Especialistas de várias áreas dão dicas para aproveitar as festas com segurança
Multidões, poucas horas de sono e alimentação improvisada quase transformam o carnaval em uma prova de resistência. E, em meio à euforia, é comum que sinais de alerta em relação à saúde passem despercebidos. O resultado pode aparecer em forma de mal-estar, queda de pressão, infecções e outros problemas capazes de levar os foliões para casa mais cedo.
Especialistas ouvidos pelo Estadão reforçam que atravessar a folia com segurança depende de planejamento e escolhas simples ao longo do dia. Pequenas atitudes podem evitar complicações e garantir que a festa termine apenas em boas histórias — e não no pronto-socorro de um hospital. Acompanhe, a seguir, as principais recomendações.
1- Não beba álcool além da conta
De acordo com Olivia Pazzolo, médica psiquiatra e pesquisadora do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), o consumo de bebida alcoólica no carnaval costuma se estender por horas. Isso pode mascarar o impacto real do álcool no organismo e fazer com que o folião beba cada vez mais. “É nesse cenário que muitas pessoas acabam caindo no que chamamos de ‘beber pesado episódico’, que é o consumo de cinco ou mais doses para homens, ou quatro ou mais doses para mulheres, em um curto período de tempo”, explica.
“Mesmo quem já tem o hábito de beber não está imune, pois a perda de reflexos e a alteração do julgamento acontecem de forma gradual. Isso aumenta muito a exposição a acidentes, episódios de violência e quadros graves de desidratação, já que o corpo possui um limite físico e fixo para processar o álcool, independente da resistência da pessoa”, acrescenta a médica.
2- Tome água e não fique com o estômago vazio
Para reduzir os danos associados à cerveja, aos drinques e companhia, Olivia recomenda intercalar esse consumo com a ingestão de bons goles de água, já que o álcool desidrata o corpo rapidamente.
Beber de estômago vazio também é um erro comum. “A alimentação ajuda a tornar a absorção do álcool mais lenta”, explica.
3- Não use remédios com a intenção de evitar a ressaca
Uma dica bastante difundida nas redes sociais é a de tomar um antiácido antes de começar a beber para evitar ou aliviar a ressaca no dia seguinte. Mas, segundo a médica do Cisa, isso é um mito. “Embora possa aliviar um desconforto gástrico pontual, ele não tem o poder de neutralizar a toxicidade do álcool no organismo nem de prevenir a ressaca, que é um processo inflamatório muito mais complexo do que um simples mal-estar”, detalha Olivia.
Isso vale até para o Engov, que, inclusive, ficou marcado pela famosa frase “um Engov antes, outro depois”. O próprio fabricante informa que o medicamento não deve ser misturado com álcool.
Se a ressaca der as caras, o mais adequado é combater os sintomas de forma pontual, ao invés de tomar um medicamento com vários componentes. Por exemplo: se estiver com dor de cabeça, aposte em um analgésico voltado especificamente para isso, como a dipirona.
4- Cuidado com o uso combinado de álcool e outras substâncias
Os medicamentos em geral merecem uma atenção especial. Combinar o uso de certas substâncias com álcool, mesmo que acidentalmente, pode gerar impactos mais sérios à saúde. “A mistura com antibióticos, por exemplo, é perigosa porque pode gerar reações como palpitações, vômitos e dores de cabeça intensas. Já analgésicos e anti-inflamatórios podem causar irritações gástricas e lesões hepáticas”, cita Olivia.
Outro ponto de atenção especial são os energéticos: “Eles são perigosos justamente porque mascaram a sensação de embriaguez. A pessoa não consegue sentir o efeito real do álcool e se sente falsamente ‘alerta’, enquanto sua coordenação motora e os batimentos cardíacos já estão sob estresse severo, o que aumenta consideravelmente o risco de colapsos cardiovasculares”, acrescenta a médica.
5- Meu amigo desmaiou. E agora?
Caso alguém desmaie, a primeira recomendação, de acordo com Olivia, é colocar a pessoa de lado na posição lateral para evitar que ela sufoque caso venha a vomitar. “É importante tentar mantê-la acordada, aquecida e buscar ajuda médica o quanto antes”, recomenda.
“O que nunca deve ser feito é oferecer café, banho gelado ou tentar fazer a pessoa caminhar, porque nada disso acelera a desintoxicação e pode causar acidentes. Além disso, jamais tente dar comida ou líquidos para alguém que não está totalmente consciente, pois o risco de o alimento ir para os pulmões é altíssimo e pode levar a complicações respiratórias graves”, adiciona.
6- Aposte em refeições leves
A orientação é investir em fontes de carboidratos complexos, como pães, massas e cereais integrais, que liberam glicose no sangue de maneira mais vagarosa, contribuindo para a manutenção da energia. Para uma refeição equilibrada, combine-os a proteínas magras, como frango e peixes. Alimentos como queijos e iogurtes também são bem-vindos, já que ajudam a manter o pique ao longo do dia.
