Responder pela saúde de um país que tem, desde a promulgação da Constituição de 1988, um Sistema Único de Saúde não deve ser tarefa fácil. Talvez também por isso, o profissional formado em Medicina pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com residência médica e especialização na área de infectologia, pós-graduação pela Universidade de São Paulo (USP) e doutorado em Saúde Coletiva pela Unicamp, Alexandre Padilha, tenha incorporado à sua rotina corridas matinais.
Os resultados são perceptíveis para quem chega mais perto: com energia, disposição e bom humor, inicia seus dias sempre com uma agenda lotada de compromissos e reuniões.
Não foi diferente durante sua passagem pela 26.ª Conferência Internacional de Aids, que acontece no Rio de Janeiro. Alexandre Padilha recebeu a Agência Aids no estande do Ministério da Saúde. Também respondeu às perguntas de ativistas convidados pela Agência para participarem da conversa.
Disse que a Gilead quer preços “estratosféricos” para a venda do Lenacapavir e sinalizou que o governo brasileiro pretende negociar intensamente para que o medicamento seja incorporado ao SUS. Elogiou o projeto pioneiro das máquinas de dispensação de PrEP e PEP implantadas pela cidade de São Paulo e presentes em estações do metrô.
Disse ainda que “a luta contra o estigma e a discriminação é uma luta permanente” e que “a eliminação do HIV e da aids como problema de saúde pública é uma realidade possível de ser alcançada”.
Acompanhe a entrevista.
Roseli Tardelli: Ministro Alexandre Padilha, elegantemente, abriu espaço em sua agenda pra conversar conosco e com alguns ativistas brasileiros que gravaram pergunta para o ministro. Primeiro eu quero agradecer o senhor. Segundo, eu quero lhe dar parabéns e agradecer muito o fato do Brasil estar, eu diria que na vanguarda de novo, na América Latina quando nós falamos de medicação de ponta para acolher as pessoas que vivem com HIV/Aids e, além disso, pra prevenir novas infecções. O senhor fez duas falas interessantes. Depois a gente vai falar um pouquinho mais dessas questões ligadas à indústria e à inovação. Primeira ativista que vai fazer pergunta para senhor é a Alessandra Nilo. Vamos lá.

Alessandra Nilo: Eu sou Alessandra Nilo, diretora de Relações Externas da IPPF, e esta conferência vai falar muito sobre acesso e inovação. Mas, como o Brasil também tem visto nos fóruns internacionais, inovação sem acesso, na verdade, acaba gerando desigualdade e injustiça. Para o senhor, qual é a principal barreira para o acesso no Brasil, e quais são os planos para resolver isso?
Ministro Alexandre Padilha: Infelizmente, a principal barreira são poucas empresas, em geral do hemisfério norte, quererem aferir lucros estratosféricos do enfrentamento ao HIV. Sabe aquela sensação que a gente tem, assim, a gente tá lutando, estamos avançando. Na minha opinião, a eliminação do HIV e da AIDS como problema de saúde pública é uma realidade possível de alcançar nos próximos anos. E parece que algumas empresas querem aferir o maior lucro possível nessa reta final de algo tão importante que é o enfrentamento à pandemia pelo HIV. A maior barreira é essa, mas o Brasil luta pra isso.
O Brasil hoje preside a coalizão do G20, das 20 nações mais ricas do mundo, para o acesso, produção e inovação de medicamentos. Colocamos isso como pauta fundamental. Vamos exercer toda a força que tem o SUS, um sistema de saúde de mais de 200 milhões de habitantes, de ser o maior país com mais de 100 milhões de habitantes até alcançar a eliminação da transmissão vertical do HIV. Usar toda essa força pra negociar preços mais justos e transferência de tecnologia.
Nós saímos dessa conferência com a notícia boa, que é um acordo da Fiocruz com a empresa internacional de acompanhamento e desenvolvimento conjunto de uma nova medicação via oral de profilaxia pro HIV, inclusive de transferência de tecnologia e produção aqui no Brasil, pra gente garantir mais esse instrumento pra eliminar o HIV e a aids como problema de saúde pública.

