
Heavy Metal era o nome de uma danceteria de Santos, minha cidade natal. Criada nos anos 1980 sobre os escombros de um antigo cinema, ela recebeu todos os cantores e grupos que mais tarde escreveram a história do rock brasileiro –Legião Urbana (que se apresentou como trio), Paralamas do Sucesso, Titãs, Kid Abelha, Ultraje a Rigor e muito mais.
A apresentação do Barão Vermelho, ainda nos primeiros anos de sua trajetória, gerou uma lenda urbana: o produtor e entusiasta Ezequiel Neves teria jogado copos transbordados de whisky em Cazuza e estes, por sua vez, se espatifavam ao entrar em contato com o solo ou com a bateria de Guto Goffi.
O vocalista, revoltado, teria tirado as botas e andado em cima dos cacos, protagonizando uma versão heterodoxa do lema “dar o sangue pela banda” (tempos depois, Goffi, numa conversa informal, disse não se recordar da cena e muito menos que ela teria acontecido em Santos. Mas a técnica de jogar copos em Cazuza era verdadeira, visto que Ezequiel queria que seu pupilo se movimentasse mais no palco).
Cazuza deixou o mundo no dia 7 de julho de 1990, em decorrência do vírus da Aids. E ao contrário de uma previsão maldosa feita antes dele morrer, suas composições ainda são relevantes, como mostram dois lançamentos dedicados ao cantor carioca.
A exposição Cazuza – Exagerado, atualmente em cartaz no Shopping Leblon, no Rio de Janeiro, oferece uma experiência sensorial, onde peças de seu acervo pessoal se misturam a fotos e momentos musicais (leia mais sobre a mostra). No dia 17 de julho estreia nos cinemas Cazuza – Boas Novas, de Nilo Romero, documentário que traz uma visão delicada do autor (com Renato Ladeira) da bossa nova Faz Parte do Meu Show.
Em 2026, Cazuza ainda será homenageado no Prêmio da Música Brasileira, um dos principais eventos do showbiz no país.
Mas por que ainda falamos tanto de Cazuza?
Primeiro porque era extremamente talentoso. Em seu arsenal de letras, a dor de cotovelo de Janis Joplin (inspiração de Down em Mim, do primeiro disco do Barão Vermelho) casava com a fossa de Dolores Duran (Tapas na Cara, gravada por Ângela Maria) e o hedonismo dos anos 1980 era celebrado em canções como Pro Dia Nascer Feliz e Por que que a Gente é Assim?
Numa entrevista para a revista BIZZ, na segunda metade dos anos 1980, Cazuza confessou sentir inveja criativa dos textos que Renato Russo criou para a Legião Urbana. Como resultado, canções como Ideologia (do LP homônimo, lançado em 1989), Brasil e O Tempo Não Para estão entre os protestos mais fortes de seu repertório.
Segundo, existe um empenho de Lucinha Araújo, mãe do compositor, para que a obra dele tenha a exposição merecida. O que faz toda diferença, num universo em que os herdeiros dos principais nomes do pop e da MPB parecem trabalhar contra esse patrimônio. A liberação de certas obras para gravação saem a muito custo e com preços considerados abusivos –o que, muitas vezes, impede sua regravação.
Lucinha, por seu turno, é vista como “parceira, acessível e razoável” pelos profissionais que trabalham em editoras (pelo menos três fontes que consultei rasgaram elogios para o seu bom senso na hora de cuidar do cancioneiro de Cazuza). A generosidade com a qual trata desse repertório permite que surjam trabalhos brilhantes como Agenor – As Canções de Cazuza (2013), projeto do DJ Zé Pedro e com curadoria de Lorena Calábria, no qual canções do Barão Vermelho e de Cazuza ganham versões audaciosas do cantor Silva e da dupla Letuce, que cantam respectivamente Mais Feliz e Eu Não Amo Ninguém.
Cazuza: O Poeta Vive, outra homenagem, que bisa a participação de Silva (Eu Preciso Dizer que te Amo), traz Thiago Pantaleão e Marô (Pro Dia Nascer Feliz), Luiza Martins (Codinome Beija-Flor) e Reddy Alor (O Tempo Não Para) ao lado de vinte músicas do repertório autoral de Cazuza e gravações do tempo de Barão Vermelho.
De tempos em tempos, Lucinha revela letras inéditas do filho e as entrega para autores e intérpretes que considera ideais para registrá-las. Fez isso com Poema, musicada pelo principal parceiro de Cazuza, Roberto Frejat, e gravada em 1999 por Ney Matogrosso.
Dois anos atrás, deu um punhado de escritos inéditos do filho para o cantor Jão. A exemplo do que o showbiz americano faz com o cancioneiro de George Gershwin e Cole Porter, ela transforma as composições de Cazuza em standards da era moderna.
De volta a Santos… Pensando bem, não tenho certeza se estava entre as testemunhas da autoimolação de Cazuza na Heavy Metal. Os meus tempos de adolescente revoltado faziam com que me identificasse muito mais com as letras sorumbáticas de Renato Russo do que a celebração do autor de Maior Abandonado. Sim, são essas besteiras que a gente comete quando se é jovem.
O tempo e os depoimentos de Ezequiel Neves, contudo, me fizeram acordar para histórias do nascimento de Eu Não Amo Ninguém (que ele fez de tanto que Ezequiel berrou essa frase no estúdio onde o Barão estava gravando) e muitas outras letras nascidas no calor do momento. Pelo menos o empenho de Lucinha nos faz lembrar diariamente da importância de Cazuza em nossa vida de apreciadores de música.
* Sérgio Martins é jornalista e crítico musical.


