Especialistas defendem novas estratégias para ampliar o acesso à PrEP e ressaltam papel da sociedade civil no enfrentamento ao HIV no Brasil

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O futuro da prevenção e do cuidado com o HIV no Brasil passa pela inovação tecnológica, pela valorização da sociedade civil e por uma comunicação mais acessível e acolhedora. Essa foi a principal conclusão do debate realizado durante a 6ª edição do HIV Leaders, promovida pela GSK/ViiV Healthcare, nos dias 29 e 30 de agosto, no Rio de Janeiro.

O encontro reuniu médicos, pesquisadores e ativistas em torno do tema “Atualidades no Cuidado e Prevenção do HIV – Um olhar além da terapia antirretroviral”, destacando não apenas avanços científicos, mas também os obstáculos sociais, estruturais e culturais que ainda limitam o acesso à prevenção.

Entre os nomes presentes, estiveram a infectologista dra. Márcia Rachid, referência histórica no enfrentamento à epidemia no Brasil; o infectologista dr. Rico Vasconcelos, do Hospital das Clínicas da São Pauli; o ativista Harley Nascimento, diretor do Fundo Positivo; a pesquisadora dra. Brenda Hoagland, da Fiocruz; e o médico e comunicador dr. Vinícius Borges, conhecido como Dr. Maravilha.

“Um olhar além da terapia antirretroviral”

Abrindo o painel, a dra. Márcia Rachid, cofundadora do Grupo Pela Vidda Rio de Janeiro e pioneira na assistência a pessoas vivendo com HIV desde os anos 1980, destacou a necessidade de ampliar o debate para além do tratamento.

“A epidemia do HIV nos mostrou que não basta falar apenas de terapia antirretroviral. É preciso olhar para a vida das pessoas, seus direitos, sua dignidade e o modo como elas conseguem acessar e se manter nos serviços de saúde. O cuidado é integral”, afirmou.

Márcia ressaltou que barreiras como o estigma, a discriminação e a desigualdade social ainda persistem e afetam diretamente os índices de adesão às estratégias de prevenção. Para ela, a escuta ativa e a adaptação dos serviços às realidades dos usuários são centrais para qualquer política eficaz.

A telemedicina como aliada

O infectologista Rico Vasconcelos chamou atenção para as altas taxas de abandono da PrEP em determinadas populações. “Será que para o usuário de PrEP a gente está conseguindo, de fato, usar o conceito de people first? (…) Não basta oferecer a profilaxia, é preciso garantir que a forma como ela é disponibilizada caiba na vida das pessoas”, provocou.

Segundo ele, a telemedicina tem se mostrado uma ferramenta fundamental para reduzir obstáculos. “Tivemos mais de 7.000 participantes em estudos que mostraram impacto positivo no aumento do uso e da adesão à PrEP. A teleconsulta reduz o fardo de perder dias de trabalho ou enfrentar longas filas. Não vai substituir o atendimento tradicional, mas amplia o acesso e atende a demandas reais de quem busca prevenção”, explicou.

Vasconcelos citou a experiência do aplicativo TelePrEP, lançado em São Paulo e já responsável por mais de 5.500 atendimentos em dois anos, como exemplo de inovação que poderia ser expandida nacionalmente.

A força do movimento social

O ativista Harley Nascimento, diretor do Fundo Positivo, resgatou a história da resposta brasileira ao HIV e a importância da sociedade civil.

“A política brasileira de aids foi referência global porque foi construída com diversos saberes: governo, profissionais de saúde e sociedade civil. Não dá pra pensar hoje em genéricos, protocolos ou planos de saúde sem reconhecer o papel incansável da sociedade civil nesse processo”, afirmou.

Harley lembrou que, entre os anos 1980 e 1990, organizações conseguiram emplacar leis fundamentais, como a que garantiu o acesso universal e gratuito ao tratamento antirretroviral em 1996. “A sociedade civil brasileira é referência para outros movimentos sociais no mundo. O trabalho de base, nas ruas, nas comunidades, dialogando com quem mais precisa, foi e continua sendo essencial”, ressaltou.

O diretor também falou sobre os desafios atuais: “Vivemos retrocessos e ameaças a recursos, mas seguimos atuando. O Fundo Positivo já investiu mais de R$ 50 milhões em projetos que alcançaram cerca de 900 mil pessoas diretamente e 14 milhões indiretamente. É preciso emoção quando se fala de aids. Estamos falando de vidas, de histórias, de um coletivo que não desiste”.

A desigualdade no acesso à PrEP

Pesquisadora da Fiocruz, Brenda Hoagland apresentou dados sobre a implementação da PrEP no SUS e destacou a desigualdade no acesso.

“De 2018 pra cá, quase 300.000 pessoas acessaram a PrEP. Mas apenas 132.000 estão em uso ativo. Quem acessa são majoritariamente homens brancos, de 30 a 39 anos, com alta escolaridade. Enquanto isso, a epidemia cresce entre jovens, pretos, pardos e população trans”, alertou.

Dra. Brenda explicou que, embora o número de municípios que oferecem a PrEP tenha aumentado de 62, em 2018, para 703 em 2025, a distribuição ainda é irregular, com regiões praticamente sem cobertura.

Entre os obstáculos, citou a rotatividade de profissionais contratados temporariamente, falhas de logística e limitações no uso do sistema Siclon, que registra a dispensação dos medicamentos.

“Muitas vezes, capacitamos profissionais e, em poucos meses, eles são substituídos. É preciso apostar em capacitação contínua e diversificação de serviços. Integrar a PrEP a ambulatórios já existentes, como os da população trans, é uma estratégia que tem mostrado bons resultados”, sugeriu.

Comunicação clara e acolhedora

Encerrando o painel, o infectologista Vinícius Borges, o Dr. Maravilha, falou sobre os desafios da comunicação em saúde.

“Uma das maiores barreiras é que nem todos os profissionais de saúde sabem o básico sobre a PrEP. Já ouvi relatos de médicos que perguntam: ‘Mas como assim você toma antirretroviral sem ter HIV?’. Esse tipo de resposta afasta as pessoas”, disse.

Borges defendeu uma linguagem simples e menos técnica. “Não adianta falar em termos rebuscados. O paciente não quer ouvir sobre terapia antirretroviral combinada. Ele quer entender, de forma clara, como aquele medicamento vai proteger a sua saúde”, explicou.

Para ele, também é fundamental naturalizar o prazer nas consultas.

“Precisamos reconhecer que muitas pessoas buscam a PrEP porque querem viver sua sexualidade de forma livre e segura. Saúde sexual não pode ser vista como algo secundário. É tão importante quanto cuidar do coração ou da mente”, destacou.

Segundo o médico, a PrEP é uma oportunidade de abrir portas para outros cuidados. “Muitas vezes, é a primeira vez que aquele jovem procura o sistema de saúde. E sai não só com a PrEP, mas com vacinas em dia, rastreio de HPV, prevenção de hepatite. A PrEP significa cuidado, autonomia e liberdade”, concluiu.

O debate deixou claro que enfrentar o HIV hoje exige mais do que avanços científicos. É preciso integrar inovação tecnológica, políticas públicas inclusivas, fortalecimento da sociedade civil e, sobretudo, comunicação acessível e humanizada.

Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)

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