Em entrevista à diretora da Agência Aids, Roseli Tardelli, durante a AIDS 2026, ex-diretora de Farmanguinhos critica o peso das patentes sobre o acesso a medicamentos, defende produção pública, licença compulsória e cobra mais investimento do Estado em ciência voltada à cura
“Saúde você não negocia.” A frase de Eloan Pinheiro resume boa parte de uma trajetória dedicada à produção de medicamentos, ao acesso ao tratamento e ao enfrentamento das desigualdades que atravessam a resposta ao HIV/aids.
Química, especialista em tecnologia farmacêutica e ex-diretora do Instituto de Tecnologia em Fármacos de Farmanguinhos, da Fiocruz, Eloan esteve no estande da Agência de Notícias da Aids durante a 26ª Conferência Internacional de Aids — AIDS 2026, no Rio de Janeiro, para uma conversa com a diretora da Agência Aids, Roseli Tardelli.
Ao apresentá-la, Roseli destacou sua longa trajetória no HIV, na articulação política e no enfrentamento de uma epidemia que, décadas depois de seu início, ainda provoca sofrimento. A conversa rapidamente chegou a uma questão central: por que, depois de tantos avanços, ainda é tão difícil mudar?
Para Eloan, parte da resposta está na relação entre poder econômico, tecnologia e saúde. “Cada vez mais países querem dominar os outros, não só através do comércio, mas também através da cultura, através da tecnologia e do saber científico”, afirmou.
Segundo ela, essa lógica também atravessa a indústria farmacêutica. “O objetivo não é curar, é ganhar muito dinheiro, ter muito lucro e, com isso, ter muitos acionistas, que fazem com que eles tenham um poder absolutamente grande no domínio dos outros países. Então, é difícil enfrentar essa situação.”
“Por que essas investigações não avançam?”
Roseli perguntou se, na avaliação de Eloan, o mundo já poderia ter chegado mais perto da cura do HIV.
A química evitou uma resposta definitiva, mas apresentou uma inquietação que, segundo ela, nasce de seus anos de trabalho na indústria farmacêutica. “Não sei se a gente conseguiria ter conseguido, mas, até o momento, a minha percepção como química, como técnica, trabalhei durante 30 anos na indústria farmacêutica, é que quanto mais você tiver patologias de uso, um tratamento de uso contínuo, melhor, porque os pacientes ficam dependentes daqueles medicamentos por longo tempo.”
Eloan reconhece a complexidade científica do HIV. “Eu entendo até que, tecnologicamente, o vírus é bastante mutante.”
Mas imediatamente lança a pergunta: “Será que, Roseli, nós não poderíamos ter alguma coisa, uma investigação muito mais profunda na perspectiva de curar as pessoas, curar os pacientes? É a minha pergunta sempre essa. Por que essas investigações não avançam? Por que não avançam?”
Na sequência, ela própria apresenta sua interpretação: “Porque eu acho que vender medicamentos é muito lucrativo.”
Eloan cita o lenacapavir, medicamento de longa duração, como exemplo de uma tecnologia importante cercada por uma discussão que considera igualmente necessária: o preço. “Você vê que preços que a Gilead propõe para os países, exorbitantes. Eu acho que mais do que um diamante.”
E acrescenta: “Cria muito lucro, mas só que não tem nenhuma consideração do ser humano, com a vida humana, que é a coisa que não tem preço.”
Para ela, o ponto central deve ser sempre a vida. “Vida humana, a gente está aqui para viver, ter uma vida saudável. Não é para ficar o tempo todo vivendo as mazelas de patologias que poderiam ter soluções mais objetivas, no qual o objetivo seria curar os pacientes.”
“Saúde você não negocia”
Um dos momentos mais contundentes da entrevista ocorre quando Roseli pergunta por que Eloan defende que as patentes não deveriam estar vinculadas à Organização Mundial do Comércio. “Porque a Organização Mundial do Comércio é uma organização de comércio. É simples assim.”
Eloan prossegue: “São estabelecimentos, taxas, tarifas, negociações entre produtos que você vai negociar. Porém, há uma diferença: saúde você não negocia.”
E então questiona: “Como é que você vai negociar, através do comércio, se eu vou tomar aquele medicamento ou não, que ele me cura ou ele me deixa com a situação de saúde melhor? Como isso aí tem preço? Mas hoje tem.”
A crítica de Eloan se volta principalmente para os limites que as patentes podem impor à produção de medicamentos. “Patente impede que você faça o genérico, impede que você acesse aquele conhecimento.”
Para ela, desenvolver um medicamento por engenharia reversa também significa construir capacidade científica própria. “Na verdade, quando você faz engenharia reversa, é como se você estivesse caminhando novamente e aprendendo a fazer uma receita pela sua competência tecnológica científica.”
Licença compulsória e produção pública
Diante desse cenário, Roseli pergunta como resolver o impasse. Eloan responde sem hesitação: “Para mim, os países deveriam aplicar as prerrogativas da própria lei de patente, aprovadas em Doha: licença compulsória, fortalecimento do quadro tecnológico.”
Ela cita diretamente o Brasil. “O Brasil é um país grande, o Brasil é um país com muita tecnologia, com muitos cientistas, com muita capacidade interna instalada. Então o Brasil devia ter um programa real de desenvolvimento com dinheiro público.”
