Ministro da Saúde, lideranças da ONU, OMS, OPAS, cientistas e ativistas convergiram na cerimônia de abertura da conferência, no Rio de Janeiro, para defender que os avanços científicos só terão impacto se forem acompanhados de financiamento, equidade e acesso universal.
A 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026) mal havia começado quando ficou evidente que o principal debate da semana no Rio de Janeiro não seria apenas científico. Diante de representantes de governos, organismos internacionais, pesquisadores e milhares de ativistas, a cerimônia de abertura transformou-se em um chamado global para defender o financiamento da resposta ao HIV, ampliar o acesso às novas tecnologias e impedir que decisões políticas comprometam conquistas construídas ao longo de mais de quatro décadas de enfrentamento da epidemia.
Da sociedade civil ao governo brasileiro, passando por lideranças das Nações Unidas, da Organização Mundial da Saúde (OMS), da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e da comunidade científica, praticamente todos os discursos convergiram para a mesma mensagem: a ciência vive um momento histórico, mas seus avanços perderão significado se continuarem inacessíveis para milhões de pessoas.
O consenso foi construído em diferentes momentos da cerimônia. Começou com um emocionante relato sobre o impacto do estigma na vida das pessoas que vivem com HIV, ganhou força nos pronunciamentos das autoridades brasileiras e internacionais e atingiu seu ponto mais simbólico quando ativistas interromperam o protocolo para denunciar os altos preços dos medicamentos e os cortes no financiamento global da resposta à epidemia. O protesto foi acolhido pelas lideranças presentes e acabou incorporado aos discursos que se seguiram, transformando a abertura da conferência em um retrato das tensões que hoje cercam o futuro da resposta mundial ao HIV.
Pessoas antes da epidemia
Antes mesmo da entrada das autoridades, a conferência escolheu colocar no centro do palco quem dá sentido às discussões que ocuparão o Riocentro ao longo da semana: as pessoas que vivem com HIV.

Coube ao jornalista, ator e ativista Alberto Pereira Junior abrir simbolicamente a cerimônia. Diagnosticado com HIV, ele recusou a ideia de que o vírus seja capaz de definir uma trajetória de vida e lembrou que a resposta à epidemia sempre foi construída por pessoas que se recusaram a aceitar o preconceito como destino.
“Como um dos mais de um milhão de brasileiros que vivem com HIV, fui diagnosticado com HIV. Isso mudou muitas coisas, mas não define quem eu sou. Sou um homem negro. Sou brasileiro. Sou jornalista. Sou marido. Sou filho. Sou amigo. E também sou uma das quase quarenta milhões de pessoas em todo o mundo que vivem com HIV.”
A fala sintetizou um dos princípios que atravessam a AIDS 2026: enfrentar o estigma continua sendo tão importante quanto desenvolver novos medicamentos.
Ao destacar o momento vivido pela pesquisa científica, Alberto lembrou que nunca houve tantas perspectivas para transformar o controle da epidemia. Medicamentos e estratégias preventivas de longa duração inauguram uma nova etapa da resposta ao HIV, mas esses avanços correm o risco de aprofundar desigualdades caso permaneçam restritos aos países e às populações com maior poder de compra.
“Nunca antes houve tantos motivos para esperança. Tratamentos de longa duração, ferramentas de prevenção que podem transformar milhões de vidas, avanços científicos antes considerados impossíveis. No entanto, exatamente no momento em que a ciência abre portas, muitas dessas portas estão sendo fechadas. Os financiamentos estão sendo cortados. Os programas de prevenção estão sendo reduzidos. As comunidades estão sendo convidadas a fazer mais com menos. Inovação sem acesso torna-se privilégio. Ciência sem compromisso não pode salvar vidas.”
A mensagem funcionou como um fio condutor para toda a cerimônia. Sob diferentes perspectivas, praticamente todos os oradores retomariam a mesma preocupação: a inovação só terá valor se alcançar quem mais precisa dela.