Veriano Terto: Meu nome é Veriano Terto Júnior, eu sou co-coordenador do Grupo de Trabalho em Propriedade Intelectual e sou vice-presidente da ABIA, Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS. Ministro, o SUS é baseado nos princípios da universalidade, da equidade, da transparência e do controle social. O senhor não considera que os preços e negociações secretos e sigilosos sobre os medicamentos entre o governo e as indústrias farmacêuticas internacionais não representariam uma inversão dos princípios do SUS e terminaria por favorecer a manutenção de monopólios?
Ministro Alexandre Padilha: O Brasil quer, sim, adotar um mecanismo que outros sistemas nacionais públicos de saúde adotam, que é o chamado preço silenciado para o mercado, mas transparente pros órgãos de controle. Isso pode ser um passo muito importante pra que o Brasil conquiste, para o SUS, pro nosso Sistema Nacional Público de Saúde, condições melhores de negociação. Silenciar o preço pro mercado, mas torná-lo transparente pros órgãos de controle e pro controle como um todo.
Ainda mais num momento como esse, onde, infelizmente, o presidente dos Estados Unidos tem pressionado indústria farmacêutica, indústria de tecnologias, a praticar no sistema dos Estados Unidos, que é basicamente privado, o preço que é praticado em sistemas nacionais públicos pelo mundo, o que é um absurdo. É tratar sistema privado da mesma forma como sistema nacional público. Então, isso é mais um motivo pra gente adotar esse mecanismo que sistemas nacionais públicos já usam no mundo e que pode significar mais acesso no Brasil, um silenciamento pro mercado, mas transparência pros órgãos e os mecanismos de controle.

Renata Souza: Olá, ministro Alexandre Padilha. Eu me chamo Renata, sou uma mulher vivendo com HIV há mais de 27 anos, faço parte do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas. A gente tem observado, ministro, que as políticas têm avançado no Brasil, porém com relação ao acesso ao tratamento, ao estigma e à prevenção, algumas coisas ainda precisam ser melhoradas. E aí a minha pergunta é: quais são as estratégias que o ministério tem pensado para o futuro, para que nenhuma pessoa fique para trás?
Ministro Alexandre Padilha: Ó, Renata, primeiro um grande abraço pra você e pra todas as Cidadãs Positivas. A importância da luta de vocês. Primeiro, a luta contra o estigma, contra a discriminação, é uma luta permanente. Ainda mais em momentos onde, não só no Brasil, mas no mundo, crescem movimentos discriminatórios. Vamos lembrar que tinha um presidente da República do Brasil que dizia que pessoa com HIV não deveria receber remédio pelo SUS. Lembra disso, né? Então, a gente precisa enfrentar a desinformação, o estigma. Essa luta é permanente.
O Ministério da Saúde conta com essa aliança muito importante, com as ativistas como você. Segundo, em relação à profilaxia, o acesso às novas tecnologias. O Brasil tá com uma postura firme de não aceitar preços que são estratosféricos praticados por algumas empresas. E estamos buscando soluções com outras parcerias, também com empresas internacionais, pra transferência de tecnologia aqui pro Brasil, pra gente ter acesso a esses medicamentos de forma muito mais aceitável e sustentável pro Sistema Único de Saúde.
Ainda este ano, nós vamos ter oferta de profilaxia injetável, com preço sustentável pro Sistema Único de Saúde, como um direito para as pessoas poderem ter acesso como direito pelo SUS, sem ter que pagar nada em relação a isso. E um terceiro movimento em relação ao tratamento. A gente precisa avançar muito na atenção especializada às pessoas que vivem com HIV. Um novo passo que nós demos foi, agora, através do programa Agora Tem Especialistas, incluir os exames, procedimentos, órteses e próteses pras pessoas que vivem com HIV e aids na nova tabela do Agora Tem Especialistas.
Isso é um valor que chega a ser duas, três vezes maior do que a antiga tabela SUS. Isso vai estimular serviços especializados a atender mais e mais rapidamente as pessoas que vivem com HIV quando for necessário fazer uma tomografia, um procedimento cirúrgico, um exame de biópsia, procedimentos especializados que uma pessoa que vive com HIV/aids tem que fazer ao longo da vida.

