O duelo do Grupo C reúne duas seleções que retornam à Copa do Mundo trazendo trajetórias opostas na resposta ao HIV e na construção de políticas de saúde pública.
A espera foi longa para ambos os lados. A Escócia retorna a uma Copa do Mundo após 28 anos, enquanto o Haiti disputa apenas a segunda participação de sua história. No próximo sábado (13), às 21h (horário de Brasília), Haiti e Escócia fazem sua estreia no Grupo C em um duelo marcado pelo retorno de duas seleções que aguardaram décadas para voltar ao maior palco do futebol mundial.
Mas existe outra partida acontecendo paralelamente ao Mundial, uma disputa silenciosa, travada diariamente em hospitais, centros de testagem, laboratórios e comunidades. Assim como acontece no futebol, Haiti e Escócia chegam à Copa com estratégias muito diferentes quando o assunto é prevenção, diagnóstico e tratamento do HIV.
Enquanto os escoceses estão entre os países mais próximos de alcançar as metas globais de eliminação das transmissões, os haitianos seguem enfrentando uma epidemia mais ampla, agravada por crises sociais, econômicas e humanitárias que desafiam o sistema de saúde local.
Escócia aposta na prevenção para buscar o “placar zerado”
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/I/r/Ss3Bz8QaOsuV6zzyJYeg/113054972-scotlands-midfielder-04-scott-mctominay-grabs-the-corner-flag-as-scotlands-midfield.jpg)
A seleção escocesa chega ao Mundial após quase três décadas longe da competição. Fora dos gramados, o país também persegue uma meta ambiciosa: zerar as transmissões de HIV em seu território até 2030.
Atualmente, pouco mais de 6.400 pessoas vivem com HIV na Escócia. O país apresenta alguns dos melhores indicadores da Europa: apenas 6% das pessoas vivendo com HIV desconhecem seu diagnóstico, cerca de 91% dos diagnosticados estão em tratamento antirretroviral e mais de 95% alcançam supressão viral. Os números colocam a Escócia muito próxima das metas globais 95-95-95 estabelecidas pelo Unaids.
Em 2024, foram registrados 375 novos casos de HIV. Um dado considerado particularmente positivo é que apenas 19% dessas infecções foram classificadas como transmissões ocorridas dentro do próprio território escocês, sinalizando avanços importantes na contenção da epidemia.
A estratégia escocesa para enfrentar o HIV começou a mudar ainda na década de 1980. Na época, Edimburgo chegou a ser conhecida como a “capital europeia da Aids”, devido à rápida disseminação do vírus entre usuários de drogas injetáveis. Após o fracasso de políticas exclusivamente repressivas, o país adotou programas de redução de danos, incluindo troca de seringas, que se tornaram referência internacional.
Hoje, a prevenção combinada ocupa posição central na resposta escocesa. Em 2024, o país registrou 2.472 novos acessos à PrEP, o maior número desde a implementação da estratégia, em 2017.
Haiti enfrenta uma partida mais difícil

Se a Escócia entra em campo defendendo uma vantagem construída ao longo de décadas, o Haiti ainda disputa um jogo mais complexo contra a epidemia.
O país possui aproximadamente 150 mil pessoas vivendo com HIV e apresenta a maior prevalência da doença entre os países do Caribe: cerca de 1,7% da população adulta.
Apesar dos desafios, os haitianos conseguiram importantes avanços nas últimas décadas. Atualmente, o país registra cerca de cinco mil novas infecções por ano, um número significativamente menor do que o observado nos anos 1990 e no início dos anos 2000.
Os indicadores mais recentes mostram que 89% das pessoas vivendo com HIV conhecem seu diagnóstico, 93% das pessoas diagnosticadas recebem tratamento antirretroviral e 87% das que estão em tratamento alcançaram carga viral indetectável. Além disso, as mortes relacionadas à aids caíram 63% na última década.
Ainda assim, a epidemia haitiana permanece generalizada, ou seja, está disseminada em toda a população e não concentrada apenas em grupos específicos. As mulheres representam 55% dos diagnósticos registrados no país e cerca de 90% das transmissões acontecem por via sexual. Outro dado que preocupa especialistas é a transmissão vertical, responsável por aproximadamente 5% dos casos, percentual considerado elevado quando comparado a outros países.
Dependência internacional preocupa especialistas
Assim como uma equipe que depende de poucos jogadores para sustentar sua campanha, parte significativa da resposta haitiana ao HIV ainda depende de apoio internacional.
O combate à epidemia no país conta com forte participação de organismos multilaterais, agências das Nações Unidas e programas financiados pelos Estados Unidos, especialmente por meio do PEPFAR.
Em 2025, o congelamento de recursos do programa anunciado pelo governo norte-americano gerou preocupação entre especialistas e organizações que atuam no país, diante do risco de impactos na continuidade das ações de prevenção, diagnóstico e tratamento.
Mesmo diante desse cenário, o Haiti mantém uma rede nacional de serviços voltados para testagem, aconselhamento, prevenção da transmissão vertical e distribuição de terapia antirretroviral. Desde 2010, o país também conta com um sistema nacional de vigilância epidemiológica que monitora novos casos, consultas e pessoas em tratamento.
Duas seleções, dois sistemas de jogo
No futebol, Haiti e Escócia chegam ao Mundial tentando conquistar seus primeiros pontos no Grupo C. Os escoceses apostam na organização e na experiência de quem retorna ao torneio após 28 anos. Os haitianos entram em campo impulsionados pela esperança de repetir feitos históricos e mostrar sua capacidade de superação.
Na luta contra o HIV, o contraste também é evidente. Enquanto a Escócia joga avançada, próxima de alcançar metas globais e interromper novas transmissões, o Haiti ainda precisa superar obstáculos estruturais que dificultam o controle da epidemia.
Existe algo que une os dois adversários, tanto no futebol quanto na saúde pública, vitórias duradouras exigem estratégia, investimento, trabalho coletivo e persistência. E, quando o assunto é HIV, a partida mais importante continua sendo disputada muito depois do apito final.
Redação da Agência de Notícias da Aids




