08/03/2007 – 19h30
Feminilidade e vulnerabilidade ao HIV/Aids e outras DST: tema de encontro realizado, na cidade de São Paulo, no Dia Internacional da Mulher
No Dia Internacional da Mulher, comemorado nesta quinta-feira (08/03), um dado chocou os presentes ao evento intitulado “Feminilidade e vulnerabilidade ao HIV/Aids e outras DST”: 35% dos estupradores detidos são soropositivos. A informação, revelada por Cláudio Monteiro, sociólogo do Centro de Referência em DST e Aids do Estado de São Paulo (CRT DST/Aids – SP), é da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. “Só 10% dos casos de violência [sexual] chegam a ser notificados”, completou, demonstrando um dos aspectos que tornam a mulher mais vulnerável ao vírus da Aids.
Como o próprio explicou, no início da capacitação realizada durante a manhã e tarde de hoje, ele fez apenas um “aquecimento” para a platéia majoritariamente feminina que ocupou um dos auditórios da Universidade Corporativa da Caixa, localizada próxima da Avenida Paulista, na cidade de São Paulo. Criada em 2001, de acordo com informações do próprio banco público, a entidade nasceu com o “propósito de identificar e prover os recursos necessários ao desenvolvimento do corpo de empregados” da Caixa Econômica Federal (CEF).
Em sua apresentação, o sociólogo Cláudio Monteiro apresentou os números mais recentes da pandemia “no Brasil e no mundo” e revelou: “Eu não peguei Aids porque Deus não quis. Eu peguei o início da epidemia [no começo dos anos 80] e não se falava em camisinha.”
Na seqüência, a médica Ariane Coelho (CRT DST/Aids – SP) falou a respeito das doenças sexualmente transmíssiveis (DST) e da sua “identificação sindrômica”, termo que ela logo esclareceu o significado. Segundo a médica, algumas doenças desse tipo possuem os mesmos sintomas, por isso, a equipe do centro de referência ministra medicamentos que combatam várias moléstias, pois ficaria mais caro o retorno ao centro de um paciente que teve um diagnóstico incorreto.
Além disso, garante a Dra. Ariane Coelho, os remédios não farão mal ao paciente. Ela deu um exemplo de doenças que têm sintomas similares (sífilis, cancro mole e herpes genital) e ressaltou o sucesso desse método: a “a taxa de cura usando essa abordagem sindrômica” foi de 95% para o corrimento uretral masculino e de 96,3% para úlceras genitais, entre outras.
Dra. Ariane Coelho lembrou que as DST “facilitam” a infecção pelo HIV. Por exemplo, alguém que sofre de sífilis possui 3 vezes mais chance de infectar-se (caso entre em contato com o vírus da Aids). No caso da gonorréia, a taxa é quase 5 vezes maior (4,7). Ela listou outras doenças sexualmente transmissíveis (como candidíase, donovanose e linfogranuloma venéreo) e apresentou os sintomas e tratamentos adequados a cada tipo de moléstia.
“Quem fala que usa sempre, usa às vezes, quem fala que usa às vezes, nunca usa [a camisinha]”, brinca a médica. E lembra: nos países industrializados, de acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), a cada dia, são registrados um milhão de novos casos de doenças sexualmente transmissíveis.
Após a palestra da Dra., os presentes, em sua maioria mulheres (e funcionárias da CEF), tiraram dúvidas. Cláudio Monteiro, sociólogo ligado ao governo paulista, deu mais explicações sobre a pandemia ocasionada pelo HIV. “A Aids é um pouco ingrata. Como o período de latência é muito grande, a gente sempre lida com a fotografia atrasada. Dada às características da doença, provavelmente nos anos 70 houve uma disseminação mundial da doença, mas os primeiros doentes só foram aparecer nos anos 80”, explica.
Na última palestra do período da manhã, a psicóloga Paula de Oliveira e Sousa, do Programa Estadual de DST/Aids (SP), falou sobre a questão da “vulnerabilidade” em relação à doença. “Todos somos vulneráveis”, avisa. Ela explica que, muitas vezes, o “preconceito” favorece a disseminação da moléstia.
“Ninguém espera que o idoso transe. Falam em velhinha assanhada. Socialmente não se espera a sexualidade do idoso”, explica, referindo-se a um segmento da população no qual foi registrado um aumento dos casos de Aids (leia mais).
A psicóloga explica que há três tipos de vulnerabilidade: a social, a individual e a programática/institucional. No caso da primeira, condições sócio-econômicas do indivíduo ou mesmo o grupo do qual eles fazem parte, favorece a disseminação da doença. A vulnerabilidade individual está ligada, como o nome indica, às características pessoais de cada um (como a baixa auto-estima). O terceiro e último tipo de vulnerabilidade é a programática ou institucional. A psicóloga dá dois exemplos: um posto de saúde que não tenha camisinhas ou uma escola sem um programa de orientação sexual.
A palestra de Ligya Benevutti, do Programa Estadual de DST/Aids, abriu a programação do período da tarde. Ela falou sobre a importância e o método de trabalho do Disque DST/Aids (0800 162550).
“A sexualidade permeia todas as ações humanas”, disse, parafraseando o médico ginecologista Nelson Vitiello. Benevutti, que fez uma simpática apresentação ressaltando a importância da auto-estima da mulher, listou alguns dos dados computados pelo Disque de maio de 2004 a julho de 2006:
-13.311 registros de ligações
-Desse total, 58,8% das ligações foram efetuadas por homens e o restante (41,2%) por mulheres
-Idade média dos indíviduos que procuraram o serviço (via telefone, é claro): 20 a 29 anos
No final do encontro, uma espécie de capacitação para as funcionárias da CEF apoiada pelo Conselho Empresarial de Prevenção ao HIV/Aids do Estado de São Paulo (saiba mais), os integrantes do CRT distribuíram camisinhas femininas. Eles também mostraram o formato e a maneira de utilização do objeto que, pela reação das presentes, ainda é razoavelmente desconhecido.
Léo Nogueira