O Brasil abre a conferência com um recado à indústria farmacêutica
Ao declarar oficialmente aberta a AIDS 2026, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, começou seu pronunciamento de forma pouco convencional. Antes mesmo de iniciar o discurso, dirigiu-se nominalmente à Gilead e à Merck, farmacêuticas responsáveis por algumas das principais tecnologias de longa duração apresentadas na conferência.
“Gilead, vocês ouviram? Merck, vocês ouviram?”, perguntou, olhando para representantes das empresas presentes no auditório.
A breve intervenção antecipava o principal eixo político da cerimônia: o reconhecimento de que a inovação científica representa um momento histórico no enfrentamento do HIV, mas de que ela perderá seu potencial transformador se permanecer inacessível para milhões de pessoas.
Em seguida, Padilha relembrou sua trajetória como médico infectologista, homenageou as pessoas que morreram em decorrência da aids e reconheceu o papel desempenhado pelos movimentos sociais na construção da resposta brasileira à epidemia.
“O Brasil construiu uma resposta baseada na ciência, no Sistema Único de Saúde e na defesa dos direitos humanos.”
Ao destacar conquistas como a certificação da eliminação da transmissão vertical do HIV como problema de saúde pública e a redução da mortalidade por aids, o ministro afirmou que esses resultados só foram possíveis graças à combinação entre políticas públicas, participação social e produção científica.

O protesto que mudou o rumo da cerimônia
Antes mesmo da fala de Padilha, representantes de movimentos sociais interromperam o protocolo com cartazes erguidos e palavras de ordem que rapidamente se espalharam pelo pavilhão principal do Riocentro. O protesto denunciava o alto preço dos medicamentos, os cortes no financiamento internacional e a demora para que novas tecnologias de prevenção e tratamento chegassem às populações mais vulneráveis.
Mais do que uma manifestação, foi um lembrete de que, embora a ciência viva um momento de extraordinário avanço, milhões de pessoas continuam sem acesso às ferramentas capazes de mudar o curso da epidemia.
Os manifestantes repetiam frases que sintetizavam essa indignação:
“A ganância das farmacêuticas está nos matando.”; “Comprimidos custam centavos. A ganância custa vidas.”
Pouco depois, outro coro tomou conta da cerimônia: “Cortes equivalem à morte.”
A mobilização também reivindicava justiça social como condição indispensável para o enfrentamento da epidemia. “Não queremos apenas sobreviver. Queremos viver. Não queremos desigualdade. Queremos justiça.”
O protesto interrompeu temporariamente a programação, mas não foi tratado como um incidente. Ao contrário. As lideranças presentes reconheceram a legitimidade da manifestação e incorporaram suas reivindicações aos discursos seguintes, reafirmando que a história da resposta ao HIV jamais foi construída apenas por governos, pesquisadores ou organismos internacionais, mas também pela mobilização das pessoas diretamente afetadas pela epidemia. Foi exatamente essa mobilização que, há mais de quatro décadas, pressionou por medicamentos, combateu o estigma e transformou direitos em políticas públicas.

