Publicado na The Lancet HIV, trabalho da Fiocruz mostra que cabotegravir pode ampliar a continuidade da prevenção entre jovens; preço e desigualdades ainda desafiam o acesso
Uma injeção a cada dois meses pode ajudar o SUS a enfrentar um dos principais desafios da prevenção do HIV: manter as pessoas protegidas ao longo do tempo. Em um estudo realizado em serviços públicos brasileiros, jovens que escolheram o cabotegravir injetável permaneceram por mais tempo cobertos pela PrEP e apresentaram menor incidência de HIV do que o grupo acompanhado com comprimidos na rotina da rede. As aplicações também tiveram alta adesão: 92% ocorreram dentro do prazo previsto.
Publicado na quinta-feira (24) na revista The Lancet HIV, o ImPrEP CAB Brasil oferece evidências sobre como levar a prevenção de longa duração ao atendimento cotidiano. A pesquisa avaliou desde a possibilidade de começar o medicamento no mesmo dia da consulta até o retorno para as injeções, os efeitos adversos e as dificuldades para manter o acompanhamento.
O trabalho é conduzido pelo Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz) e tem a Dra. Beatriz Grinsztejn como investigadora principal. Seus resultados ajudam a responder uma questão decisiva para a saúde pública: como transformar uma tecnologia cuja eficácia já foi demonstrada em uma opção que as pessoas consigam usar de forma contínua.
Uma alternativa ao comprimido diário
A profilaxia pré-exposição, conhecida como PrEP, é o uso de medicamentos por pessoas sem HIV para prevenir a infecção. Na modalidade oral diária, essa proteção depende da continuidade do uso dos comprimidos. O cabotegravir muda essa rotina: depois de duas aplicações iniciais com intervalo de um mês, as injeções passam a ser realizadas a cada dois meses.
A proposta do estudo foi oferecer escolha. Os participantes podiam optar pela modalidade oral ou injetável e mudar de método durante o acompanhamento. Esse desenho permitiu observar como a prevenção funcionava diante de preferências, dificuldades e necessidades que podiam se alterar ao longo do tempo.
A pesquisa se concentrou em jovens de 18 a 30 anos que nunca haviam usado PrEP. Incluiu homens cisgêneros, pessoas não binárias designadas do sexo masculino ao nascer e homens e mulheres trans que fazem sexo com homens.
A oferta das duas alternativas ocorreu em serviços do Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Manaus, Florianópolis e Campinas. Os participantes ingressaram entre outubro de 2023 e setembro de 2024, e a análise reúne dados de acompanhamento até outubro de 2025.
O que mudou na continuidade da prevenção
O resultado mais expressivo aparece no tempo coberto pela profilaxia. Com o cabotegravir, essa cobertura alcançou 90,8% dos dias acompanhados. No grupo que iniciou PrEP oral na rotina do SUS, ficou em 35,5%.
Em termos práticos, o grupo do injetável passou uma parcela maior do acompanhamento com a prevenção em dia. Os percentuais, porém, não são uma comparação da eficácia dos medicamentos: descrevem a continuidade da cobertura ao longo do estudo.
Para estimar esse tempo, os pesquisadores consideraram as datas das injeções e, no caso dos comprimidos, os registros de retirada na farmácia. Esses registros indicam a disponibilidade da medicação, mas não confirmam se ela foi tomada.
A diferença na cobertura veio acompanhada de menor ocorrência de HIV. Entre as 1.201 pessoas que escolheram inicialmente o cabotegravir, foram identificadas três novas infecções. Entre as 1.649 que começaram PrEP oral na rotina da rede pública, houve 18.
Como os grupos tinham tamanhos e tempos de acompanhamento diferentes, os pesquisadores calcularam taxas que levam esses fatores em conta. A incidência foi de 0,20 por 100 pessoas-ano no grupo do cabotegravir e de 1,48 no grupo da PrEP oral do SUS, conforme o resumo do artigo. Na análise dos autores, a taxa do grupo oral foi aproximadamente 7,5 vezes a do injetável.
Um terceiro grupo, formado por 246 pessoas que escolheram os comprimidos após receberem a oferta das duas modalidades, teve duas infecções e cobertura em 47,3% dos dias. Ao todo, a análise incluiu 3.096 participantes.
