Experiência pioneira da capital paulista transformou estações do metrô em pontos de acesso à prevenção do HIV e será apresentada pela Coordenadoria de IST/Aids na maior conferência mundial sobre a resposta à epidemia.
Todos os dias, milhões de pessoas atravessam as plataformas do metrô de São Paulo para trabalhar, estudar ou voltar para casa. Em meio ao fluxo apressado, poucas imaginam que, ao lado das catracas, uma máquina silenciosa representa uma das experiências mais inovadoras de prevenção ao HIV.
Instaladas em estações estratégicas da capital, as máquinas automáticas de dispensação da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) e da Profilaxia Pós-Exposição (PEP) transformaram o metrô em um novo território de cuidado. A iniciativa, considerada inédita no mundo, será apresentada pela Coordenadoria de IST/Aids da Secretaria Municipal da Saúde durante a Aids 2026, maior conferência internacional sobre HIV, que será realizada no Rio de Janeiro.
A escolha das estações não foi apenas logística. Foi uma decisão de saúde pública. Em uma cidade marcada por longos deslocamentos e profundas desigualdades sociais, levar a prevenção para onde a vida acontece significa aproximar o SUS das pessoas, reduzindo barreiras de acesso e ampliando as possibilidades de cuidado.
Essa proposta rompe com a lógica tradicional de concentrar os serviços exclusivamente nas unidades de saúde. Em vez de esperar que a população chegue ao sistema, é o sistema que passa a ocupar espaços do cotidiano, reconhecendo que o tempo, a mobilidade e a rotina também influenciam o acesso à prevenção.
“Expandir o acesso aos métodos de prevenção ao HIV, especialmente em um mês dedicado à promoção da saúde, reforça o compromisso da Prefeitura com a saúde pública, a equidade e a inovação. Cada nova máquina instalada representa mais uma porta aberta para o cuidado, a informação e a autonomia das pessoas, contribuindo diretamente para a redução dos novos casos de infecção pelo vírus na cidade”, afirma Cristina Abbate, coordenadora de IST/Aids da Secretaria Municipal da Saúde.

Atualmente, cinco máquinas estão instaladas nas estações Brás, Luz, Consolação, Santana e Vila Sônia. Integradas ao SPrEP, serviço digital da Secretaria Municipal da Saúde, elas permitem que usuários realizem teleconsulta pelo aplicativo e-saúdeSP, recebam a avaliação clínica e, quando indicada a profilaxia, retirem os medicamentos diretamente nas estações por meio de um QR Code. Antes do início da PrEP, o teste para HIV continua sendo obrigatório, e todo o acompanhamento clínico permanece vinculado ao SUS.
Desde a implantação da primeira máquina, em junho de 2024, cerca de 10 mil dispensações de PrEP e PEP já foram realizadas. Os números acompanham a expansão das profilaxias na cidade. Entre janeiro e outubro de 2025, São Paulo registrou 18,5 mil novos cadastros para PrEP, crescimento de 14% em relação ao mesmo período do ano anterior, ultrapassando 75 mil pessoas cadastradas. No mesmo intervalo, foram realizadas 24.424 dispensações de PEP, aumento de 17% em comparação com 2024.
Os resultados dialogam com um cenário epidemiológico positivo. Segundo o Boletim Epidemiológico de HIV/aids da Coordenadoria de IST/Aids, São Paulo acumula oito anos consecutivos de redução nos novos diagnósticos de HIV. Desde 2016, a queda chega a 53%, enquanto entre jovens de 15 a 24 anos a redução foi de 59% apenas em 2024.
Embora esses resultados sejam fruto de um conjunto de estratégias da prevenção combinada — como testagem, tratamento, preservativos, educação em saúde e combate ao estigma —, as máquinas representam uma nova forma de organizar o acesso à prevenção. Elas oferecem mais autonomia aos usuários, reduzem burocracias e ampliam a disponibilidade das profilaxias em uma cidade onde nem sempre é possível conciliar a rotina de trabalho com o horário de funcionamento dos serviços de saúde.
Há ainda outro aspecto importante: o enfrentamento do estigma. Retirar a PrEP ou a PEP em uma estação de metrô, de forma rápida e discreta, pode representar menos exposição do que buscar o medicamento em um serviço especializado. Ao integrar a prevenção ao cotidiano da cidade, a estratégia também contribui para naturalizar o cuidado com a saúde sexual.
O interesse internacional pela experiência demonstra que a inovação vai além da tecnologia. O que chama a atenção é a capacidade de adaptar o SUS às necessidades da vida urbana, utilizando um dos maiores sistemas de transporte da América Latina como aliado da prevenção ao HIV.
Ao apresentar essa iniciativa durante a AIDS 2026, São Paulo leva ao debate global uma experiência construída no serviço público brasileiro que mostra que ampliar o acesso à prevenção nem sempre exige novos edifícios ou estruturas complexas. Às vezes, basta transformar o caminho de milhões de pessoas em uma oportunidade de cuidado.

Estação Consolação

Estação Brás

Estação Luz

Estação Santana

Estação Vila Sônia
Redação da Agência de Noticias da Aids




