio se definia, Cazuza voltou a ocupar o centro da cena cultural brasileira com uma mostra que revisita sua trajetória artística, sua força poética e sua postura pública diante da vida, da arte e da epidemia de HIV/aids.

No Shopping Eldorado, familiares, artistas, amigos e fãs se reuniram para celebrar os 40 anos do álbum Exagerado — aquele que ensinou gerações a cantar que “amor da minha vida, daqui até a eternidade” também pode ser grito, excesso e verdade. A exposição Cazuza Exagerado propõe um reencontro com o artista que escreveu sobre o país, sobre o corpo, sobre o desejo e sobre a morte sem pedir licença, deixando versos que seguem atravessando o tempo, como “o tempo não para”.

A presença de Lucinha Araújo, mãe do artista e responsável pela preservação de seu acervo ao longo de décadas, deu o tom do encontro. Entre abraços, músicas, lembranças e emoção contida, a noite foi marcada por reconhecimento coletivo e pela certeza de que Cazuza segue vivo onde sua obra continua sendo cantada, discutida e sentida.

A Agência Aids acompanhou a abertura da exposição e conversou com o poeta Ramon Nunes Mello, curador da mostra, que define Cazuza Exagerado como um convite ao encontro direto com a dimensão humana de um artista que transformou poesia em canção e coragem em gesto público.

“O Cazuza não era só um cantor, ele era um artista apaixonado por poesia, fotografia, por música. E tudo isso está na obra do Cazuza, muito presente.”, afirma.

A maior exposição já realizada

Com 1.800 metros quadrados, 11 salas temáticas e um acervo de mais de 700 itens, Cazuza Exagerado apresenta roupas, manuscritos de letras e poemas, documentos, objetos pessoais, desenhos e registros em áudio e vídeo preservados pela família do artista. O percurso é cronológico e atravessa diferentes fases de sua vida: da infância ao sucesso com o Barão Vermelho, da consolidação da carreira solo aos últimos anos.

A curadoria buscou equilibrar rigor histórico e experiência sensorial. Para Ramon, o trabalho exigiu um mergulho profundo:

“Durante dois anos eu trabalhei nos livros ‘Protegi o teu nome por amor’ e ‘Meu lance é poesia’, . Isso me deu acesso a todo o acervo da Lucinha. Foi esse processo que levou ao convite para assinar a curadoria da exposição.”

Ao lado do artista visual Marcelo Jacobi, Ramon concebeu cada sala como um espaço de contexto e memória, utilizando recursos tecnológicos sem perder o foco no material original.

Os espaços onde Cazuza viveu e criou

Entre os núcleos mais impactantes estão as reconstruções de ambientes marcantes da trajetória do artista, como a Pizzaria Guanabara, o palco e camarim do último show no Canecão, o programa do Chacrinha e a Galeria Alaska, espaço simbólico da cena cultural carioca dos anos 1980.

A temporada em São Paulo também incorpora conteúdos inéditos relacionados à relação de Cazuza com a cidade, como o primeiro show da turnê Ideologia, no Aeroanta, em 1988, e o episódio do Radar Tantã, quando integrantes do Barão Vermelho foram presos, fato amplamente noticiado à época. A exposição aborda ainda o período em que o artista passou parte de seu tratamento médico em São Paulo.

Arte, HIV e enfrentamento do estigma

Um dos eixos centrais da mostra é o modo como Cazuza lidou publicamente com a infecção pelo HIV, em um momento histórico marcado por medo, desinformação e discriminação. Para o curador, esse aspecto é inseparável de seu legado.

“Quando Cazuza se infectou pelo HIV, ele demonstrou uma nobreza e uma grandeza raras, ao decidir falar abertamente sobre a aids. Essa postura teve um impacto profundo: possibilitou que hoje, por exemplo, eu esteja aqui falando publicamente sobre o HIV. Naquele momento da epidemia, o cenário era marcado por muito preconceito e discriminação — o que, em alguma medida, ainda persiste. Mas Cazuza foi uma das pessoas que tornaram possível que o tema fosse tratado de forma aberta. Isso tem uma força muito grande, e essa dimensão está presente na exposição”, afirma Ramon.

A exposição apresenta esse período com cuidado e respeito, sem espetacularização, destacando a dignidade com que Cazuza enfrentou a doença e o impacto simbólico de sua atitude para a sociedade brasileira.

Programação viva e diálogo com o público

Além do percurso expositivo, a mostra conta com o espaço Cantos e Contos, um palco dedicado a apresentações musicais, leituras de poemas e encontros públicos. A proposta é ampliar o diálogo com a obra de Cazuza e ativar sua memória no presente.

Apresentada anteriormente no Rio de Janeiro, Cazuza Exagerad* recebeu mais de 60 mil visitantes e contou com a presença de artistas como Gilberto Gil, Ney Matogrosso, Marieta Severo, Roberto Frejat, Bebel Gilberto, Rogério Flausino, Wilson Sideral e Sandra de Sá.

Uma obra que permanece

Ao ser provocado a definir Cazuza em uma palavra, Ramon Nunes Mello não hesita: “Poesia.” Sobre aids, responde: “Luta.” E sobre amor: “Amor.”

Quatro décadas após Exagerado, a exposição reafirma que a obra de Cazuza permanece atual — não apenas por suas canções, mas pela coragem de quem escolheu viver e se expressar sem concessões. Em São Paulo, essa memória se transforma em experiência pública, aberta ao encontro, à reflexão e à emoção que nasce do reconhecimento.

Confira a galeria de fotos a seguir:

Entre memórias, música e emoção: “Cazuza Exagerado” transforma legado em experiência imersiva

Apresentada pelo Ministério da Cultura e Bradesco, com realização da Sorria!, coprodução da Hit Makers, empresa do Grupo 4ZERO4, Caselúdico e Viva Cazuza, a mostra celebra os 40 anos do álbum Exagerado, lançado em 1985.

Grande parte dos mais de 700 itens expostos veio do acervo pessoal preservado durante décadas por Lucinha Araújo, mãe do artista e presidente da Sociedade Viva Cazuza, incluindo roupas, documentos, manuscritos de letras e poemas, desenhos, registros em áudio e vídeo e objetos pessoais do filho.

Dezenas de pessoas prestigiaram o evento em São Paulo.

A curadoria é assinada por Ramon Nunes Mello, responsável pelos livros Meu Lance é Poesia e Protegi Teu Nome por Amor.

“Cada sala foi pensada para provocar emoção, como se o público caminhasse pelos bastidores da vida e da obra de Cazuza”, resume o curador Ramon Nunes Mello.

“A leitura da edição da Veja, que traz meu retrato na capa produz em mim – e acredito que em todas as pessoas sensíveis e dotadas de um mínimo de espírito de solidariedade – um profundo sentimento de tristeza e revolta.” – Trecho da resposta de Cazuza a reportagem da Veja, em 1089.

A Sala 3 mergulha no início da carreira solo de Cazuza, exibindo discos e rascunhos de letras que futuramente se tornariam grandes sucessos.

Redação da Agência de Notícias da Aids

Serviço

Exposição: Cazuza Exagerado
Onde: Shopping Eldorado
Endereço: Alameda Jardins – 2º SS – Pinheiros, São Paulo – SP – 05402-600
Até o final de março de 2026

Ingressos: https://cazuzaexposicao.com.br/

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