A escolha e o atendimento também fazem parte do resultado
A diferença observada não pode ser atribuída integralmente à ação do medicamento. Os participantes escolheram a modalidade de prevenção, sem sorteio entre injeções e comprimidos, e os grupos apresentavam diferenças de perfil e acompanhamento.
Os pesquisadores fizeram análises adicionais para considerar características iniciais dos participantes e perdas de acompanhamento. Os resultados permaneceram consistentes com os achados principais, embora fatores não medidos possam ter influenciado a comparação.
O estudo também chama atenção para o próprio atendimento. Quem escolheu a PrEP oral depois de receber orientações sobre as duas alternativas teve cobertura maior do que o grupo oral da rotina do SUS. Para os autores, esse achado reforça a importância de combinar a ampliação das opções com formas de atendimento que ajudem cada pessoa a iniciar e manter a prevenção.
“Maximizar a cobertura da prevenção exige tanto ampliar as modalidades de PrEP quanto oferecer serviços diferenciados”, afirmam os pesquisadores.
Começar na primeira consulta
No ImPrEP CAB Brasil, quem escolhia o cabotegravir podia receber a primeira dose no mesmo dia. Antes da aplicação, eram realizados um teste rápido para HIV e um exame molecular, com resultado em aproximadamente 90 minutos, para investigar a presença do vírus.
Essa organização do serviço é parte importante da pesquisa. A oferta de um medicamento injetável exige condições para testar, aplicar, agendar os retornos e acompanhar quem atrasa ou deixa de comparecer.
Ao longo do estudo, foram administradas mais de 11 mil injeções. A adesão de 92% às aplicações dentro da janela prevista fornece uma medida concreta da viabilidade dessa rotina nos serviços participantes.
Os resultados também mostram que o acompanhamento continua necessário. Das três novas infecções no grupo do cabotegravir, duas ocorreram em pessoas com injeções em dia. A terceira foi identificada em alguém que recebeu apenas a primeira dose e retornou depois de um ano. O artigo relata ainda um participante do grupo com mutações associadas à menor suscetibilidade a medicamentos da classe dos inibidores de integrase.
Dor no local da aplicação foi o efeito adverso mais frequente, geralmente leve ou moderada, e diminuiu ao longo do tempo. Entre as 1.220 pessoas que utilizaram cabotegravir em algum momento — incluindo quem mudou da PrEP oral para a injetável —, 31 interromperam definitivamente o medicamento por reações locais. Houve um evento adverso grave considerado relacionado ao cabotegravir.
As barreiras que a injeção não elimina
A pesquisa encontrou dificuldades de continuidade mesmo com a opção de longa duração. Entre as pessoas que receberam cabotegravir, 107, ou 8,8%, deixaram de retornar pelo período que caracterizava perda de acompanhamento.
Os autores destacam a influência das desigualdades raciais, da baixa escolaridade e dos sintomas depressivos na permanência na prevenção. O estudo defende que a expansão da PrEP seja acompanhada de atenção à saúde mental, enfrentamento do estigma e serviços preparados para acolher jovens.
O período observado também impõe limites às conclusões sobre a continuidade do uso em longo prazo. Além disso, a medida de dias cobertos não informa se houve exposição sexual ao HIV em cada intervalo sem profilaxia.
O caminho entre a pesquisa e o acesso
Os resultados chegam em um momento de discussão sobre a oferta do cabotegravir pelo SUS. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anunciou durante a Conferência Internacional de Aids, em julho, no Rio de Janeiro, a decisão de adquirir o medicamento. O comunicado apresenta a pesquisa como subsídio à avaliação da tecnologia e aos trâmites de incorporação.
O artigo aponta vantagens da estrutura brasileira para essa expansão, como as compras centralizadas e a rede pública que já oferece PrEP. Mas também identifica obstáculos: preços e barreiras de licenciamento podem restringir o alcance da nova modalidade.
Para os pesquisadores, ampliar o impacto do cabotegravir depende de garantir disponibilidade e preços acessíveis, junto com estratégias que mantenham as pessoas vinculadas à prevenção. A experiência nos serviços mostra que a oferta é viável; a expansão exige condições para que ela chegue a quem precisa e possa ser mantida.
O estudo foi financiado pela Unitaid, Organização Mundial da Saúde e pelo Ministério da Saúde brasileiro. O cabotegravir utilizado na pesquisa foi doado pela ViiV Healthcare.
Redação da Agência de Notícias da Aids