“Isso vai manter a energia estável e vai evitar quedas bruscas de glicemia, que aumentam o cansaço. Frutas, verduras e legumes também são ótimos”, orienta Lara Natacci, nutricionista com pós-doutorado em nutrição pela Universidade de São Paulo (USP) e conselheira do Cisa.
7- Atenção com a comida de rua
Quem decide curtir os blocos pela cidade, muitas vezes não consegue voltar para casa e se alimenta pela rua mesmo. Isso, no entanto, acende um alerta para a qualidade e as condições de higiene do que é consumido.
Para evitar casos de intoxicação alimentar, Lara recomenda que as pessoas observem se os alimentos estão protegidos do sol, se têm refrigeração adequada e se a pessoa que manipula os ingredientes têm boas práticas de higiene.
8- De olho na desidratação
Segundo Gustavo Patury, médico gastroenterologista do Hospital Vila Nova Star, da Rede D’Or, o carnaval combina três fatores que aumentam o risco de desidratação: calor intenso, consumo de álcool e longos períodos em pé. Tudo isso cria um cenário ideal para a perda excessiva de líquidos.
“Quando o corpo perde mais líquido do que recebe, o sangue fica mais concentrado, a pressão pode cair e os órgãos começam a funcionar de forma menos eficiente. Em casos leves, isso causa mal-estar. Em situações mais graves, pode levar a queda de pressão, desmaios, arritmias, insuficiência renal aguda e até confusão mental”, alerta.
O álcool piora toda a situação. Segundo o médico, a substância aumenta a produção de urina e reduz a percepção de sede, o que acelera o processo de desidratação.
Os sintomas do quadro são sutis e podem passar despercebidos, mas incluem:
Sede intensa;
Boca seca;
Dor de cabeça;
Tontura ao levantar;
Urina mais escura e em menor quantidade;
Cansaço fora do habitual.
9- Não espere sentir sede para beber água
De acordo com Patury, a necessidade de água varia de acordo com o peso, a temperatura ambiente, o nível de atividade física e o consumo de álcool. “Como referência geral, usamos cerca de 30 a 40 ml de água por quilo de peso por dia. Uma pessoa de 70 kg, por exemplo, precisaria entre 2,1 e 2,8 litros em um dia normal.”
“No carnaval, esse valor pode facilmente aumentar para 3 a 4 litros ao longo do dia, dependendo da exposição ao sol”, adiciona.
Ele faz algumas orientações:
Não espere sentir sede para beber água;
Intercale cada bebida alcoólica com pelo menos um copo grande de água;
Observe a cor da urina como “termômetro” da hidratação. Quanto mais clara, significa que mais hidratado está o organismo.
10- Não segure o xixi
No meio da multidão e com filas quilométricas para usar os banheiros, muitos foliões preferem segurar o xixi e continuar na festa. Mas adiar esse momento pode gerar alguns riscos.
De acordo com Mark Neumaier, urologista dos hospitais São Marcelino Champagnat e Universitário Cajuru, em Curitiba, a bexiga tem duas funções principais: armazenar e eliminar a urina. Normalmente, o órgão consegue armazenar entre 300 e 400 ml de urina.
“Uma das consequências mais comuns (de segurar o xixi por muito tempo) são infecções urinárias, principalmente para as mulheres, que têm um canal de urina mais curto. Quanto mais tempo a urina permanecer na bexiga, maior o tempo que a bactéria tem para se proliferar e causar infecções. Então, para as mulheres que já tiveram episódios de infecção urinária, a recomendação é que esvaziem (a bexiga) o quanto antes”, explica o urologista.
Segurar a vontade de urinar repetidas vezes pode trazer outras consequências. Segundo Neumaier, esse hábito pode comprometer a capacidade de contração da bexiga. Com o tempo, isso pode levar ao chamado resíduo pós-miccional, quando o órgão não consegue eliminar toda a urina e parte dela permanece no organismo.
A situação pode aumentar o risco de infecção urinária, além de provocar sensação constante de bexiga cheia, vontade frequente de urinar, jato fraco e até gotejamento após sair do banheiro. Em casos mais graves, pode levar à retenção urinária, distensão da bexiga e até refluxo de urina para os rins, o que, a longo prazo, pode comprometer a função renal.
11- Faça sexo seguro
O período festivo também pode favorecer o crescimento de registros de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Afinal, sob o efeito do álcool e no calor do momento, o uso de preservativo pode acabar ficando em segundo plano. Mas é importante que isso não aconteça. “Mesmo no clima de festa, não dá pra ‘relaxar’”, destaca Júlia Reis, ginecologista e professora da Afya Faculdade de Medicina de Itajubá.
“É importante ter preservativos disponíveis antes da festa, já que o álcool pode diminuir a atenção e a capacidade de decisão. O uso de preservativo continua sendo essencial em qualquer relação sexual, inclusive oral (sendo com parcerias do sexo feminino ou do sexo masculino). Além disso, evite compartilhar objetos íntimos e sempre converse sobre limites e faça combinados claros antes do sexo”, recomenda a médica.
