Época Negócios: Como ratos gigantes estão transformando a luta contra a tuberculose

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Olfato aguçado dos roedores detecta a presença do patógeno causador da doença em amostras do escarro dos pacientes; mais de 30 mil casos de tuberculose que poderiam ter passado despercebidos foram diagnosticados dessa forma

Rato treinado em laboratório para detectar tuberculose em amostras de escarro de pacientes

A tuberculose, doença bacteriana transmitida pelas vias áreas, é vista por muitas pessoas como um problema de outros tempos, mas a verdade é que ela ainda atinge milhões de pessoas no mundo todo e, sem o diagnóstico e tratamento corretos, pode matar.

Um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) revela que 8,2 milhões de pessoas foram diagnosticadas com tuberculose em 2023. O número é o maior desde que a instituição iniciou o monitoramento, em 1995.

Só que o diagnóstico da doença pode ser desafiador e muitas vezes dar falso negativo, principalmente se o paciente estiver com a imunidade baixa. Para contornar esse problema, a ONG belga Apopo tem há alguns anos se dedicado a ampliar um nada convencional exame de tuberculose de forma rápida, barata e amplamente disponível: pelo olfato aguçado de ratos gigantes.

No caso, ratos africanos da espécie Cricetomys ansorgei, que podem crescer até 90 cm (incluindo a cauda), são criados e treinados pela ONG para detectar a doença em amostras do escarro dos pacientes, ou muco extraído dos pulmões e das vias aéreas. Amostras avaliadas por clínicas como negativas são enviadas ao laboratório da Apopo, em Mororogo, na Tanzânia, para uma triagem secundária pelos ratos.

Como os ratos são treinados

Os ratos são treinados para detectar a presença do Mycobacterium tuberculosis (MTB), patógeno que causa a doença. Segundo Joseph Soka, gerente do laboratório da Apopo, as células receptoras olfativas altamente desenvolvidas desses ratos podem detectar os compostos orgânicos voláteis responsáveis pela MTB. “Os ratos podem isolar a cepa específica mesmo em níveis baixos desses compostos”, disse Soka ao jornal The Guardian.

No laboratório, um rato é colocado em um compartimento de vidro com 10 orifícios, cada um contendo uma amostra. Treinados para associar amostras positivas a alimentos, os ratos pairam sobre as positivas e passam direto pelas negativas. Normalmente, são necessários cerca de três segundos para farejar uma amostra positiva e menos de dois segundos para uma amostra negativa. O processo deve ser repetido por pelo menos cinco ratos antes que os técnicos registrem um resultado positivo.

A partir de quatro semanas de idade, os ratos gigantes começam a ser treinados, levando de nove meses a um ano para concluir o treinamento, ou seja, para o roedor conseguir detectar a presença da bactéria causadora da tuberculose. Antes do início do treinamento, os ratos são socializados para criar um vínculo com seus manipuladores humanos.

Segundo pesquisa feita pela ONG neste ano, 52% dos testes inicialmente negativos foram reavaliados como positivos pelos ratos. Os roedores estão corretos em pelo menos 82% dos casos em comparação com os testes clínicos padrão.

“Uma pessoa não tratada pode infectar de 10 a 15 pessoas. Multiplique esse número por 24 mil indivíduos tratados corretamente, que não haviam sido detectados pelos testes regulares. Essas não foram apenas amostras, foram vidas salvas”, afirmou Soka.

Em 2007, a Tanzânia se tornou o primeiro país a usar ratos para triagem de tuberculose e a Apopo agora trabalha com 81 clínicas em todo o estado africano. Desde então, a ONG analisou mais de 900 mil amostras e detectou mais de 30 mil casos de tuberculose que poderiam ter passado despercebidos, evitando pelo menos 300 mil possíveis infecções.

No próximo ano, a organização abrirá um segundo laboratório de testes em Moshi, na região norte do Kilimanjaro, na Tanzânia. A ONG também está em conversas com autoridades de saúde de Serra Leoa e Angola sobre a introdução do programa nesses países.

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