
Perda inestimável, pessoa fundamental na história da luta contra a aids e grande personalidade. Ex-diretores do antigo Programa Nacional de DST/Aids lamentam profundamente a morte da biomédica Lair Guerra de Macedo Rodrigues. Ela faleceu nesta quarta-feira (13), aos 80 anos. A piauiense, natural de Curimatá, 775 km ao Sul de Teresina, estava internada na UTI de um hospital de Brasília (DF) desde o início do ano, após ter sido diagnosticada com pneumonia.
Lair foi a primeira coordenadora do Programa Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde, em 1986, auge da epidemia de HIV/Aids. Em reconhecimento ao seu trabalho, a Assembleia Geral da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical indicou o seu nome para o Prêmio Nobel da Paz, em 2004.
Graduada na Universidade Federal de Pernambuco, começou a lecionar Microbiologia na Universidade Federal do Piauí (UFPI) e a administrar o laboratório da instituição em 1977. A piauiense fez pós-graduação no Centro de Controle de Doenças (CDC) e em Harvard, nos Estados Unidos, após obter bolsa da Organização Pan-americana de Saúde. Lá, a biomédica atuou como pesquisadora visitante na área de doenças sexualmente transmissíveis.
Lair cursou ainda o mestrado em Microbiologia na Georgia State University e acompanhou as primeiras pesquisas sobre o vírus HIV. Ao retornar ao Brasil, foi nomeada para coordenar o programa brasileiro de controle DST/Aids.
Ela liderou campanhas de esclarecimento sobre o uso de preservativo e o combate ao HIV. Além de ter mobilizado o país para fiscalização dos bancos de sangues e se aliado a ONGs para adotar políticas públicas de enfrentamento ao HIV.
Confira os depoimentos a seguir:
Alexandre Granjeiro, sociólogo, pesquisador e foi diretor do Departamento Nacional IST/Aids em 2003 e 2004: “Foi com pesar que recebi a notícia da morte de Lair Guerra. De imediato veio à memória o dia em que também recebi a notícia do acidente de trabalho que a tirou da liderança da resposta à aids no Brasil. São notícias que marcam nossas trajetórias e nos trazem lembranças e perguntas. Lair, como as grandes personalidades, estava longe de ser uma pessoa que não suscitava polêmicas. Mas era exatamente sua capacidade de aprender e lidar com essas polêmicas que a tornava uma pessoa admirável. Lair foi a principal liderança a nacionalizar a resposta ao HIV ainda na década de 1980, a partir das experiências locais, das críticas e reivindicações da sociedade civil, da urgência colocada pelas pessoas com HIV, assim como foi a responsável por internacionalizar a resposta brasileira, influindo nas políticas globais, tanto das Nações Unidas como dos organismos bilaterais. Se muitas pessoas, histórias e circunstâncias construíram a resposta ao HIV no Brasil, o que reconhecemos hoje como uma resposta governamental nacional de excelência deve-se ao trabalho de Lair. A ela cabem as sementes de uma resposta nacionalizada fundada na primazia técnica, na inovação, em reunir as melhores capacidades, em mobilizar os recursos necessários (ela foi responsável pelo primeiro Acordo de Empréstimo com o Banco Mundial, que mudou a resposta à AIDS no Brasil), em colocar a aids na agenda política e da sociedade, em ouvir os amigos e inimigos e, até mesmo, em transformar seus próprios valores preconcebidos em diretrizes de defesa dos direitos das pessoas afetadas. Hoje é dia de prestar um tributo à Lair, aos princípios da resposta ao HIV no Brasil e, com essa memória, refletir sobre o nosso presente, nossos desafios e nosso futuro. Obrigado, Lair.”
