A Copa do Mundo de 2026 também será palco de histórias que vão muito além do futebol. Quando Espanha e Cabo Verde entrarem em campo no dia 15 de junho, às 13h, em Atlanta, pela primeira rodada do Grupo H, duas seleções separadas por continentes, dimensões territoriais e tradições esportivas dividirão um desafio comum: avançar no enfrentamento ao HIV.
De um lado, a Espanha, campeã mundial em 2010 e referência europeia em prevenção e tratamento, busca superar barreiras que ainda afastam migrantes indocumentados do sistema de saúde. Do outro, Cabo Verde, estreante em Copas do Mundo, está prestes a alcançar um feito histórico na saúde pública: a certificação internacional pela eliminação da transmissão vertical do HIV, de mãe para filho.
Se dentro das quatro linhas a diferença de investimento e tradição é evidente, na luta contra o HIV ambos os países demonstram que ainda existem partidas decisivas a serem vencidas.
A Fúria entra em campo e o desafio ultrapassa as quatro linhas
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A Espanha possui uma das respostas ao HIV mais consolidadas da Europa. Segundo dados do Unaids, cerca de 160 mil pessoas vivem com o vírus no país. Destas, 92,5% conhecem seu estado sorológico.
Em 2024, foram registrados aproximadamente 3.200 novos diagnósticos. A prevalência estimada entre adultos de 15 a 49 anos é de 0,3%.
Os homens que fazem sexo com homens (HSH) continuam sendo o grupo mais afetado pela epidemia, respondendo por cerca de 56% das novas infecções. As relações heterossexuais correspondem a aproximadamente um quarto dos novos casos.
Os números demonstram uma epidemia relativamente controlada, mas que ainda exige atenção constante das autoridades sanitárias.
Migrantes concentram metade dos novos diagnósticos
O principal desafio da Espanha atualmente não está relacionado à falta de medicamentos ou de estratégias de prevenção. O problema é garantir que essas políticas alcancem toda a população.
Durante o 22º Congresso Nacional sobre Aids e ISTs, realizado em Valladolid, a diretora do Plano Nacional de Combate à Aids da Espanha, Julia del Amo, revelou um dado que chamou a atenção dos especialistas: aproximadamente metade dos novos diagnósticos registrados no país ocorre entre migrantes indocumentados.
A maioria dessas pessoas é originária da América Latina e da África Subsaariana. Cerca de 60% dos casos envolvem homens que fazem sexo com homens, com idade média de 35 anos.
Barreiras burocráticas ainda dificultam o acesso dessas populações aos serviços de saúde. A exigência de documentos que comprovem residência frequentemente se transforma em obstáculo para a realização de exames, consultas e acompanhamento médico.
Justiça reconhece discriminação contra pessoa vivendo com HIV
Mesmo sendo reconhecida internacionalmente pelas políticas de direitos humanos, a Espanha ainda enfrenta episódios de discriminação relacionados ao HIV.
Em 2025, a Justiça espanhola reconheceu pela primeira vez como discriminatória uma medida adotada exclusivamente em razão do estado sorológico de uma pessoa.
O caso envolveu a Direção Geral de Trânsito (DGT), que reduziu pela metade o período de validade da carteira de motorista de uma pessoa vivendo com HIV.
A decisão judicial foi considerada histórica por organizações da sociedade civil e reforçou a necessidade de combater o estigma que ainda acompanha a epidemia, mesmo em países com elevados níveis de informação e acesso ao tratamento.
Da epidemia dos anos 1980 à expansão da PrEP
A Espanha foi um dos países europeus mais afetados pela epidemia nas décadas de 1980 e 1990, especialmente entre usuários de drogas injetáveis.
A resposta governamental incluiu programas de redução de danos, troca de seringas, distribuição gratuita de preservativos e ampliação do acesso aos medicamentos antirretrovirais.
