“Esse amor de mãe cura”: no mês das mães, a história de Heliana Moura inspira acolhimento, luta e afeto contra o estigma do HIV

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No mês das mães, a história de Heliana Moura, 55 anos, assistente social e ativista, ressoa como um grito contra o preconceito, um chamado à empatia e, sobretudo, uma declaração de amor incondicional à maternidade. Vivendo com HIV há 28 anos, ela compartilha uma trajetória marcada por violência institucional, acolhimento e reinvenção. Sua vivência é um retrato da resistência das mulheres que enfrentam não só o vírus, mas também o estigma que ainda cerca a infecção pelo HIV no Brasil.

Heliana recebeu o diagnóstico de HIV em 1996, em Belo Horizonte. Já era mãe de Isabelle, sua primeira filha, e decidiu se mudar para Brasília para recomeçar a vida. Aos 28 anos, descobriu uma nova gestação — resultado do rompimento de uma camisinha durante uma relação sexual. Ao procurar atendimento, o que encontrou não foi acolhimento, mas julgamento: “O gerente veio me xingando todinha, dizendo que eu era uma irresponsável, que estava colocando outras pessoas em risco. Sai do médico arrasada, já decidida a interromper a gravidez”, relembra.

O preconceito se repetiu em outro episódio doloroso: em um pedido médico, um profissional chegou a escrever a palavra “promiscuidade” logo abaixo do nome dela.

Mesmo em meio à hostilidade e desinformação, Heliana buscou o pré-natal adequado no Hospital Universitário de Brasília, onde encontrou, pela primeira vez, acolhimento profissional: “Foi um momento de trabalho multiprofissional mesmo. Eles conversavam muito entre si sobre os pacientes. E tudo que eu precisava eu tinha — apoio psicológico, infectologista, obstetra… Criei vínculo com a assistente social e consegui viver a gravidez com qualidade”.

Heliana engravidou do segundo filho, o Matheus, já vivendo com o HIV. Ela seguiu rigorosamente o tratamento prescrito e ele nasceu sem o vírus. “Mesmo com enjoo, mesmo ruim, eu tomava os medicamentos. Eu sabia que aquilo ia proteger meu filho.” O parto foi cesariana, o bebê nasceu saudável e, como preconiza o protocolo para prevenção da transmissão vertical, Heliana não amamentou. “No nosso caso, não amamentar é um ato de amor.”

A segunda maternidade não era um plano. A primeira filha de Heliana nasceu com uma síndrome genética e ela temia que uma nova gestação pudesse trazer desafios semelhantes.

A relação com os filhos é marcada por carinho, mas também por desafios. “O Matheus sempre foi muito tranquilo, me apoiou. Já a Isabelle, minha filha mais velha, acabou indo morar com o pai. Temos uma relação mais distante, talvez por essa minha ausência durante os anos em que viajei muito na militância.”

Sobre a forma como lidou com o tema do HIV com os filhos, Heliana diz que foi algo natural: “Eles sabiam. Participavam das atividades comigo. Isabelle ia nas palestras, nas ONGs. Para ela, era uma festa. Mas o Matheus entendeu de verdade quando me viu falando num encontro em Guarapari, no Espírito Santo. Depois disso, me escreveu uma carta dizendo o quanto se orgulhava de mim. Eu nunca esqueci.”

Hoje, Heliana é uma liderança no Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas. Usa sua voz para defender o direito das mulheres à saúde reprodutiva e denuncia falhas nos serviços de saúde que ainda levam à transmissão vertical do HIV — como os três casos registrados recentemente em Belo Horizonte. “Essas falhas não podem acontecer. Toda mulher vivendo com HIV tem o direito de ser mãe com segurança, dignidade e apoio.”

Ao lembrar do profissional de saúde que a chamou de irresponsável, ela não fala com rancor, mas com um desejo de transformação: “O julgamento pode atrapalhar o tratamento, a aceitação e até uma gestação. O profissional tem que escutar. Mesmo que ele não acredite, é a verdade da pessoa. E essa verdade precisa ser respeitada. Acolher faz toda a diferença — desde a entrega do diagnóstico até a decisão de ser mãe. A gente não quer só remédio. A gente precisa de muito mais.”