Dra. Mariângela Simão, médica pediatra, sanitarista, e ex diretora do Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde do Brasil: “Recebi com pesar hoje a notícia do passamento da Dra. Lair Guerra e quero deixar meu testemunho de que a Dra. Lair, por seu espírito aguerrido, destemida, uma mulher que foi batalhadora, ativista dos direitos das pessoas afetadas pelo HIV, naquela época deixou seu DNA de forma fundacional na resposta brasileira ao HIV e aids a medida em que ela lutou pela incorporação de tecnologias que beneficiassem os pacientes, pessoas que viviam com HIV, e lutou pelos direitos e pela prevenção dos grupos mais vulneráveis. A Dra. Lair é um marco na história brasileira do enfrentamento da epidemia do HIV/Aids.”
Dr. Fábio Mesquita, médico epidemiologista e esteve a frente do Departamento de Aids no Brasil entre 2013 e 2016 : “A dra. Lair Guerra foi tudo na história da luta contra a aids nesse país. Foi a precursora, a mãe, a pessoa que, logo depois que surgiram os primeiros casos e que o governo de São Paulo já havia montado um programa de Aids, ela foi quem puxou essa agenda para o nível nacional e implantou o programa nacional. Ela se articulou internacionalmente e enviou para educar e formar os grandes quadros da luta contra aids daquela época do Brasil, nos anos 80,90. É uma pessoa fundamental a história. Eu me lembro quando nós celebramos os 30 anos da criação do programa, ela já tinha sofrido o acidente, não tinha condições de escrever, ela fez um capítulo sobre a história dela e a participação dela, que foi escrito pelo professor Euclides Castilho, da faculdade de Medicina da USP, que também era um grande colaborador. Esse capítulo mostrou todo o papel dela, naqueles 30 anos de luta contra aids.”
Dra. Adele Benzaken, infectologista, diretora médica do Programa Global da Aids Healthcare Foundation (AHF) e ex-diretora do Departamento de HIV/Aids: “É uma perda inestimável para a história do HIV/Aids no país. Dra. Lair Guerra foi um exemplo de mulher forte em um período muito importante no início da epidemia, onde realmente sua figura marcou e elevou o Brasil como um dos principais países campeões na luta contra o HIV.Dra. Lair foi um modelo para mim, quando no início de minha carreira eu era coordenadora do Programa Estadual do Amazonas. Minha admiração era enorme por ela com quem convivi muito de perto naquela época, em diferentes momentos em várias reuniões no Ministério da Saúde. Recebo esta notícia com tristeza, porque por ela tinha uma admiração e carinho muito especial e a empatia de ser uma mulher forte no poder, um exemplo para todas nós que trabalhamos e vivemos a saúde pública do país como uma das principais metas de nossas vidas. Vá em paz, dra. Lair.”
Dr. Gerson Pereira, ex-diretor do Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis: “Hoje, o amanhecer trouxe consigo uma melancolia profunda, a notícia do falecimento de Lair Guerra de Macedo Rodrigues. Lair Guerra, ilustre conterrânea, minha mestra, e uma humanista excepcional. Ingressei no Ministério da Saúde em 1984 e testemunhei o nascimento do Programa Nacional de Aids, herdeiro direto da antiga Divisão Nacional de Dermatologia Sanitária. Ao longo desses anos, presenciei a dedicação incansável de Lair, cujo esforço não apenas elevou o programa a um patamar de destaque mundial no combate à essa enfermidade, mas também inspirou inúmeras vidas, incluindo a minha. A última vez que encontrei a Dra. Lair foi na residência de Pedro Chequer. Mesmo diante de adversidades, rememoramos episódios significativos. Sem sombra de dúvida, a lembrança dessa distinta filha do Piauí permanecerá viva, honrada e celebrada como uma das figuras mais notáveis e transformadoras da saúde pública brasileira. Seu legado, impregnado de humanidade e perseverança, continuará a iluminar o caminho daqueles que se dedicam a tornar este mundo um lugar mais saudável e justo.”
Redação da Agência de Notícias da Aids
Dicas de entrevista
Dra. Adele Benzaken
E-mail: adele.benzaken@ahf.org
Dr. Fábio Mesquita
E-mail: fabiomesquita2023@gmail.com
Alexandre Grangeiro
E-mail: ale.grangeiro@usp.br
Dr. Gerson Pereira
E-mail: gerson.pereira@aids.gov.br



