
Na tarde da última quinta-feira (21), o Instituto Vida Nova (IVN) abriu as portas para o 13ª Encontro de Relações Humanas em HIV/Aids, em São Paulo. O evento trouxe neste primeiro dia um alerta unânime: a sífilis continua avançando e exige respostas urgentes.
Segundo dados apresentados, em 2024 foram registrados no Estado de São Paulo 174 mil casos de sífilis adquirida, 158 mil em gestantes e 50 mil casos de sífilis congênita, resultando em quase mil mortes de crianças.
Abertura: compromisso em meio à crise
O presidente do IVN, Américo Nunes, abriu o encontro lembrando a importância histórica do encontro.
“Estamos vivendo tempos difíceis. A crise financeira atinge o terceiro setor e a gente não consegue mais realizar eventos grandiosos como no passado. Mas não podemos nos calar. Reunir, dialogar e trocar experiências continua sendo essencial. Nosso papel é furar a bolha, trazer novas instituições para dentro do debate e reforçar que a luta contra o HIV e a sífilis precisa ser coletiva.”

Américo Nunes, presidente do Instituto Vida Nova, fez a abertura.
Américo ressaltou que, ao longo dos 25 anos de atuação na Zona Leste, o IVN se tornou um ponto de apoio para pessoas vivendo com HIV, especialmente em territórios de alta vulnerabilidade. “Mesmo com menos recursos, seguimos firmes no compromisso: fortalecer quem está na ponta e contribuir para políticas públicas mais humanas e efetivas.”
Promotoras de Saúde: rodas que acolhem
Na sequência, as educadoras Marta dos Santos e Gislaine Sousa apresentaram o projeto Promotoras de Saúde na Prevenção da Sífilis. A iniciativa, apoiada pelo Programa Estadual de ISTs, leva informação e prevenção a comunidades periféricas de Itaquaquecetuba, Ferraz de Vasconcelos e Guarulhos.
“Nosso trabalho é simples, mas transformador. Fazemos rodas de conversa em espaços informais — casas, associações, bares e até em locais de prostituição. A ideia é que as mulheres se sintam à vontade para falar, sem medo de julgamento. Muitas vezes, elas não encontram esse espaço no consultório médico”, explicou Marta.
Até agora, já foram 60 rodas, alcançando 263 pessoas, sempre com distribuição de kits de prevenção e materiais educativos. Mas as promotoras destacaram que o verdadeiro impacto vem da escuta.
“Mais do que falar sobre camisinha ou teste rápido, a gente ouve. Muitas mulheres carregam dúvidas e medos que nunca tiveram oportunidade de compartilhar. Quando percebem que ali são respeitadas, a troca acontece de verdade”, completou Gislaine.

Gislaine Souza à esquerda e Marta dos Santos à direita da imagem.
As duas também apontaram desafios. O maior deles é a resistência dos parceiros:
“Elas dizem: ‘meu marido não aceita fazer o teste, não quer usar preservativo’. Isso é um entrave enorme. Sem incluir os homens, a prevenção fica comprometida”, disse Marta.
Outro problema é a dificuldade de levar a pauta para dentro das escolas.
“É sempre complicado dialogar com a Secretaria de Educação. Professores resistem, pais se opõem. Mas a juventude é hoje um dos grupos mais afetados. Não dá para abrir mão desse espaço”, alertou Gislaine.
Contextualizar para mitigar
Na segunda mesa, o Dr. Roberto Silva, coordenador da área de IST do CRT/Aids apresentou os dados epidemiológicos mais recentes. Ele não suavizou a realidade:
“Foram quase 175 mil novos casos em apenas um ano. E mais de 900 bebês morreram por sífilis congênita. Isso não pode ser tratado como estatística fria. Cada número representa uma vida, uma família, uma tragédia que poderia ter sido evitada.”
Roberto destacou que a queda observada em 2020 se deveu mais à pandemia de Covid-19 do que a qualquer avanço real. “Os serviços estavam fechados, houve menos testagem. A sífilis não deixou de circular, apenas ficou invisível nas estatísticas. Agora, os números voltaram a subir e mostram que não aprendemos a lição.”

