Especialistas afirmam que garantir o direito à saúde integral da população trans requer a superação de barreiras estruturais de exclusão nos serviços de saúde

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São Paulo recebeu, nesta terça-feira (10), o I Encontro Estadual de Serviços de Saúde Integral para Pessoas Trans. O encontro realizado pelo Centro de Referência e Treinamento DST/Aids SP, reuniu profissionais dedicados à promoção da saúde desta população, discutindo estratégias de inclusão, cuidado e fortalecimento de políticas públicas.

O psicólogo Ricardo Martins, coordenador de Saúde Mental do CRT DST/Aids-SP, abriu sua fala pautando a saúde mental das pessoas trans e não binárias, e fazendo um resgate histórico das abordagens em torno das identidades de gênero. Nesse sentido, enfatizou como a visão histórica da sociedade contribuiu para o preconceito e o sofrimento dessas pessoas. “Desde a infância, muitas pessoas trans eram vistas como ‘declaradas’, ou seja, suas características de gênero já destoavam do padrão esperado. Isso gerava uma ideia equivocada de que havia algo errado que precisava ser corrigido ou diagnosticado. As identidades que fugiam do padrão eram tratadas como exóticas e muitas vezes associadas a patologias inexistentes. Isso reforçava estigmas em vez de promover acolhimento”, afirmou.

O papel dos profissionais de saúde

O psicólogo também pontuou as práticas antiquadas que ainda sobrevivem nos espaços de saúde e ressaltou a urgente necessidade de repensar a abordagem no atendimento dessas pessoas. “Classificar pessoas trans como portadoras de uma estrutura psicótica, por exemplo, é um grande equívoco. Essa visão não ajuda a compreender a complexidade dessas vivências. O gênero não pode ser tratado como uma doença; ele é uma expressão subjetiva e diversa, que vai muito além de qualquer diagnóstico médico. Identidades de gênero precisam ser reconhecidas e respeitadas sem enquadramentos reducionistas”, destacou.

“Os serviços de saúde precisam garantir um atendimento humanizado, evitando práticas que patologizam ou invalidam as experiências trans. A psicoterapia pode ser uma ferramenta importante para quem busca suporte, mas jamais deve ser imposta. Em vez disso, é essencial oferecer educação em saúde, que empodere essas pessoas e promova seu bem-estar”, acrescentou.

Na sequência, a médica infectologista Dra. Maria Felipe, do pronto-socorro do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, e também sub-investigadora na Casa da Pesquisa do CRT DST/Aids, trouxe reflexões importantes sobre os desafios históricos das populações trans. Em sua fala, a especialista destacou a exclusão histórica da população trans dos serviços de saúde como parte de uma estrutura ampla de discriminação sistemática. “Historicamente, muitas pessoas trans no Brasil só conseguiram acessar o sistema de saúde por meio de programas voltados ao HIV. Isso reflete a marginalização que enfrentamos. Hoje, doenças como hipertensão, diabetes e câncer raramente são investigadas em pessoas trans. Essa exclusão tem raízes no preconceito e na falta de interesse em incluir nossa população nos dados e pesquisas”, disse a médica.

Olhar integral

A infectologista também destacou os altos índices HIV/aids e de outras infecções sexualmente transmissíveis entre pessoas trans, mas pontuou a necessidade de olhar para outras condições de saúde. “A saúde trans não se limita ao HIV ou à hormonioterapia. Precisamos de atenção integral, que contemple desde as necessidades básicas até questões mais complexas, como gestação e envelhecimento.”

O encontro trouxe ainda experiências e desafios reais para acessar o direito à saúde. Luiz Fernando Prado, do Núcleo de Transmasculinidades da Rede Família Stronger, dividiu sua vivência como homem trans, e relatou episódios de negligência e despreparo por parte de profissionais médicos. “Minha experiência mostra como o sistema de saúde negligencia pessoas trans. Muitas vezes, precisei buscar informações por conta própria, porque os profissionais não estavam preparados para me orientar. Quando busquei hormonioterapia, assinei termos sem ter todas as informações sobre os riscos e impactos a longo prazo. Senti-me como uma cobaia”, compartilhou.

Luiz aproveitou e reforçou que a formação dos profissionais é essencial para mudar esse cenário de desinformação e negligência no que se refere às multi pluralidades de corpos trans. “Precisamos de profissionais que nos enxerguem como um todo, não apenas como números ou células”.

Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)

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