12/07/2014 – 16h
Três especialistas em HIV/aids, Maria Clara Gianna, coordenadora do Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo, Zarifa Khoury, infectologista do Hospital Emilio Ribas e do Programa Municipal de DST/Aids e o pesquisador Jorge Beloqui disseram que o reaparecimento do vírus na criança de quatro anos que foi dada como curada nos Estados Unidos é lamentável, mas era prevista.
A notícia foi dada nessa quinta-feira (10) e decepcionou a comunidade científica.
“Eu esperava por isso”, diz Maria Clara Gianna. “Notícias como essa devem sempre ser tratadas com muito cuidado. De qualquer forma, a gente tem sempre esperança da cura e creio que esse caso nos ajudará a avançar nesse sentido.”
“Nós, médicos, esperávamos por isso porque sabemos que o vírus só não aparece se não for integrado ao material genético. Ele não aparecia nessa garota mas estava lá. É uma pena e esse caso representa um passo à frente nos estudos sobre replicação de HIV”, diz Zarifa Khoury.
“Uma pena que ela não foi curada”, lamenta Jorge Beloqui. “A não detecção do vírus foi um acaso, mas a menina teve um grande benefício de controle da doença. Isso já é um avanço e nos dá pistas importantes sobre o comportamento do vírus.”
Relembre o caso
Em março do ano passado, médicos anunciaram que, pela primeira vez, um bebê tinha sido curado funcionalmente do vírus causador da aids. Nascida na zona rural do Mississípi, nos Estados Unidos, a menina foi tratada com antirretrovirais cerca de 30 horas após vir ao mundo.
O suposto sucesso do tratamento foi divulgado com grande destaque e o caso foi visto como possível revolução no protocolo terapêutico de recém-nascidos, já que cerca de 250 mil crianças nascem no mundo infectadas com o vírus a cada ano. Agora, no entanto, a notícia representa um revés nas esperanças de que o tratamento precoce de drogas possa reverter a infecção.
A menina nasceu prematuramente em 2010, e sua mãe, infectada pelo HIV, não tinha recebido cuidado pré-natal. Depois do nascimento, a criança foi levada às pressas para o Centro Médico da Universidade do Mississípi, onde a médica Hannah Gay, especialista em HIV em crianças, ministrou-lhe um coquetel de três drogas antirretrovirais.
Depois de um ano e meio, os médicos interromperam o tratamento da menina. Quando ela retornou ao centro médico tempos depois, continuava livre do vírus. Entretanto, na última semana, descobriu-se a replicação. A criança está sendo novamente tratada com drogas anti-HIV, o que, provavelmente, deverá ocorrer pelo resto da sua vida.
Hannah Gay descreveu sua decepção como um “soco no estômago”, segundo a agência de notícias Reuters. Para Anthony Fauci, por outro lado, o caso continua sendo válido, pois, segundo ele, mostra que o bebê de fato tinha sido infectado, o que chegou a ser posto em dúvida, e que o tratamento ajudou a prevenir a replicação do vírus pelo menos por um certo período. O médico tinha anunciado em maio planos de estudar outras crianças usando a mesma técnica, mas provavelmente voltará atrás nessa decisão.
A técnica já estava sendo aplicada num outro caso de um bebê infectado na Califórnia. Em março, médicos da criança anunciaram que ela estava sem traços do vírus havia nove meses. Mas, como continuava em tratamento, os especialistas evitavam dizer se estava curada.
Redação da Agência de Notícias da Aids, com O Globo



