Com a vitória da Espanha sobre a Argentina por 1 a 0, com um gol marcado nos 15 minutos finais da prorrogação, chegou ao fim neste domingo (20) a maior Copa do Mundo da história. O torneio fez história ao ser sediado conjuntamente por Canadá, Estados Unidos e México e por estrear o formato expandido com 48 seleções. A decisão foi disputada no MetLife Stadium, em Nova Jersey, na região metropolitana de Nova York. A 23ª edição do Mundial trouxe mudanças importantes e grandes feitos esportivos: as 48 equipes foram distribuídas em 12 grupos de quatro seleções, totalizando 104 partidas. Os Estados Unidos receberam a maior parte dos jogos (78), enquanto Canadá e México sediaram 13 confrontos cada. O México ainda entrou para a história ao se tornar o primeiro país a receber partidas de três Copas do Mundo diferentes no lendário Estádio Azteca. Esta edição também marcou a sexta participação de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo em Mundiais e viu Kylian Mbappé ultrapassar o argentino na artilharia histórica da competição. Mas o legado da Copa de 2026 foi além do futebol. Desde o início do torneio, a Agência Aids acompanhou a realidade dos 48 países participantes sob a perspectiva da saúde pública, mostrando como cada nação enfrenta a epidemia de HIV. Ao longo da competição, foram apresentados os avanços, retrocessos e desafios de cada país nas políticas de prevenção, diagnóstico e tratamento, em uma cobertura que chega ao fim justamente com a decisão entre Argentina e Espanha.

Espanha, segundo informações do Unaids, tem 160 mil pessoas que vivem com o vírus. No quesito enfrentamento ao HIV o país tem ampliado o acesso à prevenção e realiza ações para combater desigualdades.
A Espanha mantém uma resposta consolidada ao HIV. Segundo dados do Unaids, cerca de 160 mil pessoas vivem com o vírus no país, das quais 92,5% já conhecem seu diagnóstico.
Em 2024, foram registrados aproximadamente 3.200 novos casos, enquanto a prevalência entre adultos de 15 a 49 anos permanece em torno de 0,3%, um dos menores índices da Europa Ocidental.
A epidemia segue concentrada principalmente entre homens que fazem sexo com homens, responsáveis por cerca de 56% das novas infecções. As transmissões por relações heterossexuais representam aproximadamente um quarto dos diagnósticos.
O país oferece tratamento antirretroviral universal e fortaleceu sua política de prevenção ao ampliar o acesso gratuito à Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), disponível no sistema público desde 2019. Mais recentemente, a estratégia passou a incluir também a PrEP injetável para pessoas elegíveis.
Apesar dos avanços, especialistas alertam que ainda há barreiras para que todas as populações tenham acesso aos serviços de saúde. Durante o 22º Congresso Nacional sobre Aids e ISTs, realizado em Valladolid, representantes do Plano Nacional sobre HIV/Aids destacaram que aproximadamente metade dos novos diagnósticos ocorre entre migrantes em situação administrativa irregular, grupo que frequentemente enfrenta dificuldades para acessar testagem, acompanhamento e tratamento.
A Espanha também avançou recentemente no enfrentamento ao estigma. Em 2025, uma decisão judicial considerou discriminatória a redução da validade da carteira de motorista de uma pessoa apenas por viver com HIV, entendimento celebrado por organizações da sociedade civil como um marco na defesa dos direitos dessa população. Argentina ficou em segundo lugar, Inglaterra em terceiro e França com a quarta colocação. Conheça como cada país trabalha a questão das infecções pelo HIV em seus territórios.
Argentina busca preservar uma resposta construída ao longo de décadas

A Argentina segue como referência latino-americana na garantia de direitos e no acesso universal ao tratamento, mas enfrenta incertezas provocadas pela diminuição dos investimentos em políticas públicas.
Na América Latina, a país consolidou uma das respostas mais consistentes ao HIV desde a década de 1990. O país foi pioneiro na criação de uma legislação que assegurou direitos como a confidencialidade do diagnóstico, o combate à discriminação e o acesso universal ao tratamento.
Com o passar dos anos, o sistema público passou a oferecer gratuitamente a terapia antirretroviral, preservativos, ações de redução de danos e, mais recentemente, incorporou também a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) como estratégia de prevenção. Atualmente, cerca de 140 mil pessoas vivem com HIV no país.
Grande parte dessa trajetória foi construída em parceria com organizações da sociedade civil, que desempenharam papel fundamental na formulação e no monitoramento das políticas públicas voltadas ao HIV.
Nos últimos anos, porém, especialistas e movimentos sociais têm alertado para os impactos da redução dos investimentos destinados ao programa nacional de HIV, hepatites virais, infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e tuberculose.
Entre as principais consequências apontadas estão a diminuição da distribuição de preservativos, a redução de equipes técnicas e mudanças administrativas que enfraqueceram estruturas estratégicas da saúde pública. A preocupação é que esses cortes comprometam justamente as políticas que fizeram da Argentina uma referência regional.
Ao mesmo tempo, a epidemia permanece concentrada em populações-chave. Homens que fazem sexo com homens representam quase metade dos casos registrados, enquanto a prevalência entre pessoas trans segue acima de 30%, uma das mais elevadas da América Latina. As relações heterossexuais respondem por aproximadamente quatro em cada dez novas infecções notificadas no país.

