Estados Unidos e Bélgica: da prevenção ao preconceito, dois retratos da resposta ao HIV

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Favoritos em áreas diferentes, norte-americanos e belgas entram em campo carregando histórias marcadas por avanços científicos e obstáculos que ainda persistem no enfrentamento ao HIV

Na noite desta segunda-feira (6), às 21h (horário de Brasília), Estados Unidos e Bélgica se enfrentam por uma vaga nas quartas de final da Copa do Mundo. Se dentro das quatro linhas o duelo promete equilíbrio, fora delas os dois países também protagonizam uma disputa marcada por estratégias diferentes no combate ao HIV.

Enquanto os Estados Unidos concentram um dos maiores contingentes de pessoas vivendo com o vírus no mundo, a Bélgica é frequentemente apontada como uma das nações europeias mais próximas de alcançar as metas globais de controle da epidemia. Ainda assim, ambos convivem com desafios que vão além do acesso aos medicamentos.

Estados Unidos: liderança científica em meio a incertezas

Os Estados Unidos contabilizam mais de 1,2 milhão de pessoas vivendo com HIV. Embora o país disponha de tecnologias avançadas para prevenção e tratamento, cerca de 12,5% dessa população ainda desconhece sua condição sorológica, um dos principais entraves para interromper a cadeia de transmissão.

O número de novas infecções permanece praticamente estável desde 2022, com aproximadamente 31,8 mil casos registrados por ano. A epidemia continua afetando de forma desproporcional os homens que fazem sexo com homens (HSH), especialmente jovens negros e latinos. Em 2022, esse grupo respondeu por quase sete em cada dez novos diagnósticos.

Nos últimos meses, o cenário da resposta norte-americana ao HIV também passou a gerar preocupação internacional. Medidas adotadas após o retorno de Donald Trump à presidência, como o congelamento do PEPFAR, considerado um dos mais importantes programas globais de combate ao HIV/aids, e a retirada dos Estados Unidos da Organização Mundial da Saúde (OMS), levantaram dúvidas sobre os impactos futuros para as políticas de prevenção e assistência, tanto dentro quanto fora do país.

Bélgica: indicadores próximos da meta, mas estigma ainda preocupa

A Bélgica apresenta uma das respostas mais consolidadas da Europa. Segundo dados do Unaids, 93% das pessoas vivendo com HIV conhecem seu diagnóstico. Entre elas, 95% recebem tratamento antirretroviral e 98% atingem carga viral indetectável, desempenho que coloca o país muito próximo das metas internacionais 95-95-95.

A prevenção também tem avançado por meio da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP). Disponível de forma regulamentada desde 2017, a estratégia segue em expansão. Em 2024, mais de 10 mil pessoas utilizaram a medicação preventiva, um crescimento de 26% em relação ao ano anterior.

Apesar desses resultados positivos, a epidemia ainda afeta principalmente os homens que fazem sexo com homens, responsáveis por cerca de 43,6% dos novos casos diagnosticados.

O maior desafio belga, entretanto, não está relacionado ao acesso aos serviços de saúde, mas ao preconceito. Levantamento da organização Sensoa mostra que 41% das pessoas vivendo com HIV já sofreram algum tipo de discriminação em razão do diagnóstico.

O receio de revelar a condição sorológica também permanece elevado: aproximadamente 85% afirmam ter cautela ao compartilhar essa informação com familiares, amigos ou colegas de trabalho. O estigma alcança inclusive os serviços de saúde. Quase um terço dos entrevistados relatou experiências de desrespeito durante atendimentos médicos e, em algumas situações, até recusa de atendimento.

Os dados reforçam que, mesmo em países com ampla oferta de tratamento e políticas públicas estruturadas, combater o preconceito continua sendo uma etapa indispensável para controlar a epidemia e garantir qualidade de vida às pessoas vivendo com HIV.

Quando a bola rolar nesta noite, Estados Unidos e Bélgica disputarão uma vaga nas quartas de final. Fora dos gramados, porém, o confronto revela duas realidades distintas: de um lado, um país com enorme capacidade científica que enfrenta desafios políticos e desigualdades persistentes; do outro, uma nação próxima das metas globais de controle do HIV, mas que ainda precisa vencer um adversário invisível e resistente: o estigma.

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