O Sesc Casa Verde recebeu na manhã desta quinta-feira (4), uma roda de conversa sobre estratégias de prevenção ao HIV que combinou informação técnica, relatos pessoais e memórias históricas da luta contra a aids no território. O encontro integrou a programação dos 30 anos do Projeto Contato e reuniu a jornalista Roseli Tardelli, diretora da Agência Aids; a psicóloga e criadora de conteúdo Gugãa Thaylor; e o infectologista Vinicius Borges, o Dr. Maravilha, reconhecido por sua atuação em saúde sexual e prevenção combinada.
Um território que carrega história

Logo na abertura, Roseli explicou a emoção de mediar o encontro na Casa Verde. Foi no bairro que ela e o irmão, Sérgio Tardelli, cresceram e onde a família enfrentou, nos anos 1990, o auge da epidemia. Sérgio se infectou com HIV quando praticamente não havia tratamento, e a família travou uma batalha judicial contra um convênio que se recusava a atendê-lo, afirmando que “não atendia aquele tipo de doença”. O caso ganhou repercussão nacional e marcou o início da atuação pública de Roseli na defesa de pessoas vivendo com HIV.
“Quando meu irmão adoeceu, nós percebemos que não estávamos lutando só por ele, mas por todas as pessoas que eram tratadas como se não merecessem cuidado. Aquilo moldou minha trajetória e o trabalho que faço até hoje. A luta contra o estigma não terminou, mas mudou porque muita gente não se calou.”
Em 2015, ela fundou no território o Projeto Lá Em Casa, espaço de convivência, acolhimento e práticas integrativas. O serviço funcionou presencialmente até a pandemia de Covid-19. “Voltar aqui mexe com toda a nossa história”, afirmou.
Relatos que mostram o impacto do estigma

Entre as falas mais impactantes da manhã esteve a de Gugãa Thaylor, que vive com HIV há 30 anos. Diagnosticada na infância por transmissão vertical, ela cresceu sem saber seu próprio diagnóstico — a família escondia o nome do medicamento por medo do estigma.
Quando descobriu, aos 14 anos, sentiu o mundo desabar. Foi discriminada por professores, isolada socialmente e passou a acreditar que não teria futuro. Abandonou o tratamento por anos e chegou ao estágio de aids. “Pensei: se eu vou morrer, então vou viver tudo agora”, relatou.
Hoje, aos 30 anos, ela afirma: “Eu nem lembro que tenho HIV. Tomo o remédio e vivo. Vivo muito.”
Sua história ecoou na Arena como um testemunho de resiliência e como alerta para a urgência da informação responsável.
Ciência, sexualidade e quebra do estigma

O infectologista Vinicius Borges trouxe ao debate dados, práticas clínicas e alertas sobre os desafios atuais da prevenção. Ele reforçou a necessidade de ampliar o acesso à informação de qualidade:
“A gente precisa falar mais sobre o que funciona. E funciona muito: PrEP, PEP, camisinha, testagem e tratamento. São ferramentas seguras e baseadas em evidência, não em moral”, afirmou.
Vinicius também destacou que o estigma ainda orienta comportamentos e decisões clínicas. “Ainda atendo pessoas que chegam dizendo que ‘Aids é doença de gay’. Isso mostra que a desinformação continua circulando, e que comunicar ciência é tão importante quanto receitar medicamentos”, disse.
Ele explicou com clareza o I=I (Indetectável=Intransmissível), conceito fundamental da prevenção combinada:
“Pessoas que vivem com HIV e têm carga viral indetectável por mais de seis meses não transmitem o vírus por via sexual. É a ciência dizendo que o tratamento salva vidas e também reduz o estigma.”
O médico chamou atenção para o crescimento das infecções entre mulheres — especialmente mulheres negras — e para o subacesso à PrEP entre travestis e pessoas trans. “Não basta oferecer a PrEP, ela precisa chegar a quem tem maior vulnerabilidade social. Isso é política pública.”
Ele também comentou sobre o envelhecimento da população vivendo com HIV: “Hoje acompanho pessoas acima dos 60 anos vivendo com HIV há décadas. Isso é resultado direto do SUS, do tratamento gratuito e do cuidado continuado.”
Prevenção combinada em pauta

Os participantes detalharam a prevenção combinada de forma acessível ao público:
* PrEP: para populações em maior risco;
* PEP: após exposição sexual desprotegida;
* I=I, garantindo que pessoas em tratamento não transmitem o vírus;
* Camisinha como proteção também para outras ISTs;
* Testagem e início imediato de tratamento.
Vinicius reforçou que essas estratégias devem caminhar juntas. “Quanto mais opções a pessoa tiver, mais chances teremos de reduzir novas infecções.”
Memória em movimento

O encontro exibiu um trecho do documentário “HIV e Aids, Suas Histórias: 20 anos de Global Village”, dirigido por Roseli e produzido pela Agência Aids em parceria com o SescTV. O material recupera a memória de ativistas de diversos países e destaca a importância da mobilização comunitária no enfrentamento ao HIV.
Avanços e perspectivas

O grupo também comentou a expectativa de que o Brasil alcance, em breve, a eliminação da transmissão vertical do HIV como problema de saúde pública, meta já atingida antes pela cidade de São Paulo. O avanço resulta de testagem ampliada em gestantes, tratamento precoce e acompanhamento integral.
Vínculo comunitário como ferramenta de saúde
O encontro, marcado também por plateia formada majoritariamente por pessoas da terceira idade, mostrou que prevenção e cuidado passam pelo território, pela troca direta e pela escuta. O Projeto Contato, o Sesc Casa Verde e iniciativas governamentais e não governamentais formam, juntos, uma rede que ajuda a aproximar informação, acolhimento e direitos.

O evento, que marca o Dezembro Vermelho – mês de luta contra a Aids, terminou com uma homenagem afetuosa de Roseli aos parceiros do Sesc e à equipe da Agência Aids, reconhecendo o trabalho conjunto na resposta ao HIV/aids.
Redação da Agência de Notícias da Aids




