“Estou entusiasmada”: Jane Mndebele, de 21 anos, torna-se a primeira sul-africana a receber lenacapavir

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O dia 5 de junho, um momento histórico marcou a resposta ao HIV na África do Sul. Na província de Mpumalanga, Jane Mndebele, de 21 anos, tornou-se a primeira pessoa do país a receber o lenacapavir, medicamento injetável para prevenção do HIV administrado apenas duas vezes ao ano. O procedimento simbolizou o início oficial do novo programa nacional de prevenção sul-africano.

“Estou emocionada”, disse a jovem após receber a injeção das mãos do próprio Ministro da Saúde, Dr. Aaron Motsoaledi. Suas palavras refletiram o sentimento de milhares de pessoas reunidas no Estádio Lilian Ngoyi, em Secunda, e também de pesquisadores, ativistas e profissionais da saúde que aguardavam há anos pela chegada dessa nova ferramenta de prevenção.

O lançamento tem um peso especial em um país que abriga a maior epidemia de HIV do mundo. Com cerca de 7,9 milhões de pessoas vivendo com o vírus, a África do Sul oficializou a distribuição nacional do lenacapavir e tornou-se o nono país africano a incorporar a estratégia.

Para o presidente Cyril Ramaphosa, o momento representa uma mudança de rumo na resposta nacional à epidemia.

“O lançamento do lenacapavir marca um ponto de virada na luta da nossa nação contra o HIV. Representa o triunfo da ciência sobre o desespero. Representa o poder da inovação para salvar vidas”, disse.

Ao mesmo tempo, o presidente destacou que o medicamento não deve ser visto como uma solução isolada. “É mais uma ferramenta poderosa em nosso arsenal. Complementa os testes de HIV, a PrEP oral, o tratamento como prevenção, os preservativos, a circuncisão masculina voluntária e as intervenções comportamentais.”

A avaliação está alinhada à posição do Unaids. Embora considerado um dos avanços mais promissores da prevenção do HIV nos últimos anos, o lenacapavir funciona melhor quando integrado a uma estratégia abrangente de cuidados. A agência defende que sua oferta seja combinada ao uso de preservativos, planejamento familiar, serviços de saúde sexual e reprodutiva e programas comunitários de prevenção. Dados do Unaids mostram que meninas que concluem o ensino médio apresentam risco 50% menor de adquirir o HIV.

A urgência dessa estratégia fica evidente nos números da epidemia. Em 2024, a África do Sul registrou aproximadamente 150 mil novas infecções por HIV. Mulheres e meninas responderam por 59% desses casos. Entre adolescentes e jovens mulheres de 15 a 24 anos, foram mais de 71 mil novas infecções — o equivalente a mais de mil novas infecções por semana.

Nesse contexto, a decisão do governo de priorizar adolescentes e jovens mulheres na implementação inicial do lenacapavir é considerada estratégica.

Alankar Malviya, Diretor Multipaís do Unaids para África do Sul, Lesoto e Essuatíni, saudou o compromisso. “O Presidente Ramaphosa demonstrou vontade política para continuar no caminho da transformação da resposta ao HIV. Saudamos a priorização de meninas adolescentes e mulheres jovens, homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo e pessoas que usam drogas”, afirmou, acrescentando que o Unaids acolhe com satisfação as discussões em curso entre a Gilead Sciences e o governo para explorar a produção local de genéricos.

Para o Unaidsm o lançamento representa tanto uma conquista histórica quanto um teste para a capacidade de transformar inovação científica em acesso real. “Hoje é um dia que muitos de nós aqui na África do Sul esperávamos”, disse Anne Githuku-Shongwe, Diretora Regional do Unaids para a África Oriental e Austral. “Para muitos de nós que trabalhamos na resposta ao HIV, este momento parece quase inimaginável. Agora, precisamos garantir que essa descoberta não se torne mais um exemplo de sucesso científico seguido de fracasso na implementação.”

A implementação terá início em 360 unidades de saúde pública distribuídas por seis províncias e 24 distritos com alta incidência de HIV. A meta nacional é alcançar cerca de um milhão de pessoas até o final de 2027 e três milhões em três anos.

Para viabilizar a iniciativa, o programa contará com um investimento conjunto de R$ 1,3 bilhão do Fundo Global e da Children’s Investment Fund Foundation, além de recursos do governo sul-africano. As versões genéricas do lenacapavir deverão estar disponíveis a partir de 2027 por cerca de US$ 40 por pessoa ao ano — uma redução expressiva em comparação com os valores cobrados atualmente em países de alta renda. Ainda assim, garantir acesso em larga escala permanece um desafio para muitos países que enfrentam restrições orçamentárias crescentes na área da saúde.

Enquanto governos, organismos internacionais e fabricantes discutem os próximos passos, a história de Jane Mndebele já entrou para a história da resposta ao HIV. Ela representa o primeiro rosto de uma nova etapa da prevenção na África do Sul e a esperança de milhares de pessoas que poderão se beneficiar de uma das mais importantes inovações biomédicas dos últimos anos.

Por ora, Jane Mndebele e os milhares de sul-africanos que a seguirão às clínicas nas próximas semanas representam algo real e conquistado com muito esforço: a prova de que, com coragem política, parceria com a comunidade e investimento contínuo, é possível alcançar o progresso científico para servir às pessoas que mais precisam.

Redação da Agência Aids com informações do Unaids

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