Ela ainda destaca que, apesar da camisinha ser uma peça fundamental na prevenção, outras medidas podem dar uma camada a mais de segurança. Uma delas é a profilaxia pré-exposição (PrEP). Esse tipo de estratégia é baseada no uso de medicamentos capazes de atuar em diversas etapas do ciclo replicativo do HIV. Daí seu potencial preventivo.
Também existe a profilaxia pós-exposição (PEP), indicada depois de uma situação de risco, como o sexo desprotegido ou ruptura do preservativo. Outros caminhos, segundo a médica, incluem a vacinação contra o HPV e hepatite B, testagem regular e conversa aberta com parceiros.
“A ideia é pensar em prevenção combinada, não em uma coisa só. Para ter acesso aos testes rápidos, à PEP e à PrEP basta procurar informações na UBS mais próxima, mesmo antes do Carnaval começar”, ressalta Júlia.
A professora também pontua que, após as festas, é importante que os foliões façam testagens para verificar se contraíram alguma infecção, mesmo que tenham seguido todas as recomendações de segurança. Ela ressalta que muitas ISTs não apresentam sintomas imediatos. A sífilis, por exemplo, pode levar anos para se manifestar — em alguns casos, até uma década.
Em situações mais extremas, como casos de violência sexual, a vítima deve procurar atendimento o quanto antes. “Serviços de saúde estão preparados para acolher, oferecer profilaxias contra ISTs (como HIV), contracepção de emergência, coleta de exames e apoio psicológico — tudo isso sem obrigação de boletim de ocorrência naquele momento. A vítima não tem culpa de nada, e o cuidado precisa ser rápido, respeitoso e acolhedor”, destaca Júlia.
12- Não se esqueça do protetor solar
O médico Carlos Barcaui, presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), alerta que a pele também precisa de um cuidado especial durante o carnaval. “O primeiro risco, sem dúvida, é a queimadura solar. Exposição intensa, principalmente no horário de pico, entre 9h e 15h, pode causar vermelhidão, dor e eventualmente bolhas”, afirma.
A SBD recomenda o uso de protetor com FPS mínimo de 30 e, de forma ideal, acima de 50 para peles mais claras e sensíveis. Barcaui orienta que a aplicação seja feita pelo menos 30 minutos antes da exposição ao sol e em quantidade generosa: uma colher de chá para o rosto e cerca de 30 gramas, o equivalente a uma colher de sopa cheia, para cada grande área do corpo.
A reaplicação deve ocorrer pelo menos a cada duas horas, com intervalo que pode variar conforme a pessoa sue ou entre na água. “Não é passar só de manhã e achar que até 16h pode ficar exposto ao sol”, destaca o presidente da SBD. Ele também chama atenção para áreas que costumam ser esquecidas, como orelhas, dorso das mãos, pés e couro cabeludo.
O protetor solar, no entanto, não é o único aliado. Segundo o dermatologista, é importante também procurar a sombra, usar roupas adequadas (de preferência com proteção ultravioleta e que cubram as áreas expostas) e evitar o sol nos horários de pico.
13- Escolha enfeites que não prejudiquem a pele
O dermatologista afirma que glitter, tintas e maquiagens são causas frequentes de alergia por dermatite de contato. Ele orienta a buscar itens com registro adequado e testados dermatologicamente, evitar produtos artesanais e, se possível, fazer um teste em uma pequena área da pele antes de aplicar o produto em regiões maiores do corpo.
Depois das festas, a orientação de Barcaui é “lavar com água abundante, e sempre que acabar a folia, tome banho. Evite dormir com todos esses produtos na pele.”
14- Olhos também merecem atenção
O Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) faz um alerta sobre o uso de maquiagens com glitter, colas para cílios, tintas faciais, sprays de espuma e pomadas modeladoras de cabelo, que podem provocar irritações, alergias e até queimaduras químicas na córnea, especialmente se houver contato direto com os olhos.
De acordo com a entidade, é fundamental utilizar apenas produtos aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e procurar avaliação oftalmológica imediata diante de sinais como ardor, vermelhidão ou visão embaçada.
A exposição ao sol e à água também exige cuidados específicos. Segundo a entidade, o uso de óculos de sol com proteção UV ajuda a reduzir os danos da radiação solar, enquanto evitar abrir os olhos ao mergulhar no mar ou na piscina diminui o risco de irritação causada por sal, cloro e partículas em suspensão.
Para quem usa lentes de contato, o CBO reforça que não se deve dormir com as lentes e que a higienização precisa ser rigorosa, sobretudo em ambientes com poeira, suor e maquiagem. Em caso de contato com substâncias químicas, a orientação é lavar os olhos com soro fisiológico ou água corrente e buscar atendimento especializado.