Alberto Pereira Jr.: Eu sou Alberto Pereira Júnior, jornalista, uma pessoa que vive com HIV há 16 anos e faz um trabalho de ativismo e direitos humanos. Ministro Padilha, eu queria saber quando a PrEP vai ser, de fato, uma política para toda a população brasileira, não apenas para grupos específicos. Porque temos 150.000 pessoas tomando PrEP no Brasil, e milhões e milhões de pessoas que poderiam estar acessando essa tecnologia.
Ministro Alexandre Padilha: Ó, Alberto, a gente busca avançar muito com isso. A gente, nesses 3 anos, aumentou em 150% a oferta de PrEP no Brasil. Hoje a gente tem mais de 200 mil brasileiros que fazem o acesso, em torno de 150 mil fazem o uso diário, os outros, um pouco mais de 50 mil, acabam fazendo o uso eventual. E nessa conferência nós estamos dando dois passos importantes pra avançar no acesso à PrEP.
Um acordo que nós vamos defender na Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias, a CONITEC, a incorporação de uma PrEP injetável, uma injeção a cada 2 meses, como mais uma ferramenta do SUS. E o acordo que a Fiocruz fez com uma outra empresa internacional pro acompanhamento dos estudos clínicos finais e depois uma parceria de produção de uma PrEP via oral, uso uma vez por mês, que pode ser mais um avanço importante pra profilaxia e pré-exposição.

Roseli Tardeli: Ministro, a gente sentiu aqui que não pegou bem para a Gilead não ter feito ainda um acordo com o Brasil e com outros países,quando a gente fala do Lenacapavir, que é uma droga que para com a transmissibilidade do HIV. Como é que o governo brasileiro pretende fazer? Que atitudes o governo pretende ter pra trazer o Lenacapavir para o SUS?
Ministro Alexandre Padilha: Nós vamos continuar discutindo, negociando. Não só o preço proposto, que são preços estratosféricos, quase como tratar um sistema nacional público do tamanho do Brasil do mesmo jeito que trata sistemas privados em outros países. Inclusive, nós ouvimos de parceiros de outros países, gestores de outros países, ministros e de organismos internacionais, que mesmo onde tá sendo oferecido, tá sendo oferecido com uma lentidão absurda que faz com que o acesso ao conjunto da população seja muito pequeno.
O Brasil exige que seja tratado da mesma forma como alguns países estão sendo oferecidos, países de renda média também, estão sendo oferecidos a um valor muito mais baixo. Enquanto a gente continua essa negociação, nós vamos trabalhar pra esse ano ainda ter uma nova oferta de PrEP injetável, uma vez a cada 2 meses, pra população brasileira, pra que a gente possa ampliar o acesso da PrEP, aumentar a adesão, sobretudo em algumas pessoas que têm muita dificuldade de usar PrEP oral ou dificuldade de adesão à medicação, mesmo por conta do próprio estigma, que ainda existe.
A pessoa tem dificuldade de carregar o medicamento, ter o medicamento. As pessoas podem perguntar: “Você tá tomando remédio todo dia? ” Então, a gente poder ampliar o acesso com essas novas tecnologias.
Roseli Tardelli: Ministro, a cidade de São Paulo tem uma experiência bastante exitosa com máquinas que estão em estações do metrô, de dispensação da PrEP e da PrEP. Quando é que outros locais do Brasil vão poder replicar essa experiência, que está dando certo?
Ministro Alexandre Padilha: Eu acho muito positivo. Quero parabenizar essa experiência na cidade de São Paulo, nos metrôs, nos espaços públicos. Aliás, quando eu fui secretário de Saúde de São Paulo, a gente colocou isso na distribuição de preservativos no metrô.
Roseli Tardelli: Foi pioneiro, foi uma ação importante
Ministro Alexandre Padilha: Sim. E agora, na época, a gente fez a primeira ação tanto no metrô quanto na CPTM, quanto nos terminais de ônibus. Acho positivo. Estamos analisando a possibilidade de isso ser expandido pro resto do país. Como também a gente está discutindo avanços no programa Farmácia Popular, que um novo Farmácia Popular possa ter, inclusive, novas formas, unidades móveis, unidades avançadas, como essas cabines, pra poder ampliar o acesso a medicamentos. No caso do Farmácia Popular, também tem fraldas geriátricas pra nossa população.
Roseli Tardelli: O que o ativismo brasileiro pode esperar dessa gestão?
