O governo dos Estados Unidos anunciou uma mudança no calendário federal de vacinas infantis. O país reduziu de 17 para 11 as imunizações recomendadas para crianças. Entre as vacinas afetadas estão as contra hepatite A, hepatite B, influenza e meningite. Agora, essas doses passam a ser indicadas apenas para grupos de risco ou mediante recomendação médica.
O que aconteceu
Os CDCs (Centros de Controle e Prevenção de Doenças) deixaram de recomendar de forma universal seis vacinas pediátricas. O modelo segue a mesma lógica já aplicada à vacinação contra a covid-19. A decisão foi anunciada pelo Departamento de Saúde.
No fim de 2024, os EUA recomendavam 17 imunizações para todas as crianças. Com a mudança, esse número caiu para 11. A decisão foi celebrada por grupos antivacina.
Impacto além das fronteiras
A redução da cobertura vacinal em um país do porte dos Estados Unidos tem reflexos diretos na saúde pública. É o que aponta Eduardo Jorge da Fonseca Lima, presidente do SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria).
“Quando a vacinação cai em uma grande nação, aumenta o risco de reemergência de doenças já controladas, como sarampo e poliomielite.”
Segundo ele, o problema não é apenas individual. Afeta a imunidade de rebanho em escala global. “Se a cobertura cai em um país influente, as doenças circulam com mais facilidade e atingem regiões com sistemas de saúde mais frágeis”, diz.
A avaliação é compartilhada por Isabella Ballalai, diretora da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações). Ela destaca que, do ponto de vista epidemiológico, a redução da vacinação em grandes países cria um efeito dominó.
“Enquanto um vírus circula em alguma região do mundo, nenhum país está completamente protegido. Se o vírus da pólio ou do sarampo está ativo em algum lugar, os países onde ele não circula passam a correr risco.”
O intenso fluxo internacional envolvendo os EUA amplia esse risco. O país é um dos destinos mais frequentes de brasileiros. “Não é difícil que alguém viaje, se infecte e volte doente”, afirma.
Doenças mais sensíveis à queda vacinal
A redução da cobertura afeta especialmente doenças altamente contagiosas ou graves na infância. O sarampo é uma das principais preocupações. “É extremamente transmissível e pode causar complicações severas, como pneumonite e encefalite”, diz Eduardo Jorge.
A coqueluche também preocupa. A doença é especialmente perigosa para bebês e pode levar a internações e óbitos. A poliomielite é outro alerta, já que se trata de uma infecção viral capaz de causar paralisia permanente.
Hepatite B entra no mesmo cenário. A falta de vacinação, sobretudo em recém-nascidos, aumenta o risco de infecções crônicas no futuro. Meningite e influenza também são sensíveis à redução vacinal.
Lições do passado
Os especialistas lembram que há precedentes recentes. O sarampo, por exemplo, nunca foi totalmente eliminado nos Estados Unidos e na Europa. Isso facilitou sua reintrodução em outros países. “No Brasil, perdemos o certificado de eliminação do sarampo após a entrada do vírus pelas fronteiras”, recorda Eduardo Jorge.
Outro efeito da decisão americana é o impacto na confiança das famílias. Mensagens contraditórias sobre vacinas podem alimentar desinformação —o que dificulta o trabalho dos pediatras. “Os pais ficam inseguros. Muitos atrasam ou recusam vacinas. O pediatra passa a gastar mais tempo combatendo informações falsas.