A resposta das Nações Unidas: direitos, ciência e financiamento
A primeira autoridade internacional a subir ao palco depois da manifestação foi a diretora-executiva do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), Winnie Byanyima.
Sem ignorar o que havia acabado de acontecer, ela fez questão de reconhecer a força política do protesto e afirmou que a mobilização social continua sendo indispensável para enfrentar um cenário marcado por crises econômicas, conflitos geopolíticos e redução dos investimentos em saúde. “O Brasil mostrou ao mundo que o acesso universal não é um sonho, mas uma escolha política. Precisamos desse espírito novamente.”
Ao longo de sua intervenção, Winnie descreveu o momento atual como uma inflexão na resposta global ao HIV. “Estamos vivendo uma mudança catastrófica na ordem global. Precisamos construir uma resposta à aids para o mundo de hoje, não para o mundo que gostaríamos que existisse.”
Segundo ela, a epidemia continua sendo impulsionada pela desigualdade e corre o risco de se agravar caso direitos humanos, ciência e financiamento deixem de caminhar juntos.
“A aids é uma pandemia impulsionada pela desigualdade”, afirmou, antes de defender uma ampla articulação entre movimentos sociais, organizações da sociedade civil e defensores da democracia para enfrentar o avanço da discriminação e da criminalização de populações vulneráveis.
“Precisamos de coalizões mais amplas do que nunca. Defensores dos direitos humanos, movimentos de mulheres, movimentos LGBTQI+, movimentos pela democracia. Porque saúde, justiça de gênero e democracia sobem ou caem juntas.”
Ao abordar os avanços científicos que serão apresentados durante a conferência, ela alertou que medicamentos revolucionários terão pouco impacto se permanecerem restritos aos países de maior renda. Citando diretamente o Brasil, defendeu preços acessíveis, ampliação da produção e compartilhamento de tecnologia. “O Brasil mostrou ao mundo o que é possível e não deveria agora ser forçado a ficar no fim da fila.”
A dirigente do Unaids também fez um apelo às empresas farmacêuticas para que ampliem o acesso às novas tecnologias e alertou para a queda superior a US$ 1,5 bilhão no financiamento internacional destinado à resposta ao HIV apenas no último ano. Para ela, essa retração representa uma decisão política que ameaça comprometer décadas de avanços.
Antes de encerrar sua participação, Winnie arrancou uma das maiores salva de aplausos da noite ao responder, de forma quase direta, às vozes que haviam ocupado as arquibancadas minutos antes. “Alguns têm dinheiro. Alguns têm poder. Nós temos pessoas e temos a justiça ao nosso lado. A história nos mostra que pessoas organizadas acabam derrotando o dinheiro organizado.”

Na mesma linha, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que a ciência oferece hoje instrumentos capazes de mudar definitivamente o rumo da epidemia, mas advertiu que esses avanços dependerão da continuidade dos investimentos, da cooperação internacional e do fortalecimento dos sistemas públicos de saúde.
Tedros lembrou que a resposta ao HIV sempre demonstrou o potencial transformador da ciência quando acompanhada de solidariedade e compromisso político. Para ele, o maior desafio atual já não é desenvolver novas ferramentas, mas garantir que elas sejam distribuídas de forma equitativa.

O diretor da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), Jarbas Barbosa, aproximou esse debate da realidade das Américas. Ele destacou que mais de 90% da resposta regional ao HIV já é financiada pelos próprios países, mas advertiu que persistem desigualdades profundas, especialmente no acesso ao diagnóstico precoce e às novas estratégias de prevenção.
“Temos as ferramentas para acabar com o HIV como ameaça à saúde pública. A questão agora é garantir que elas cheguem a todos, independentemente de onde vivem ou de sua condição social.”
Jarbas também lembrou que uma em cada três pessoas vivendo com HIV nas Américas ainda recebe o diagnóstico tardiamente e defendeu o fortalecimento dos sistemas públicos de saúde, a ampliação da PrEP e a incorporação rápida das novas tecnologias de prevenção.
A ciência já fez sua parte. Falta garantir o acesso
Se as lideranças das Nações Unidas insistiram que o futuro da resposta ao HIV dependerá da combinação entre direitos humanos, financiamento e cooperação internacional, a comunidade científica reforçou que o conhecimento necessário para mudar o rumo da epidemia já existe. O desafio, agora, é fazer com que essas conquistas cheguem a quem delas precisa.

Ao abrir sua participação, a presidente da Sociedade Internacional de Aids (IAS) e da AIDS 2026, Beatriz Grinsztejn, lembrou que a conferência acontece em um momento simbólico da história da epidemia: os 30 anos da terapia antirretroviral combinada e os 15 anos da consolidação do conceito Indetectável=Intransmissível (I=I), dois marcos que transformaram profundamente a vida das pessoas que vivem com HIV.
Segundo ela, a ciência vive uma de suas fases mais promissoras, impulsionada por medicamentos de longa duração e novas estratégias de prevenção capazes de alterar o curso da epidemia.
Mas fez um alerta: nenhum desses avanços terá impacto se continuar distante das populações mais vulneráveis. “Esses avanços podem alterar a curva da pandemia se seguirmos as evidências sobre onde e como implementá-los. E se fizermos do acesso a prioridade política número um.”
Beatriz lembrou que quase nove milhões de pessoas em todo o mundo ainda vivem sem acesso ao tratamento e afirmou que essa realidade já não decorre da falta de conhecimento científico.
“Hoje sabemos o que funciona. O que impede o fim da epidemia são escolhas políticas, falhas de financiamento, estigma e discriminação”, resumiu.
Ao encerrar sua participação, lançou um desafio aos milhares de participantes reunidos no Rio de Janeiro. “Nossa tarefa é garantir que o que acontece neste local se transforme em políticas, decisões de financiamento e vontade política em todos os lugares.”
As palavras da pesquisadora encontraram eco imediato no pronunciamento seguinte.

