Estudo ImPrEP LEN-Brasil mostra adesão de 97% à PrEP semestral contra o HIV e fortalece caminho para incorporação ao SUS

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Primeiros resultados do ImPrEP LEN-Brasil, apresentados na AIDS 2026, revelam que quase todos os participantes elegíveis preferiram o lenacapavir injetável à PrEP oral diária, reforçando o potencial da estratégia para ampliar a prevenção do HIV entre populações mais vulneráveis

O futuro da prevenção ao HIV no Brasil pode passar por apenas duas injeções por ano. Resultados preliminares do estudo ImPrEP LEN-Brasil, apresentados nesta terça-feira (28), durante a 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026), mostram que 97% dos participantes elegíveis escolheram iniciar a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) com lenacapavir (LEN), medicamento injetável de longa duração administrado apenas duas vezes ao ano, em vez da PrEP oral diária oferecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Mais do que revelar uma preferência quase unânime por uma nova tecnologia de prevenção, os dados representam um passo importante para a saúde pública brasileira. Coordenado pelo Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), o ImPrEP LEN-Brasil é a primeira iniciativa de implementação do lenacapavir na América Latina e pretende gerar evidências científicas e operacionais capazes de orientar uma futura incorporação do medicamento ao SUS.

O estudo não busca responder se o lenacapavir funciona — isso já foi demonstrado por ensaios clínicos internacionais que apontaram elevada eficácia na prevenção do HIV. A grande pergunta agora é outra: como essa estratégia pode ser incorporada aos serviços públicos de saúde e qual será a resposta da população quando tiver a oportunidade de escolher entre a medicação oral diária e a aplicação semestral.

Os resultados preliminares parecem responder essa questão de forma contundente.

Entre 695 pessoas avaliadas entre 3 de fevereiro e 15 de julho deste ano, 668 preencheram os critérios para participar do estudo. Destas, 651 optaram pelo lenacapavir, enquanto apenas 17 escolheram permanecer com a PrEP oral, o que corresponde a uma taxa de adesão de 97% à estratégia injetável.

Os números indicam uma demanda expressiva por alternativas que reduzam a necessidade da tomada diária de comprimidos, considerada uma das principais barreiras para a continuidade da profilaxia entre pessoas em maior vulnerabilidade ao HIV.

Uma porta de entrada para quem nunca usou PrEP

Talvez o dado mais revelador do estudo esteja justamente entre aqueles que decidiram iniciar o lenacapavir. Dos 651 participantes que escolheram a PrEP semestral, 510 pessoas — ou 78,3% — nunca haviam utilizado nenhuma modalidade de PrEP anteriormente.

O resultado sugere que a versão injetável pode estar conseguindo alcançar um público que, por diferentes razões, permanecia distante das estratégias tradicionais de prevenção.

Especialistas apontam que fatores como o estigma associado ao HIV, a dificuldade de manter o uso diário da medicação, a rotina de trabalho, o medo de exposição e as barreiras de acesso aos serviços de saúde frequentemente comprometem a adesão à PrEP oral. Uma aplicação realizada apenas duas vezes ao ano pode representar uma alternativa mais compatível com a realidade dessas populações.

Mais do que substituir um medicamento por outro, o lenacapavir pode ampliar o acesso à prevenção.

Jovens e populações vulneráveis lideram a procura

O perfil dos participantes reforça que o estudo está alcançando exatamente os grupos prioritários para a resposta brasileira ao HIV.

Entre aqueles que iniciaram o lenacapavir, 83,1% são homens cisgênero, 11,2% travestis e mulheres trans, 3,7% pessoas não binárias e 2% homens trans. A pesquisa também mostra forte participação da população jovem.

Quase metade dos participantes (41,1%) tem entre 18 e 24 anos, enquanto os demais concentram-se entre 25 e 30 anos. A maioria também pertence à população negra: 60,7% se autodeclaram pretos ou pardos, além de 1,7% indígenas. Outro dado relevante é que 41,3% possuem ensino médio completo ou menor escolaridade, perfil frequentemente associado a maiores barreiras de acesso aos serviços de saúde.

Ao direcionar a oferta para grupos historicamente mais vulneráveis ao HIV, o estudo busca responder justamente onde a prevenção ainda enfrenta seus maiores desafios.

O primeiro estudo de implementação da América Latina

O ImPrEP LEN-Brasil representa uma nova etapa na prevenção do HIV. Diferentemente dos estudos clínicos tradicionais, o projeto foi desenhado para entender como o lenacapavir pode ser incorporado à rotina do sistema público de saúde.

A pesquisa acontece em nove serviços distribuídos por seis cidades brasileiras — Rio de Janeiro, São Paulo, Campinas, Florianópolis, Salvador e Manaus — incluindo uma unidade móvel criada para ampliar o acesso em territórios estratégicos.

Podem participar homens cisgênero, pessoas trans e pessoas não binárias que fazem sexo com homens, com idade entre 16 e 30 anos e resultado negativo para HIV.

Cada participante escolhe livremente entre iniciar a PrEP oral ou o lenacapavir. Aqueles que optam pelo medicamento injetável serão acompanhados por pelo menos 18 meses. A meta é incluir 1.500 usuários utilizando o LEN.

O estudo também aposta em ferramentas digitais para fortalecer o cuidado. Mensagens automatizadas via WhatsApp, integradas ao Sistema de Controle Logístico de Medicamentos (Siclom), lembram consultas, doses iniciais e datas das aplicações semestrais.

Evidências para orientar políticas públicas

Os pesquisadores destacam que os resultados apresentados na AIDS 2026 ainda são preliminares, mas já oferecem evidências importantes sobre a aceitação da nova tecnologia entre pessoas jovens e populações mais vulneráveis.

Segundo informações do INI/Fiocruz, o ImPrEP LEN-Brasil implementa um modelo centrado na escolha do usuário e integrado aos serviços públicos de saúde. A expectativa é que o acompanhamento dos participantes gere informações fundamentais sobre persistência, retenção no cuidado, segurança e efetividade da estratégia, contribuindo para orientar futuras decisões do Ministério da Saúde sobre a incorporação do lenacapavir ao SUS.

Caso os resultados sejam confirmados ao longo do acompanhamento, o Brasil poderá dar um passo importante rumo a uma nova geração de estratégias de prevenção ao HIV. Depois de revolucionar o tratamento da infecção e tornar-se referência mundial na oferta gratuita da PrEP oral, o país agora começa a produzir as primeiras evidências de como uma tecnologia de aplicação semestral poderá ampliar o acesso, reduzir barreiras e fortalecer a resposta à epidemia nas próximas décadas.

Redação da Agência de Notícias da Aids

* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.

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