A história das pessoas vivendo com HIV vem mudando radicalmente nas últimas décadas. Se nos anos 1980 a infecção era sinônimo de incerteza e mortalidade precoce, hoje, com o tratamento antirretroviral eficaz e o acesso universal à terapia, muitos vivem plenamente e envelhecem com o vírus sob controle. Mas o que acontece com a *qualidade de vida* dessas pessoas ao longo do tempo?
Essa foi a pergunta que norteou uma ampla pesquisa apresentada durante a 20ª Conferência Europeia sobre Aids (EACS 2025), realizada em Paris. Conduzido na Holanda, o estudo comparou a qualidade de vida relacionada à saúde (QVRS) de cerca de 500 pessoas com HIV com a de um grupo equivalente sem o vírus, acompanhando ambas por quase uma década.
Os resultados indicam um cenário de estabilidade e até de esperança: as pessoas com HIV apresentaram qualidade de vida muito próxima à da população geral, com diferenças pequenas demais para serem consideradas clinicamente significativas. No entanto, o mesmo estudo também acendeu um alerta: a depressão continua sendo uma presença marcante e persistente na vida de quem vive com o vírus.
A pesquisa, apresentada por Kevin Moody, do Centro Médico da Universidade de Amsterdã, integra a coorte AGEhIV, que desde 2010 acompanha pessoas com 45 anos ou mais vivendo com HIV. Para que as comparações fossem justas, o estudo também recrutou indivíduos HIV-negativos com perfis semelhantes — em idade, gênero, comportamento sexual e condições socioeconômicas —, a maioria homens gays ou bissexuais.
No total, 522 pessoas com HIV e 532 sem HIV participaram da análise. Todos os participantes responderam, em diferentes momentos (no início e depois de dois, quatro, seis e oito anos), a dois questionários padronizados: o SF-36, voltado para medir a qualidade de vida física e emocional, e o CES-D, usado para avaliar sintomas de depressão.
As pessoas vivendo com HIV incluídas na pesquisa estavam em tratamento antirretroviral (TARV) e com carga viral indetectável, critério fundamental para garantir que as diferenças observadas não fossem consequência direta da infecção ativa.
Qualidade de vida: diferença mínima e estabilidade surpreendente
A boa notícia é que a qualidade de vida relacionada à saúde permaneceu praticamente estável ao longo de oito anos — tanto entre pessoas com HIV quanto entre as HIV-negativas.
O estudo mostrou que, em média, quem vive com HIV pontuou apenas dois pontos a menos em aspectos físicos, como dor ou tolerância ao exercício, e um ponto a menos em aspectos mentais, como concentração e humor. Essas variações, embora estatisticamente significativas, foram consideradas de relevância clínica questionável, tamanha a proximidade entre os grupos.
Mesmo com o avanço da idade (de cerca de 52 para 60 anos), não houve queda perceptível nas pontuações gerais do SF-36. O componente físico caiu apenas um ponto e o mental se manteve inalterado — um dado que surpreendeu até os pesquisadores.

“A boa notícia”, destacou Moody, “é que não há nenhuma indicação nesta pesquisa de que a qualidade de vida das pessoas com HIV diminua mais rapidamente do que a das pessoas sem HIV. Ao contrário, vemos um grupo estável, adaptado e funcional.”
Depressão: um peso que persiste
Se o bem-estar físico mostrou estabilidade, a saúde mental revelou um quadro mais delicado.
De acordo com o questionário CES-D, que mede sintomas de depressão, as pessoas com HIV apresentaram pontuação média de 22,4, enquanto os HIV-negativos ficaram em 16,4 — justamente o limite considerado indicativo de depressão.
Isso significa que, em média, o grupo HIV-positivo ultrapassa com folga o ponto de corte para sintomas depressivos clinicamente relevantes.
“Os participantes com HIV tiveram consistentemente cerca de 50% mais probabilidade de relatar sintomas depressivos clinicamente significativos”, explicou Moody.
Esses sintomas permaneceram estáveis ao longo do tempo — o que indica que o sofrimento emocional não é passageiro, mas crônico e persistente. A depressão pode, portanto, não derivar diretamente do HIV, mas de uma combinação complexa de fatores: o peso do estigma, o envelhecimento, comorbidades e o cansaço emocional de viver sob acompanhamento médico contínuo.
Comorbidades e fatores associados
Logo no início do estudo, os pesquisadores também avaliaram a presença de comorbidades não infecciosas, como diabetes, hipertensão, osteoporose, obesidade e doenças renais. Essas condições eram mais comuns entre pessoas com HIV, refletindo o envelhecimento precoce observado em algumas populações com o vírus.
Enquanto 62% dos HIV-negativos não apresentavam nenhuma comorbidade, esse índice era de apenas 47% entre os HIV-positivos. Já 20,5% das pessoas com HIV tinham duas ou mais condições crônicas, contra 8% no grupo controle.
A análise estatística ajustou as pontuações de qualidade de vida para esses fatores, assim como para o nível socioeconômico, estado civil e uso de drogas, buscando isolar o impacto do HIV em si. Mesmo assim, a diferença final na QVRS permaneceu pequena — sinal de que o tratamento eficaz neutraliza boa parte do efeito negativo que se poderia esperar.
Entre o controle biomédico e o bem-estar emocional
Para Moody, os resultados lançam luz sobre a quarta meta do chamado “quarto 95” — a etapa que vai além da testagem, do tratamento e da supressão viral: garantir qualidade de vida.
“Atingir os três primeiros 95 não é suficiente para alcançar a definição ampla de saúde proposta pela Organização Mundial da Saúde”, lembrou ele. “É preciso olhar para o bem-estar integral, que inclui aspectos emocionais e sociais.”
O pesquisador também questionou a adequação das ferramentas tradicionais de mensuração. Segundo ele, o SF-36, criado na década de 1990, reflete uma era em que o HIV causava sintomas físicos mais visíveis, como dor neuropática e fadiga severa. Hoje, com o controle do vírus e menor toxicidade dos medicamentos, essa métrica pode deixar de capturar nuances mais sutis do viver com HIV, especialmente as ligadas à saúde mental.
“O SF-36 mede funcionamento, enquanto o CES-D mede sofrimento. Isso pode explicar a aparente contradição: as pessoas com HIV funcionam bem, apesar de carregarem uma carga emocional maior”, disse Moody. “Existe algum tipo de adaptabilidade ou resiliência em quem vive com HIV — uma capacidade de seguir em frente mesmo diante do sofrimento.”
O estudo holandês oferece um retrato complexo do envelhecimento com HIV em tempos de tratamento eficaz. Por um lado, mostra uma geração que conseguiu transformar a experiência de viver com o vírus em algo cotidiano e gerenciável. Por outro, revela que a saúde mental ainda é o elo mais frágil dessa trajetória.
Moody concluiu sua apresentação com um recado que vai além da pesquisa: “Em vez de depender apenas de medidas gerais de qualidade de vida, precisamos de triagens direcionadas para saúde mental. O sofrimento psicológico merece atenção clínica, tanto quanto a adesão ao tratamento ou a supressão viral.”
Redação da Agência Aids com informações do AidsMap