Ministro Alexandre Padilha: Acho que o compromisso de ter sido o país que eliminou a transmissão vertical do HIV, de reduzir ainda mais a mortalidade de AIDS no nosso país, de ampliar ainda mais, com novas tecnologias, o acesso à PrEP, e todo esforço pra trazer pro Brasil e pro SUS tudo o que tiver de inovação ter acesso à população. Eu sempre digo que inovação sem acesso nem deveria ser chamada de inovação. Inovação sem acesso é injustiça.
Pode contar com o Ministério da Saúde pra gente lutar contra qualquer injustiça que cria barreiras de acesso às inovações tecnológicas no enfrentamento ao HIV/aids.
Roseli Tardelli: Ministro, jornalista adora nota. Se o senhor tivesse que dar uma nota pro mundo no combate à aids, a gente tá num congresso internacional, que nota o senhor daria?
Ministro Alexandre Padilha: “Eu daria nota, sim. Passa de ano, mas pode avançar muito mais o mundo no enfrentamento ao HIV/aids. Passa de ano porque tem avanços em relação ao período anterior, mas a gente precisa avançar muito mais, sobretudo o acesso às novas tecnologias. Tem de chegar a quem mais precisa. Hoje elas ainda não chegam no mundo a quem mais precisa. Mesmo o Brasil está lutando muito para que essas novas tecnologias cheguem a quem mais precisa. Pelo SUS, estamos enfrentando negociações importantes pra isso, pra gente que garanta isso de forma sustentável no SUS, de forma adequada e justa pra nossa população.”
Roseli Tardelli: Passa de ano é 7, 6?
Ministro Alexandre Padilha: “Depende da escola. Se a escola é 7, é 7. Se a escola é 5, é 5 e meio. Mas eu acho que são avanços, mas tem que ter a realidade, a clareza de que a gente precisa avançar muito mais.”
Roseli Tardelli: Agora eu quero ver, porque a gente sabe que o ministro é articulado, elegante, inteligente e cuida da saúde do Brasil. E que nota o senhor daria para o Brasil no combate à aids?
Ministro Alexandre Padilha: “Eu acho que o Brasil é um exemplo para o mundo. Então, a gente está entre os melhores alunos da classe. Igual não tem o PISA, que é aquele exame internacional de educação, tem os países que estão lá como os melhores alunos da classe, mais bem colocados no topo. O Brasil está ali, na vanguarda.
Nós estamos entre os melhores alunos da classe, o que significa que a gente não pode descansar, não pode ter retrocesso do jeito como a gente já teve no nosso país, e temos sempre de olhar para a frente e avançar cada vez mais no acesso à Justiça.
Roseli Tardelli: 8 e meio, 9?
Ministro Alexandre Padilha: “É 8 e meio, 9. Então, vamos trabalhar muito para chegar a 10.”
Roseli Tardelli: Falta uma mensagem para os ativistas que estão aqui.
Ministro Alexandre Padilha: Muito obrigado a todos os ativistas ao longo de toda essa luta. A gente alcançou o orgulho de ser o maior país do mundo a alcançar a eliminação da transmissão vertical do HIV, graças à luta de vocês. Eu aprendi uma frase com a liderança popular da Zona Leste de São Paulo, quando eu era secretário de Saúde da cidade de São Paulo, que ela falava pra mim: “Padilha política é igual feijão, só cozinha na pressão”. Então, continuem pressionando os governos, a sociedade, os organismos internacionais, para que a gente enfrente o estigma, que não exista qualquer tipo de discriminação às pessoas que vivem com HIV, e amplie o acesso às novas tecnologias.”
Roseli Tardelli: Como é que é a minha categoria, como é que os jornalistas, como é que os influencers, como é que a mídia pode ajudar na nossa causa?
Ministro Alexandre Padilha: “Primeiro, combatendo a desinformação. Quero agradecer muito à Agência AIDS e todos os órgãos da mídia que combatem a desinformação. E segundo, dando visibilidade às pessoas que vivem com HIV. A gente precisa dar visibilidade, voz, espaço para as pessoas que vivem com HIV e as pessoas que enfrentam as vulnerabilidades, que hoje impactam muito, tanto no acesso quanto no cuidado, e às vezes, inclusive, nos mecanismos de prevenção contra o HIV.”
Roseli Tardelli (roseli@agenciaais.com.br)
* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.




