A narrativa do ‘problema resolvido’ permitiu a pessoas, à mídia e a governos inteiros empurrar a aids de volta ao mesmo silêncio que antes
Algo estranho começou a acontecer logo após a publicação do meu romance Os que tanto acreditaram, em 2018. Quando eu era apresentada a alguém — por exemplo, em uma festa de patrocinadores de um festival literário — que já tinha ouvido falar do livro, mas não sabia exatamente do que ele tratava, eu explicava: “É sobre os primeiros dias da aids em Chicago.” E, com frequência, eu ouvia a réplica, dita de forma simpática e até mesmo sincera: “Não é ótimo que tenhamos curado isso?”
Uma circunstância que sempre me colocava numa situação desconfortável. Eu poderia sorrir e deixar o comentário passar, o que seria um desserviço a todas as vítimas, vivas ou já falecidas. Ou corrigir a ignorância do interlocutor, o que talvez não fosse a melhor maneira de lidar com um patrocinador. Na maioria das vezes, eu acabava dizendo: “Receio que vou estragar sua noite.”
Segundo o Unaids, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/aids, no ano passado havia 40,8 milhões de pessoas vivendo com HIV no mundo, incluindo 1,3 milhão de novas infecções. Quando eu mencionava números como esses, costumava ouvir respostas do tipo: “Ah, certo, mas agora é possível sobreviver, é apenas na inconveniência médica.” Então eu precisava lembrar que 630 mil pessoas morreram no mesmo período por doenças relacionadas à aids, momento em que o ouvinte já buscava desesperadamente mais uma bebida.
No início, o silêncio cercava a doença. Políticos como Ronald Reagan se recusavam a mencioná-la; os doentes escondiam sua condição por medo de serem excluídos, seja por estarem doentes, serem gays ou ambos; e a cobertura jornalística era surpreendentemente escassa, muitas vezes tendenciosa e imprecisa. Só aos poucos, com a pressão dos ativistas, a atenção das celebridades e a visibilidade de pacientes famosos (como Rock Hudson e Magic Johnson nos Estados Unidos), o tema passou a ocupar espaço nas redações, nas escolas e no discurso público. Porém, desde meados da década de 1990, quando as terapias antirretrovirais tornaram possível a sobrevivência a longo prazo, parece que entramos em uma nova era de silêncio.
Há algumas razões para isso, contudo, todas insuficientes. Uma delas é que é difícil transformar em notícia atraente algo que acontece há 44 anos. Outra é que, com a disponibilidade de medicamentos preventivos e terapêuticos, o HIV atinge principalmente pessoas mais vulneráveis, em situação de pobreza e com falta de acesso à educação de qualidade ou a recursos básicos — o que torna a crise menos visível para quem consome notícias diariamente ou elabora políticas públicas. E há ainda o fato de que, tanto em escala global quanto em países multirraciais, o HIV afeta desproporcionalmente pessoas negras e não brancas, já historicamente negligenciadas no cenário nacional e internacional. (Nos Estados Unidos, são também as que menos têm acesso a planos de saúde dentro do nosso sistema desigual e estratificado).
Meu romance, ambientado principalmente entre 1985 e 1992, com um fio condutor que acompanha um sobrevivente até 2015, abordou apenas de forma breve a situação mundial da aids na década de 2010. Isso não ocorreu porque o tema não se encaixasse no livro ou porque eu não quisesse tratá-lo, mas por uma razão mais ingênua: eu realmente acreditava que as pessoas já estavam bem informadas.
Na época, eu desconhecia a narrativa do “problema resolvido”, que permitiu a pessoas, à mídia e a governos inteiros empurrar a aids de volta ao mesmo silêncio que antes — e sempre — possibilitou sua expansão. A realidade é que o HIV está em ascensão em quase todo o mundo. No Brasil, a Statista (plataforma on-line alemã especializada em coleta e visualização de dados) estima 1,1 milhão de novos casos, quase o dobro do registrado em 2010 e pouco abaixo do número dos Estados Unidos. Globalmente, cerca de 13% das pessoas que vivem com HIV não sabem que são portadoras do vírus.
“Ah”, alguém diz ao meu personagem de 2015 quando a aids é mencionada, “eu me lembro daquela época!”. A observação o irrita, mas não achei necessário explicar por que “aquela época” não é um ponto encerrado no passado.
Como alguns dos sobreviventes que entrevistei para o livro me disseram: “Todos nós vivemos com a aids.” E todos nós continuaremos a viver com ela — quer a enfrentemos, quer tentemos ocultá-la, mais uma vez, sob o manto do silêncio.
* Rebecca Makkai é escritora, autora do livro ‘Os que tanto acreditaram’(editora Valentina), best-seller do NYT, finalista do Pulitzer e do National Book Award.