Na avaliação de Eloan, o investimento público tem uma lógica diferente daquela do setor privado. “Porque o dinheiro público é um dinheiro que você não busca ter lucros. Você busca ter retornos não financeiros, e sim retornos no campo da saúde, da vida e da disponibilidade das pessoas através das suas atividades plenas no seu trabalho.”
Para ela, essa é uma responsabilidade do Estado: “O Estado defendendo o que é prioritário para aqueles que contribuem para ele através dos seus impostos.”
Eloan também defende que o setor público participe diretamente da pesquisa. “Desenvolver publicamente vacinas, medicamentos, na busca da cura dos pacientes. Procurando curar.”
“Patente fora da OMC”
A ex-diretora de Farmanguinhos transforma essa defesa em uma espécie de chamado. “A minha chamada para o século XXI, ou a virada do século XXI, é: patente fora da OMC.”
Enquanto esse sistema existir, afirma, os governos precisam usar os instrumentos disponíveis. “Governos, por favor, busquem entender que o Estado representa o povo. Portanto, iniciem pesquisas estratégicas para que não fique sujeito na mão do capital privado, seja mais defensor do público do que dos interesses privados.”
E novamente reforça: “Caso ainda as correlações de forças existirem patentes, você busque aplicar licença compulsória, por favor.”
Saúde é muito mais que medicamento
Roseli então faz uma pergunta simples: o que é saúde? A resposta de Eloan amplia a conversa.
“Saúde é bem-estar de maneira geral. É você estar bem, você poder viver num ambiente, numa casa arejada, você ter água potável, você ter meios de transporte, você ter uma vida que você possa viver.”
Para ela, falar de saúde exige olhar também para as condições de vida. “A maioria das pessoas não tem essa vida. Elas levam três, quatro horas no transporte, elas ficam doentes pela exaustão, pelo meio ambiente que é, às vezes, muito poluído.”
E conclui: “Saúde, para mim, é um bem-estar social de uma forma completa.”
Aids em uma palavra: “sofrimento”
Em outro momento, Roseli relembra que Eloan acompanhou décadas da epidemia, viu pessoas sobreviverem com a chegada dos tratamentos, mas também viu muitas morrerem.
Então pergunta: — Aids, uma palavra para você. Como é que você definiria Aids?
Eloan responde: “Sofrimento. Falta de esperança de ter um medicamento para a cura do paciente.”
A entrevista avança para uma reflexão ainda mais ampla sobre desigualdade, ciência e solidariedade. “A solidariedade e a humanidade precisam entender que nós dependemos uns dos outros. Nós somos seres humanos”, afirma Eloan.
Ela conta que atualmente também trabalha com pessoas envolvidas no enfrentamento das doenças negligenciadas.
“Muita gente morre de doenças negligenciadas. E é uma invisibilidade.” Segundo ela, essas doenças também revelam a relação entre adoecimento e desigualdade social. “É doença de pobre. É doença causada por falta de saneamento, falta de uma estrutura saudável de vida, moradia.”
E descreve uma realidade conhecida de milhões de brasileiros: “O pessoal mora nas periferias, ou mora nas cidades ribeirinhas, ou mora no campo, sem mínima estrutura de vida.”
A esperança e os limites das grandes conferências
Roseli pergunta ainda se participar de um congresso internacional, reunindo pessoas de várias partes do mundo em busca de respostas para o HIV, continua dando esperança.
“Me dá um pouco”, responde Eloan. Mas a resposta vem acompanhada de uma crítica. “Eu já vi muitas vezes esses congressos, Roseli. Participei de vários. E cada vez eles ficam mais elitizados.”
Ela cita o alto custo de participação e manifesta preocupação com resoluções que, depois das conferências, podem não se transformar em políticas concretas. “Minha preocupação é que você acaba, como vários congressos, tomando um conjunto de resoluções, e elas não serão implementadas.”
Eloan também questiona o peso do financiamento da indústria farmacêutica nesses espaços. “Esse congresso, fundamentalmente, eu acho que ele é, de uma determinada forma, conduzido por um grande financiamento de empresas farmacêuticas.”
Na avaliação dela, a presença das organizações da sociedade civil é essencial. “Se não fossem as ONGs, seria muito suave, tranquilo, sem nenhum protesto.”
Eloan volta então a uma pergunta fundamental: apresentar novas tecnologias é suficiente para mudar a realidade? “É o diálogo do médico das empresas com os médicos. Esse é um congresso no qual elas vêm apresentar o que elas têm de novidade, de novo, etc. Mas isso é suficiente para você mudar uma realidade?”
Ela mesma responde: “Eu acho que não.”
Mudanças estruturais
Roseli encerra perguntando o que, afinal, precisa acontecer para que essa realidade mude.
“Do meu ponto de vista, mudanças estruturais, no qual o Estado seja realmente o Estado representante da vontade social”, responde Eloan.
Para ela, a própria lógica das patentes precisa ser repensada. “A patente vem por uma concessão do Estado. E o Estado concede um direito a um único proprietário, a um único monopólio de explorar isso por 20 anos.”
E conclui: “O Estado não poderia estar representando o capital dessa maneira. Então, para mim, o Estado estruturalmente, o capitalismo precisa mudar. Precisa ser diferente.”
Redação da Agência de Notícias da Aids