O diretor do Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis do Ministério da Saúde, Draurio Barreira, levou o debate para um terreno ainda mais concreto: o acesso dos países de renda média às tecnologias que ajudaram a desenvolver.
O protagonismo brasileiro e a cobrança por equidade
Ao fazer um balanço da resposta brasileira, Draurio lembrou que o país acumulou conquistas importantes nas últimas décadas, entre elas a eliminação da transmissão vertical do HIV como problema de saúde pública, a redução da mortalidade por aids e a queda da incidência da doença.
Mas advertiu que esses resultados não autorizam qualquer acomodação. “Ainda temos muito a fazer antes que a aids deixe de ser um problema de saúde pública. A crise no financiamento global da saúde exige respostas urgentes. Mas quero falar, sobretudo, da inovação.”
Segundo ele, o mundo vive um paradoxo. Nunca houve tantas ferramentas capazes de ampliar a prevenção e melhorar o tratamento, mas boa parte delas continua inacessível justamente para os países que contribuíram para seu desenvolvimento.
Ao citar tecnologias como o lenacapavir, o cabotegravir e outros medicamentos de longa duração testados com a participação de pesquisadores brasileiros, Draurio criticou a exclusão do Brasil e de outros países latino-americanos dos acordos internacionais de licenciamento.
“Embora o Brasil e os brasileiros tenham participado dos ensaios clínicos dessas tecnologias, as licenças voluntárias foram negadas ao Brasil e à América Latina. Isso é inaceitável.”

Para ele, participar da produção do conhecimento científico sem garantir acesso aos seus resultados aprofunda desigualdades históricas e compromete o controle da epidemia. “Decidir quem terá acesso às inovações é decidir quem terá direito de viver e viver bem.”
Um consenso que atravessou toda a cerimônia
Ao longo de pouco mais de duas horas, a cerimônia de abertura da AIDS 2026 reuniu vozes distintas — ativistas, cientistas, representantes de organismos internacionais e autoridades brasileiras —, mas todas convergiram para a mesma conclusão.
A resposta ao HIV atravessa um dos momentos mais promissores de sua história do ponto de vista científico. Medicamentos de longa duração, novas estratégias de prevenção e décadas de produção de conhecimento colocam o mundo em uma posição inédita para controlar a epidemia.
O obstáculo deixou de ser tecnológico. Passou a ser político. O acesso às novas tecnologias, o financiamento sustentável da resposta global, a redução das desigualdades e a defesa dos direitos humanos foram apresentados como condições indispensáveis para que os avanços científicos se convertam em vidas salvas.
No fim da noite, diferentes discursos pareciam resumir uma mesma ideia.
Foi nesse contexto que o ministro Padilha resumiu a principal mensagem da abertura da AIDS 2026. “Inovação sem acesso não deveria ser chamada de inovação. Inovação sem acesso é injustiça.”
Outro lado
Em nota enviada à imprensa, Gilead afirmou que compartilha a urgência de ampliar o acesso ao lenacapavir para prevenção do HIV na América Latina e no Caribe. A empresa informou que mantém negociações com o Ministério da Saúde, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e outros parceiros para construir “caminhos sustentáveis de acesso” ao medicamento no Brasil. Destacou ainda que, após a aprovação do lenacapavir pela Anvisa, em janeiro de 2026, deu sequência às etapas previstas para definição de preço no país e assinou um memorando de entendimento com a Fiocruz para avaliar oportunidades de transferência de tecnologia e fabricação regional. Segundo a farmacêutica, o Brasil é um dos países considerados prioritários nessa estratégia.
Redação da Agência de Notícias da Aids
* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.



