Especialistas alertam para riscos globais no combate à aids diante de mudanças nas políticas dos EUA

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O artigo publicado pelas médicas Beatriz Grinsztejn e Birgit Poniatowski no jornal  Folha de S.Paulo trouxe à tona, nesta semana, preocupações sobre o impacto das recentes mudanças políticas nos Estados Unidos no controle global da epidemia de aids. O assunto continua repercutindo. Especialistas brasileiros reforçam os riscos dessas medidas e alertam para as possíveis consequências para populações vulneráveis ao redor do mundo.

O Dr. Ricardo Diaz, professor da disciplina de Infectologia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo e chefe do Laboratório de Retrovirologia da instituição, destacou o perigo iminente dessas políticas. “O artigo da Beatriz e da Birgit nos chama a atenção para o que pode ser o nosso futuro vindo do poder da maior potência mundial, os EUA. O risco eminente em todos os sentidos é que algumas pessoas serão deixadas para trás. Quem? As minorias, que são aquelas por quem sempre lutamos.”

Já o epidemiologista Dr. Fábio Mesquita, ex-diretor do Departamento Nacional de Aids e atual vice-secretário de Saúde do Guarujá, destacou os impactos concretos das novas diretrizes norte-americanas e os ataques a instituições fundamentais no combate à aids. “É realmente fundamental abordar esse ponto quando falamos sobre o controle da aids no mundo. Um exemplo é a postura de Elon Musk, que tem atacado brutalmente a USAID – certamente com autorização de Donald Trump para fazê-lo. Além da USAID, esses ataques também se estendem ao USDC e ao CDC dos Estados Unidos, afetando principalmente publicações científicas e históricas de extrema importância.”

Mesquita alerta que o impacto mais significativo pode ser o ataque ao PEPFAR, um programa criado pelo governo norte-americano em 2003 para financiar o controle da aids globalmente. “O PEPFAR é um dos maiores fornecedores de antirretrovirais no mundo. Com sua suspensão temporária e retorno incerto, milhões de pessoas correm o risco de ter seus tratamentos interrompidos.”

Confira a seguir os depoimentos dos médicos:

Dr. Ricardo Diaz é professor da disciplina de Infectologia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo e chefe do Laboratório de Retrovirologia da Instituição:

“O artigo da Beatriz e da Birgit nos chama a atenção para o que pode ser o nosso futuro vindo do poder da maior potência mundial, os EUA.

O risco eminente em todos os sentidos é: “algumas pessoas serão deixadas para trás”. Quem? As minorias, que são aquelas por quem sempre lutamos. O HIV, por exemple, é um problema minoritário de saúde (nos EUA?). Entretanto, pessoas continuam sofrendo e morrendo por causa do HIV.

A clareza dos gastos públicos parece ficar obscurecida. Parece que estamos deixando de enxergar o óbvio. Quando um país rico gasta recursos com problema dos pobres, na verdade ele estaria se protegendo.

O mundo rico pode ficar então frágil com essas novas políticas em não gastar recursos com problemas dos pobres e das minorias. Felizmente, estamos em um país do qual podemos nos orgulhar com relação as políticas de acesso para as pessoas vivendo com HIV/aids. Obrigado Beatriz e Birgit pela lucidez, liderança e pela defesa do que achamos ser importante.”

Dr. Fábio Mesquita, epidemiologista, ex-diretor do Departamento Nacional de Aids e atual vice-secretário de Saude do Guarujá:

“O artigo assinado pelas doutoras Beatriz Grinsztejn e Birgit Poniatowski é sensacional. É realmente fundamental abordar esse ponto quando falamos sobre o controle da aids no mundo.

Já discutimos anteriormente o impacto que determinadas ações poderiam ter, e agora está evidente que essas intervenções terão consequências significativas. Um exemplo é a postura de Elon Musk, que tem atacado brutalmente a USAID – certamente com autorização de Donald Trump para fazê-lo. Além da USAID, esses ataques também se estendem ao USDC e ao CDC dos Estados Unidos, afetando principalmente publicações científicas e históricas de extrema importância.

No entanto, o ataque mais relevante em nível global é contra o PEPFAR. Desde 2003, essa iniciativa do governo norte-americano destina um fundo da presidência dos EUA para o controle da AIDS, sendo um dos maiores fornecedores de antirretrovirais no mundo. Com as oscilações recentes do PEPFAR – que chegou a ser suspenso e agora foi retomado, mas sem garantia de permanência –, existe uma ameaça real de interrupção do tratamento para milhões de pessoas.