Heliana termina a entrevista com uma mensagem poderosa para outras mulheres vivendo com HIV que sonham com a maternidade: “É possível. É muito possível viver com HIV. É possível ser mãe com HIV. É possível ter um filho sem HIV. E para quem descobre o diagnóstico durante a gestação, é ainda mais importante ter uma rede de apoio. A saúde não é só o remédio. A saúde é acolhimento, é escuta, é respeito.”

E conclui com o que ela acredita ser o maior poder transformador do mundo: “Esse amor de mãe cura. Esse amor perdoa. Esse amor faz verdadeiros milagres nas nossas vidas.”

“Sou muito fã dela”: Matheus Moura presta homenagem à mãe e fala sobre afeto, luta e superação

A Agência Aids também conversou com Matheus Moura. Hoje com 26 anos e advogado, ele é um dos maiores orgulhos da vida da ativista Helilana Moura — e também seu companheiro de caminhada nas lutas contra o estigma e pela valorização das pessoas que vivem com HIV.

“Quando minha mãe me contou que vivia com HIV, eu ainda era muito pequeno. Ela sempre me inseriu nesse universo de forma muito natural, participando com ela dos movimentos sociais, das rodas de conversa, das formações. Era algo que pra mim era parte da vida, como qualquer outra coisa”, conta Matheus.

Segundo ele, Heliana teve muita habilidade para falar abertamente com os filhos sobre HIV, sexualidade e saúde: “Ela trouxe muita informação, falava com propriedade e com afeto. Nunca teve um baque, um susto. Ela conduziu tudo com muita maestria”, elogia.

E diz que se lembra quando Heliana contou que chegou a pensar em interromper a gravidez por conta da violência que sofreu no primeiro atendimento. “Ela saiu completamente abalada do serviço, sem chão, desorganizada emocionalmente. Mas encontrou acolhimento e respeito no hospital universitário e dali em diante seguiu com força e apoio. Foi esse acolhimento que garantiu que eu estivesse aqui hoje”, diz Matheus.

Crescer ao lado de uma mãe que transformou dor em luta fez de Matheus um multiplicador natural de informações: “Quando eu era criança, às vezes eu ficava meio receoso de falar. Mas logo na adolescência comecei a falar com muita naturalidade. Hoje, se alguém me pergunta, eu conto. Falo que minha mãe vive com HIV, que ela é ativista, que enfrentou muito preconceito, mas nunca parou de sonhar. E que eu nasci nesse contexto, cercado de coragem e amor.”

Um recado para os filhos e para as mães

Matheus, que cresceu aprendendo a força do afeto e da resistência, deixa um recado para os filhos de mães HIV+:

“Admirem suas mães. Ser mãe já é um desafio imenso, ainda mais em uma sociedade que julga tanto. Agora imagina ser mãe vivendo com HIV, enfrentando estigmas, violências e tendo que manter tudo de pé? Elas são gigantes. Então respeitem, acolham, sejam fãs delas. Porque elas merecem tudo.”

E quando perguntado sobre como pretende comemorar este Dia das Mães, Matheus dividiu que:

“A gente se junta em família, minha mãe, minha avó, meus tios. Almoçamos juntos, passamos o dia celebrando quem a gente ama. É simples, mas é cheio de significado.”

Por fim, ele deixa um recado direto para Heliana:

“Mãe, obrigado por tudo que você fez e faz por mim. Por ter me criado com tanto amor, com tanta verdade. Você é uma mulher incrível, com uma história que inspira. E mesmo quando você esquece disso, eu faço questão de te lembrar. Você merece tudo de bom na vida. Eu sou o seu fã.”

Redação da Agência de Notícias da Aids

Dica de entrevista

Heliana Moura

Instagram: @mouraheliana

 

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