Inglaterra foca no fim da transmissão do HIV
Mais de quatro décadas após registrar seus primeiros casos de HIV, a Inglaterra apresenta alguns dos indicadores mais robustos do mundo. Segundo o balanço mais recente da estratégia nacional divulgado pelo governo britânico, 95% das pessoas vivendo com HIV conhecem seu diagnóstico, 95% recebem terapia antirretroviral e 98% das pessoas em tratamento alcançaram supressão viral.
A supressão viral significa que a quantidade de vírus no organismo é reduzida a níveis indetectáveis pelos exames laboratoriais. Nessa condição, a pessoa não transmite o HIV por via sexual, conceito consolidado pela campanha Indetectável=Intransmissível (I=I).
Os resultados colocam o país entre aqueles que já alcançam as metas globais estabelecidas pelo Unaids e refletem uma transformação profunda desde os anos 1980, quando o HIV era cercado por medo, falta de tratamento e forte estigma.
Em comparação com 2010, os novos diagnósticos foram reduzidos pela metade, enquanto as mortes relacionadas à aids caíram cerca de 60%. Agora, o governo britânico estabeleceu uma nova meta: reduzir em 80% as novas infecções e os óbitos relacionados ao HIV até o final da década.
Para atingir esse objetivo, foi anunciado um investimento adicional de 170 milhões de libras, mais de R$1,2 bilhão, destinado à ampliação da testagem em serviços de emergência, expansão da oferta de PrEP, campanhas nacionais de prevenção e estratégias para localizar pessoas que interromperam o tratamento.
Apesar dos avanços, os desafios persistem. O acesso à prevenção ainda é desigual entre diferentes grupos populacionais. Enquanto homens gays e bissexuais brancos apresentam elevada cobertura de PrEP, pessoas negras continuam enfrentando maiores barreiras para acessar essa estratégia. Além disso, cerca de duas em cada cinco pessoas ainda recebem o diagnóstico tardiamente, quando o sistema imunológico já pode estar comprometido.

França registra muitos casos novos e aposta em inovação para frear as infecções pelo vírus
A França reúne cerca de 180 mil pessoas vivendo com HIV e está entre os países mais próximos de atingir as metas globais do Unaids. Atualmente, 94% das pessoas vivendo com o vírus conhecem seu diagnóstico, 96% recebem tratamento antirretroviral e 98% das pessoas em tratamento apresentam carga viral suprimida, condição que preserva a saúde e impede a transmissão sexual do HIV.
Mesmo com esses indicadores, a epidemia permanece ativa. Em 2024, o país registrou aproximadamente seis mil novos diagnósticos, evidenciando que ampliar o acesso à prevenção e promover o diagnóstico precoce continuam sendo prioridades.
A concentração dos casos é maior na região de Île-de-France, onde está localizada Paris. Embora reúna menos de um quinto da população francesa, essa região concentra quase metade das pessoas vivendo com HIV no país. As novas infecções ocorrem predominantemente entre homens, especialmente entre homens que fazem sexo com homens.
Outro desafio importante envolve a população migrante. Organizações da sociedade civil apontam que barreiras linguísticas, entraves burocráticos e o receio relacionado à situação migratória dificultam o acesso contínuo aos serviços de saúde para parte dos imigrantes.
A resposta francesa ao HIV começou ainda na década de 1980, quando o país esteve entre os pioneiros na disponibilização do AZT e, posteriormente, incorporou a terapia antirretroviral combinada ao sistema público de saúde. Nas últimas décadas, voltou a se destacar internacionalmente ao expandir o acesso à Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), oferecendo tanto a versão oral quanto o cabotegravir de longa duração, administrado por injeção.
Redação da Agência de Notícias da Aids




