“Eu fui trabalhar com HIV porque ninguém queria”: Dr. Fábio Mesquita transforma lançamento de livro em uma emocionante viagem por quatro décadas da luta contra a aids

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Em São Paulo, tarde de autógrafos de Diário de Bordo reuniu personagens históricos da resposta ao HIV e se transformou em uma poderosa aula sobre epidemias, direitos humanos, guerras, política e a construção de uma das maiores políticas de saúde pública do mundo

Por alguns instantes, os livros pareceram apenas um detalhe. Na tarde deste sábado (20), no Circo CaJu, em São Paulo, o lançamento de Diário de Bordo – A Jornada de um Médico pelo Mundo reuniu dezenas de pessoas que ajudaram a escrever a história da resposta brasileira à aids. Mas, mais do que uma sessão de autógrafos, o encontro acabou se transformando em algo raro: um testemunho vivo de quase quatro décadas de enfrentamento ao HIV, narrado por uma das pessoas que ajudaram a moldar essa história dentro e fora do Brasil.

Diante de ativistas, pesquisadores, gestores públicos, profissionais de saúde, políticos, amigos, familiares e companheiros de diferentes gerações, Dr. Fábio Mesquita fez o que sabe fazer desde os anos 1980: contar histórias. E, ao fazê-lo, revisitou alguns dos capítulos mais dramáticos, revolucionários e humanos da saúde pública contemporânea.

A fala, que durou mais de uma hora, percorreu da cidade de Santos assolada pelo medo e pelo preconceito à sede da Organização Mundial da Saúde, em Genebra. Passou pela construção das primeiras políticas de prevenção, pela distribuição de seringas que lhe rendeu um processo por tráfico de drogas, pela negociação histórica com a Igreja Católica para permitir campanhas de camisinha, por crises sanitárias globais, pela Covid-19 e pela guerra civil em Myanmar.

Em muitos momentos, a plateia ria. Em outros, silenciava. E em vários deles, se emocionava. Tudo começou com uma frase simples. “Eu fui trabalhar com HIV porque ninguém queria.”

Quando a aids era sinônimo de medo

Era 1987. Santos estampava jornais e telejornais em todo o país. Proporcionalmente à população, era uma das cidades com maior número de casos registrados de HIV no Brasil. A doença ainda era chamada por muitos de “peste gay”. Quase nada se sabia sobre transmissão. O medo era maior do que a ciência.

Profissionais recebiam adicional de periculosidade para atender pacientes com HIV. No Centro de Saúde Martins Fontes, surgiu a necessidade de abrir um ambulatório para acompanhar os pacientes que deixavam o hospital.

Ninguém se apresentou. Dr. Fábio Mesquita era o médico mais jovem da equipe. Acabou assumindo. “Rapidamente fiquei fascinado pela causa”, recordou.

O que encontrou pela frente era uma realidade que nenhuma faculdade ensinava. Mulheres trans e profissionais do sexo vivendo à margem dos serviços de saúde. Pessoas expulsas de casa pela própria família após receberem o diagnóstico. Usuários de drogas injetáveis, responsáveis por metade dos casos registrados na cidade. Uma epidemia marcada não apenas pelo vírus, mas pelo abandono.

A prefeita que deu carta branca para enfrentar a epidemia

Em 1989, a eleição de Telma de Souza para a Prefeitura de Santos mudaria o rumo da história. Dr. Fábio Mesquita havia participado da campanha ao lado do médico Davi Capistrano, que assumiria a Secretaria de Saúde.

Ao chegar ao governo, recebeu uma proposta. Poderia escolher qualquer área da saúde para atuar. Não teve dúvidas. Queria montar um programa municipal de aids. A decisão surpreendeu. “Ele disse: ‘Você não entendeu. Pode escolher qualquer coisa’. E eu respondi: ‘É isso que eu quero fazer’.”

Naquele momento, praticamente não existiam programas municipais no país. A experiência de Santos ajudaria a inaugurar um novo modelo de resposta à epidemia.

Foram distribuídos preservativos em toda a rede de saúde, numa época em que as camisinhas eram restritas aos serviços especializados. Criou-se uma policlínica voltada às profissionais do sexo, próxima à região portuária, funcionando em horários compatíveis com sua rotina.

Uma casa de apoio passou a acolher pessoas vivendo com HIV expulsas pelas famílias. Instalada em um bairro nobre, a iniciativa provocou resistência dos moradores. Até que Dom David Picão, bispo da cidade, aceitou inaugurá-la. Depois da bênção, as reclamações cessaram.

“Fomos processados como traficantes”

Mas foi outra iniciativa que colocaria Santos no centro de uma das maiores controvérsias da saúde pública brasileira.

Ao perceber que cerca de metade dos casos estava ligada ao compartilhamento de seringas, Dr. Fábio Mesquita implantou o primeiro programa de redução de danos da América Latina. A proposta era revolucionária, distribuir seringas esterilizadas para impedir a transmissão do HIV. A reação foi imediata.

Revistas, programas de televisão e setores conservadores passaram a atacar a iniciativa. Meses depois, o Ministério Público decidiu agir. Com base em uma lei da ditadura militar, Telma de Souza, Davi Capistrano e Dr. Fábio Mesquita foram processados. A acusação era absurda: tráfico de drogas. “Fomos processados como traficantes.”

O programa acabou interrompido. Décadas mais tarde, a ciência demonstraria que eles estavam certos. Hoje, a redução de danos é reconhecida mundialmente como uma estratégia fundamental para prevenir HIV e hepatites virais.

