Especialistas defendem ampliação do tratamento e destacam avanços no manejo da hepatite B durante o 19º HepatoAids

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Novos marcadores diagnósticos, prevenção da reativação viral e flexibilização das diretrizes marcaram os debates sobre hepatite B no congresso realizado em São Paulo

A hepatite B continua sendo um dos maiores desafios globais em saúde pública. Embora existam vacinas eficazes e tratamentos capazes de controlar a infecção, milhões de pessoas seguem sem diagnóstico ou acompanhamento adequado. Foi nesse contexto que especialistas reunidos no 19º HepatoAids dedicaram uma mesa inteiramente ao tema, discutindo desde novas tecnologias diagnósticas até propostas para ampliar o acesso ao tratamento.

A programação contou com apresentações de Roberto Carvalho, Ayrton Silveira e Paulo Abrão, todos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que abordaram, respectivamente, os novos marcadores laboratoriais para hepatite B, a prevenção da reativação viral em pessoas imunossuprimidas e a análise das diretrizes atuais de tratamento.

Novos marcadores prometem refinar o acompanhamento dos pacientes

Abrindo a mesa, o infectologista Roberto Carvalho apresentou uma atualização sobre biomarcadores emergentes para hepatite B. Embora muitos deles ainda estejam restritos ao ambiente de pesquisa, alguns começam a se aproximar da prática clínica.

Entre os destaques estão os antígenos relacionados ao core do vírus (HBcrAg), o HBV-RNA e a quantificação do antígeno de superfície (HBsAg quantitativo). De acordo com Dr. Roberto Carvalho, esses marcadores podem auxiliar na diferenciação entre portadores inativos e pacientes com hepatite crônica ativa, além de contribuir para a estratificação do risco de evolução para cirrose e carcinoma hepatocelular.

Dr. Carvalho ressaltou que a quantificação do HBsAg já vem sendo incorporada por algumas diretrizes internacionais e pode oferecer informações relevantes sobre a história natural da doença, especialmente na identificação de pacientes aparentemente estáveis, mas que permanecem sob risco de progressão clínica.

Apesar do potencial desses novos exames, ele ponderou que muitos ainda apresentam ganhos limitados quando comparados aos marcadores tradicionais já disponíveis, como carga viral e transaminases. A exceção mais promissora, segundo ele, é justamente o HBsAg quantitativo, que pode ajudar a identificar pacientes com maior probabilidade de perda espontânea do antígeno de superfície e aqueles com risco aumentado para câncer de fígado.

Reativação viral exige vigilância em pacientes imunossuprimidos

Na sequência, Dr. Ayrton Silveira abordou um tema cada vez mais frequente nos serviços de saúde: a reativação da hepatite B em pessoas submetidas a tratamentos imunossupressores.

O especialista explicou que a persistência do chamado cccDNA, material genético viral que permanece dentro dos hepatócitos, impede a erradicação completa do vírus e mantém o risco de reativação mesmo em pacientes aparentemente controlados. Quando ocorre uma redução da vigilância imunológica, o vírus pode voltar a se replicar de forma intensa, provocando desde alterações laboratoriais discretas até insuficiência hepática grave e morte.

Silveira destacou que o uso crescente de quimioterápicos, imunobiológicos e outros imunossupressores têm tornado essa situação cada vez mais comum. Entre os principais fatores de risco estão a positividade do HBsAg e o tipo de imunossupressão recebida pelo paciente.

Para evitar complicações, ele reforçou a importância da triagem universal antes do início de tratamentos imunossupressores, utilizando HBsAg, anti-HBs e anti-HBc. Dependendo da estratificação de risco, o paciente pode ser apenas monitorado ou receber profilaxia com antivirais de alta barreira genética, como entecavir ou tenofovir.

Outro ponto de atenção foi a coinfecção HIV e hepatite B. Segundo o especialista, cerca de 5% das pessoas vivendo com HIV também apresentam hepatite B crônica, grupo que possui maior risco de progressão para cirrose, carcinoma hepatocelular e mortalidade. Nesses casos, o tratamento deve priorizar esquemas antirretrovirais contendo tenofovir.

Diretrizes caminham para ampliar acesso ao tratamento

Encerrando a mesa, Dr. Paulo Abrão apresentou uma análise crítica das diretrizes nacionais e internacionais para o tratamento da hepatite B. De acordo com Dr. Abrão, há um movimento global para simplificar critérios e ampliar o acesso às terapias.

“O sonho na hepatite B é fazer o que fizemos com o HIV: diagnosticar e tratar”, afirmou durante a apresentação.

Dr. Abrão destacou que diversos especialistas defendem uma abordagem menos burocrática, levando em consideração fatores como idade, histórico familiar de cirrose ou câncer hepático, presença de comorbidades e desejo do próprio paciente de iniciar tratamento.

O infectologista lembrou que os medicamentos atualmente disponíveis apresentam alta eficácia para supressão viral, excelente perfil de segurança e baixa taxa de resistência. Além disso, reduzem significativamente o risco de cirrose, carcinoma hepatocelular e morte relacionada à doença hepática.

Ao comparar diferentes diretrizes internacionais, Dr. Abrão mostrou que organizações como a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Associação Europeia para o Estudo do Fígado (EASL) e autoridades chinesas vêm flexibilizando progressivamente os critérios para início da terapia antiviral.

Ele chamou atenção para um dos maiores gargalos atuais: o diagnóstico. Dados apresentados durante a palestra indicam que apenas cerca de 13% das pessoas que vivem com hepatite B no mundo sabem que têm a infecção e uma parcela ainda menor está em tratamento.

Para o especialista, alcançar as metas globais de eliminação das hepatites virais exigirá ampliar a testagem, descentralizar o cuidado e reduzir barreiras para o início do tratamento. “Temos muito a caminhar. Precisamos tornar o cuidado mais próximo das pessoas e menos dependente de múltiplas consultas e exames complexos”, concluiu.

Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)

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