Em 1987, o sistema público incorporou a zidovudina (AZT), um dos primeiros medicamentos utilizados contra o HIV. Já em 1996, passou a oferecer terapia antirretroviral combinada.
Mais recentemente, a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) injetável foi incorporada ao sistema público de saúde. Desde 2019, os espanhóis têm acesso tanto à versão oral diária.
Cabo Verde sonha com duas estreias históricas

Se a Espanha chega à Copa carregando o peso do favoritismo, Cabo Verde desembarca no Mundial vivendo um momento histórico.
A seleção africana disputará sua primeira Copa do Mundo justamente quando o país se aproxima de uma conquista inédita na área da saúde: a eliminação da transmissão vertical do HIV.
Segundo dados do Unaids e do Ministério da Saúde cabo-verdiano, aproximadamente 3.900 pessoas vivem com HIV no arquipélago.
Atualmente, 80% conhecem seu diagnóstico, 82% estão em tratamento e 69% alcançaram a supressão viral.
A prevalência entre adultos de 15 a 49 anos é de 0,9%, uma das mais elevadas entre os países de língua portuguesa.
Cabo Verde busca certificação histórica
No início de 2026, o governo cabo-verdiano formalizou junto à Organização Mundial da Saúde (OMS) o pedido de certificação da eliminação da transmissão vertical do HIV.
O pedido foi baseado em um resultado extremamente relevante: o país não registrou nenhum caso de transmissão de mãe para filho nos dois anos anteriores.
Caso a certificação seja concedida, Cabo Verde passará a integrar um grupo seleto de países que conseguiram interromper uma das formas mais dramáticas de propagação do vírus.
O feito seria particularmente significativo para uma pequena nação insular que enfrenta limitações geográficas e financeiras para manter seus programas de saúde pública.
As barreiras impostas pela geografia
Apesar dos avanços, Cabo Verde ainda convive com desafios importantes. O país é formado por dez ilhas vulcânicas espalhadas pelo Oceano Atlântico. Essa fragmentação territorial dificulta a distribuição de serviços de saúde especializados e o acompanhamento contínuo dos pacientes.
Autoridades locais relatam que garantir acesso regular à testagem, à prevenção e ao tratamento em regiões mais afastadas continua sendo uma tarefa complexa.
Além disso, organizações comunitárias alertam que o estigma ainda afasta muitas pessoas dos serviços de saúde, especialmente nas comunidades menores.
Prevenção avança, mas desigualdades persistem
A PrEP começou a ser implementada em Cabo Verde em 2020, inicialmente voltada para populações consideradas mais vulneráveis.
No entanto, o acesso ao medicamento ainda não está disponível em todas as ilhas habitadas.
Atualmente, apenas São Vicente, Sal, Santiago e Boa Vista contam com a profilaxia incorporada aos serviços públicos de saúde.
Especialistas defendem que a ampliação da cobertura será fundamental para que o país mantenha os avanços conquistados nos últimos anos.
Quando saúde pública e futebol contam a mesma história
A partida entre Espanha e Cabo Verde coloca frente a frente duas seleções com trajetórias completamente diferentes dentro do futebol mundial.
De um lado estará uma campeã do mundo que busca recuperar o protagonismo internacional liderada pela nova geração de talentos comandada por Lamine Yamal.
Do outro, uma seleção estreante que representa pouco mais de 600 mil habitantes e que já entrou para a história ao alcançar uma classificação inédita para a Copa.
Mas fora dos gramados, as duas nações compartilham um objetivo semelhante: reduzir novas infecções, ampliar o acesso à prevenção e garantir que nenhuma pessoa fique para trás por causa do preconceito, da desigualdade ou da falta de acesso aos serviços de saúde.
Assim como no futebol, a luta contra o HIV também é uma disputa de resistência, estratégia e trabalho coletivo. E, para Espanha e Cabo Verde, alguns dos jogos mais importantes ainda estão sendo disputados longe dos estádios.
Redação da Agência de Notícias da Aids




