Modelagem publicada no Journal of the International AIDS Society indica que estratégia direcionada é mais custo-efetiva do que oferta universal, mas reforça que medicamento não substitui políticas já existentes de prevenção da transmissão vertical.
Um estudo de modelagem publicado no Journal of the International AIDS Society indica que a oferta direcionada da PrEP com lenacapavir para gestantes e mulheres em fase de amamentação que vivem em regiões de alta incidência de HIV na África Subsaariana pode reduzir significativamente os casos de transmissão vertical do vírus, com custo muito inferior ao de uma implementação universal.
Os pesquisadores destacam, entretanto, que o lenacapavir deve ser incorporado como uma estratégia complementar às políticas já existentes de prevenção da transmissão vertical, e não como substituto do fortalecimento do diagnóstico precoce, do tratamento antirretroviral e do acompanhamento das gestantes que vivem com HIV.
Em 2024, cerca de 98 mil recém-nascidos adquiriram HIV na África Subsaariana. Segundo o estudo, quase metade dessas infecções pediátricas ocorreu devido às falhas no acesso ou na continuidade da terapia antirretroviral entre mulheres que já viviam com HIV. Outros 20% dos casos foram atribuídos à interrupção do tratamento durante a gestação ou o período de amamentação.
No entanto, um dado chamou a atenção dos pesquisadores: 25% das infecções em crianças ocorreram porque as mães adquiriram HIV durante a gravidez ou enquanto amamentavam. Em países como África do Sul e Zâmbia, esse percentual chega a representar aproximadamente 60% e 50% das transmissões, respectivamente.
Lenacapavir surge como alternativa para mulheres em maior risco
O lenacapavir, administrado por meio de uma injeção a cada seis meses, demonstrou elevada eficácia em estudos clínicos para prevenção do HIV. Diferentemente da PrEP oral diária, o medicamento reduz a dependência do uso contínuo de comprimidos, um dos principais desafios para adesão ao tratamento preventivo.
Para avaliar seu potencial impacto entre gestantes e lactantes sem HIV, pesquisadores liderados por Anna Yakusik, do Unaids, utilizaram modelos matemáticos para simular diferentes cenários de implementação da estratégia em países da África Subsaariana.
A análise acompanhou uma coorte hipotética de mulheres HIV negativas desde a primeira consulta pré-natal até o fim médio do período de amamentação, correspondente a aproximadamente 2,2 anos.
Os pesquisadores consideraram um cenário-base em que 65% das mulheres elegíveis iniciariam o uso do lenacapavir e 70% permaneceriam em acompanhamento durante todo o período. Também foi analisado um cenário ideal, com adesão e permanência de 100%.
Oferta direcionada apresenta melhor relação entre custo e benefício
O estudo comparou duas estratégias: oferecer o lenacapavir a todas as gestantes e lactantes sem HIV da África Subsaariana ou direcionar o medicamento apenas para distritos com maior incidência da infecção entre mulheres.
Os resultados mostraram que a estratégia direcionada foi muito mais eficiente economicamente.
Na oferta universal, o cenário-base alcançaria cerca de 25,5 milhões de mulheres, evitando aproximadamente 56 mil novas infecções por HIV, sendo 44,5 mil entre as mães e 11,6 mil entre os bebês, ao custo total estimado de US$ 5 bilhões.
Mesmo considerando a economia futura com tratamentos antirretrovirais evitados, o custo líquido seria de aproximadamente US$ 85 mil para cada infecção por HIV evitada.
Já a estratégia concentrada nos distritos de maior prioridade — principalmente na África do Sul, Moçambique, Zâmbia e Essuatíni — alcançaria cerca de 626 mil mulheres e evitaria aproximadamente 8.500 infecções, incluindo 6.700 entre gestantes e 1.750 em crianças.
Nesse cenário, o custo líquido cairia para cerca de US$ 8.500 por infecção evitada, valor quase dez vezes menor que o observado na implementação universal.
À medida que a estratégia era ampliada para regiões de risco intermediário, aumentava o número de infecções evitadas, mas também cresciam os custos e diminuía a eficiência econômica do programa.
Permanência no cuidado é fator decisivo
Os pesquisadores identificaram que o principal determinante da relação custo-efetividade não foi o número de mulheres que iniciaram a PrEP, mas sim a permanência delas no acompanhamento durante todo o período de proteção.
Quando a retenção no cuidado chegou a 90% e os custos operacionais foram menores, o custo líquido caiu para cerca de US$ 4.800 por infecção evitada.
Por outro lado, quando apenas metade das mulheres permaneceu em acompanhamento e os custos de implementação aumentaram, esse valor ultrapassou US$ 15 mil por caso evitado.
Segundo os autores, ampliar a adesão ao tratamento preventivo aumenta proporcionalmente tanto o número de mulheres protegidas quanto os custos do programa, sem alterar significativamente sua eficiência econômica.
Estratégia complementar à prevenção da transmissão vertical
Os pesquisadores ressaltam que, embora o lenacapavir represente uma inovação importante na prevenção do HIV, o maior impacto sobre a transmissão vertical continuará dependendo do fortalecimento das estratégias já consolidadas.
Para os autores, ampliar o acesso ao diagnóstico do HIV durante o pré-natal, garantir o início oportuno da terapia antirretroviral e evitar a interrupção do tratamento entre gestantes que vivem com HIV permanecem como as medidas mais importantes para reduzir novas infecções em crianças.
Ainda assim, em regiões onde a incidência do HIV entre mulheres permanece elevada, a PrEP com lenacapavir pode oferecer uma camada adicional de proteção durante a gestação e a amamentação, períodos em que o risco de aquisição do vírus pode aumentar.
Redação da Agência de Notícias da Aids