Sabemos que a interrupção do tratamento é um caminho para o desenvolvimento de resistência viral e mutações, o que pode levar ao recrudescimento da epidemia de AIDS em escala global. Esse cenário é extremamente grave e certamente terá repercussões, inclusive nos próprios Estados Unidos.

É essencial combater esse tipo de política, explicitamente defendida por Donald Trump, mas que também tem sido adotada por outros líderes populistas. Não tenho dúvidas de que Javier Milei seguirá essa mesma linha na Argentina, assim como Bolsonaro fez no Brasil ao desmantelar políticas públicas voltadas para o enfrentamento da aids, tornando-as invisíveis.

Esses populistas representam um risco real para o avanço no combate à epidemia de aids. Estávamos no caminho para eliminar a doença como um problema de saúde pública até 2030, conforme previsto nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. No entanto, a ascensão dessas forças políticas não apenas ameaça essa meta, como também compromete os avanços já conquistados, colocando em risco o controle da epidemia.”

Dr. Pedro Chequer, médico e ex-diretor do Programa Nacional de Aids:

Em momento muito oportuno e trazendo à discussão a gravidade do momento em que vivemos, a Bia em sua condição de eminente, respeitada pesquisadora e profissional de saúde pública, com grandes serviços prestados na área do HIV, ao Brasil e globalmente, aponta em seu artigo em parceria com a diretora-executiva da IAS, os riscos que enfrenta a humanidade diante da insanidade, arrogância e personalidade psicopática do Donald Trump e sua equipe mais próxima. A agressividade de suas declarações, dele e dessa equipe, assombra o mundo pelo seu descolamento com a realidade e o bom senso que se espera de uma equipe de governantes, principalmente em se tratando da maior economia do mundo.

Entre outros, para me restringir a apenas a alguns deles, o dano causado aos projetos em andamento e de futura implementação, em diversas áreas da saúde pública e acesso ao tratamento da infecção pelo HIV podem gerar sérios retrocessos no conhecimento cientifico e aumento da mortalidade por causas diversas, particularmente pelo HIV, particularmente nos países mais necessitados e de precárias condições econômicas.

Discorre o artigo sobre a ascensão de um negacionista na área de vacinas a uma posição chave de decisão de alto nível o que pode trazer consequências irreparáveis, não só ao país, mas a todo o globo e fazer reacender o amplo movimento sem fronteiras da anticiência e particularmente aqueles de antivacina.

Sua política claramente antidireitos humanos e supremacista já traz consequências adversas nessa área, como o imediato banimento de terminologias e conceitos já consolidados e de fundamental importância para as políticas públicas na área de gênero e comportamento sexual, planejamento familiar e respeito à diversidade. Seus reflexos nas políticas em relação ao HIV serão desastrosos, abrindo caminho para o recrudescimento de legislação e normas legais voltadas para a discriminação e banimento da visibilidade de determinado segmentos sociais, algo já em curso em diversos países.

O desrespeito à ciência e a fundamentação das ações com base na evidência e suas consequências para a eclosão de novas epidemias e expansão das já existentes, são também aspectos de relevância abordados pelas autoras.
Permitam-me acrescentar um tema que não foi abordado nesse artigo devido a questões temporais na sua elaboração original: A limpeza étnica e o deslocamento em massa dos palestinos que habitam Gaza e sua apropriação pelos Estados Unidos. Um claro crime contra a humanidade! O nível de insanidade e perversidade psicopática desse senhor supera o inimaginável.

Não nos surpreende que haja quem apoie as políticas publicas em curso, propostas pelo novo governo americano. O embrião do fascismo e populismo encontra-se implantado em diversas partes do mundo e com crescente apoio populacional, particularmente na Europa.

Posicionamentos como esse que nos oferece o artigo em pauta são essenciais para manter viva a ciência fundamentada na evidência e dar voz àqueles que são diretamente afetados pelas draconianas medidas ora em curso.

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Redação da Agência de Notícias da Aids

Dica de entrevista

Dr. Pedro Chequer

@pchequer11

Dr. Fábio Mesquita

@fabiocdemesquita

Dr. Ricardo Diaz

@dr.ricardodiaz

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