O acordo histórico entre a CNBB e o Programa Nacional de Aids

Outra passagem arrancou risos da plateia. Nos anos 1990, quando Dr. Fábio Mesquita chegou ao Programa Nacional de Aids, campanhas de preservativos enfrentavam resistência da Igreja Católica.

A então diretora do programa, Dra. Lair Guerra, decidiu conversar diretamente com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Depois de uma longa reunião, veio uma frase histórica: “Vocês cuidam do corpo e nós cuidamos da alma.”

O entendimento abriu caminho para que o Brasil se tornasse um dos primeiros países católicos do mundo a realizar campanhas públicas de prevenção com preservativos.

O homem que saiu de Santos para enfrentar epidemias pelo mundo

A trajetória de Dr. Fábio Mesquita extrapolou as fronteiras brasileiras. Vieram a Indonésia, a China, o Vietnã, Genebra, Myanmar e a Organização Mundial da Saúde.

Ao longo de 12 anos na OMS, atuou em algumas das regiões mais complexas do planeta. Na Ásia, liderou um trabalho que resultou em um marco histórico. A publicação do primeiro documento das Nações Unidas condenando os centros de tratamento compulsório para pessoas que usam drogas.

Países como China, Vietnã, Malásia e Camboja mantinham instalações onde pessoas eram internadas à força e submetidas a trabalho análogo à escravidão. A reação dos governos foi dura, mas o documento acabaria servindo de base para uma posição oficial da ONU em defesa de tratamentos voluntários e fundamentados nos direitos humanos.

O retorno ao Brasil e novos avanços na resposta ao HIV

Depois de anos de trabalho na Ásia, Dr. Fábio Mesquita voltou ao Brasil em 2013 para assumir o então Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, durante o governo da presidenta Dilma Rousseff.

Ao recordar aquele período, contou que encontrou um programa consolidado, mas que precisava acompanhar as transformações que já aconteciam no mundo.

Sob sua gestão, o país adotou a estratégia do “testar e tratar”, ampliou o acesso à profilaxia pós-exposição (PEP) e fortaleceu a prevenção combinada, medidas que se tornariam referências internacionais.

Outro marco foi a negociação para incorporar ao SUS os novos medicamentos contra hepatite C. Os tratamentos, que custavam cerca de US$ 140 mil no mercado internacional, passaram a ser adquiridos pelo Brasil por aproximadamente US$ 7 mil, garantindo acesso a terapias com índices de cura superiores a 95%.

A passagem pelo ministério terminaria com a crise política que culminou no impeachment de Dilma Rousseff. Pouco depois, Dr. Fábio Mesquita retornaria à Organização Mundial da Saúde, iniciando uma nova etapa de sua trajetória internacional.

Covid-19, golpe militar e guerra

Se a aids havia sido o grande tema de sua carreira, a pandemia de Covid-19 o colocaria diante de um desafio completamente novo. Em Myanmar, Dr. Fábio Mesquita assumiu a coordenação da resposta da OMS à emergência sanitária. Pouco depois, veio o golpe militar. E, com ele, a guerra civil. Sua família precisou deixar o país. Ele permaneceu.

Durante um ano e meio viveu em meio a bombardeios, ataques a profissionais de saúde e assassinatos de trabalhadores que transportavam vacinas. Uma bomba chegou a ser lançada contra instalações da própria OMS. “Foi uma experiência impressionante.”

Ao recordar aquele período, Dr. Fábio Mesquita descreveu a sensação de trabalhar em um país mergulhado simultaneamente em uma pandemia e em uma guerra.

O sarau que emocionou a plateia

Ao fim da palestra, a emoção tomou conta do Circo CaJu. Sob coordenação da jornalista Roseli Tardelli, diretora da Agência de Notícias da Aids, amigos, familiares e companheiros de jornada ocuparam o palco para ler trechos de Diário de Bordo.

Muitos dos presentes não eram apenas leitores. Eram personagens da própria história. Pessoas que estiveram ao lado de Dr. Fábio Mesquita nos primeiros anos da epidemia. Companheiros de pesquisas, campanhas, embates políticos e missões internacionais.

Cada leitura parecia costurar passado e presente. Transformando o lançamento do livro em uma celebração coletiva da memória. Uma homenagem aos que construíram a resposta brasileira ao HIV. E também aos que partiram.

Mais do que um lançamento

Ao final da tarde, a fila para os autógrafos se formou lentamente. Mas os livros já não eram o centro da cena. O que havia ficado era a sensação de que o público acabara de testemunhar um pedaço da história.

Da cidade de Santos dos anos 1980 aos corredores da Organização Mundial da Saúde. Das primeiras campanhas de prevenção à Covid-19. Dos enfrentamentos contra o preconceito às guerras em Myanmar.

Dr. Fábio Mesquita mostrou que epidemias nunca foram apenas sobre vírus. Sempre foram sobre pessoas, sobre escolhas políticas, sobre direitos humanos e sobre a coragem de permanecer ao lado daqueles que, em algum momento, o mundo preferiu abandonar.

Porque, como ele lembrou diante de uma plateia emocionada, tudo começou justamente quando ninguém queria estar ali. E foi exatamente ali que ele decidiu ficar.

E é justamente essa travessia, construída entre consultórios, movimentos sociais, ministérios, universidades e missões internacionais, que está registrada em Diário de Bordo – A Jornada de um Médico pelo Mundo.

Os interessados em adquirir a obra podem acompanhar os próximos lançamentos, saraus e encontros promovidos pelo autor. Informações sobre novas sessões de autógrafos, bem como formas de acesso ao livro, serão divulgadas pelas redes sociais do Dr. Fábio Mesquita e pela editora responsável pela publicação, a Amare.

Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)

Dica de entrevista

Dr. Fábio Mesquita
Instagram: @fabiocdemesquita

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