Dr, Roberto Silva apresenta dados sobre a incidência de sífilis em diferentes grupos.
Na sequência, o infectologista Valdir Monteiro, da coordenadoria de IST/Aids da Cidade de São Paulo, reforçou que a atenção básica é central:
“É na unidade básica que a maioria das pessoas tem o primeiro contato com o sistema de saúde. Se esse nível não for fortalecido, vamos continuar perdendo diagnósticos. Muitos profissionais evitam se envolver porque acham que ‘vai dar trabalho’. Esse tipo de postura custa vidas.”
Já Liliana Cristina Mussi, do Fórum das ONGs/Aids do Estado de São Paulo trouxe uma mensagem contundente sobre participação social:
“Nada de mim sobre mim sem mim. Não adianta planejar políticas sem ouvir quem mais sofre com a epidemia. Travestis, mulheres trans, trabalhadoras do sexo, indígenas, pessoas privadas de liberdade. Essas vozes precisam estar na formulação, não apenas na execução. Do contrário, continuaremos errando o alvo.”
O ativista do Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids, Eduardo Barbosa, ecoou a indignação e foi além:
“É inadmissível que em 2025 ainda existam crianças nascendo e morrendo de sífilis. Isso é responsabilidade direta do Estado. Nós, sociedade civil, fazemos a nossa parte, levamos informação. Mas a obrigação de garantir o básico — penicilina na unidade, testagem acessível, profissionais preparados — é do governo.”

Para além de números, Eduardo Barbosa expressou profunda indignação com novos casos em bebês e mortes por sífilis.
Eduardo também criticou o estigma ainda presente entre profissionais de saúde:
“Não é só lá fora. Dentro do próprio CRT eu já vi enfermeiro acusar usuário de ser promíscuo. Esse julgamento moral não tem lugar na saúde pública. Enquanto persistir essa divisão entre ‘bons’ e ‘maus’, vamos continuar perdendo a batalha.”
Surto ou epidemia?
A mesa de encerramento trouxe uma pergunta provocativa: afinal, a sífilis no Brasil é surto ou epidemia? O pesquisador Jean Carlos Dantas respondeu sem hesitar:
“Sífilis não é surto. Surto é um fenômeno localizado e passageiro. O que temos é uma epidemia persistente, que acompanha o Brasil desde a colonização. Ela está enraizada nas desigualdades sociais. O problema nunca foi falta de remédio ou de diagnóstico. O problema é a ausência de políticas públicas estruturadas e contínuas.”

Da esquerda para a direita: o mediador da terceira mesa, Sérgio Marques, e os palestrantes do CRT/Aids, Ângela Tayra e Jean Carlos Dantas.
Jean ressaltou que encarar a sífilis como epidemia exige uma resposta mais séria e intersetorial. “Não é só questão de saúde, é questão de pobreza, de racismo, de exclusão social. Enquanto não atacarmos essas raízes, estaremos apenas enxugando gelo.”
A gestora Ângela Tayra, do CRT/Aids, complementou, destacando a importância da vigilância epidemiológica ativa e da redução de danos:
“A sífilis é um reflexo da nossa desigualdade. Não podemos tratá-la como um problema isolado. É preciso articular saúde, educação e assistência social. Além disso, cada território tem sua realidade. O interior de São Paulo enfrenta desafios diferentes da capital, e as políticas precisam se adaptar a essas especificidades.”
Ângela também fez um alerta sobre a comunicação:
“Estamos falhando em dialogar com a juventude. A linguagem precisa ser repensada. Não adianta insistir só em cartazes na UBS. Temos que estar nas redes sociais, nos aplicativos, nos espaços onde os jovens estão.”
Indignação e propostas
Ao final do primeiro dia, um consenso se consolidou: a sífilis é prevenível e curável, mas continua crescendo por negligência.
Entre as propostas debatidas estavam:
- ampliar testagem em locais alternativos, como estações de metrô e aplicativos digitais;
- garantir penicilina em todas as unidades básicas, com prescrição também por enfermeiros;
- promover campanhas educativas em redes sociais para jovens;
- fortalecer articulação entre saúde, educação e assistência social;
- assegurar financiamento contínuo para ações da sociedade civil.
“Inadmissível é a palavra que define a situação. A sífilis é curável, mas continua matando por falta de vontade política”, resumiu Eduardo Barbosa, ecoando o sentimento geral.

“Juntos podemos mais”, frase abordada durante o encontro de quinta-feira
Mais que estatísticas, vidas
O primeiro dia do 13º encontro deixou claro que o combate à sífilis não será vencido apenas com números e relatórios. É preciso escuta, acolhimento e sobretudo compromisso político.
Como destacou Américo Nunes no encerramento:
“Se quisermos mudar essa realidade, precisamos estar juntos — governo, sociedade civil, comunidade. Só assim conseguiremos que nenhuma criança nasça com sífilis no Brasil.”
O encontro segue com programação também nesta sexta-feira (22) e se encerra no sábado (23).
Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)
Estagiário em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dica de entrevista:
Instituto Vida Nova
Telefone: (11) 2297-1516



