A camisa pesa. Três estrelas bordadas no peito, uma geração que entrou para a história e a expectativa de uma despedida inesquecível de Lionel Messi em Copas do Mundo. Atual campeã mundial, a Argentina entra em campo nesta terça-feira (16), às 22h (horário de Brasília), contra a Argélia, no Estádio Arrowhead, em Kansas City, pela primeira rodada do Grupo J da Copa do Mundo de 2026.
Mas, enquanto milhões de torcedores acompanham a caminhada argentina em busca do tetracampeonato, uma outra disputa acontece longe dos gramados. Fora das quatro linhas, Argentina e Argélia enfrentam desafios distintos no combate ao HIV — uma epidemia que continua afetando milhares de pessoas em ambos os países.
De um lado está a Argentina, referência histórica na América Latina por suas políticas de prevenção, tratamento e garantia de direitos. Do outro, a Argélia, que vem registrando crescimento no número de pessoas vivendo com HIV e ainda enfrenta obstáculos para ampliar o acesso às ferramentas mais modernas de prevenção.
Argentina vê cortes colocarem em risco décadas de avanços

Durante décadas, a Argentina foi considerada uma das lideranças regionais na resposta ao HIV. O país aprovou ainda em 1990 uma das legislações mais avançadas da América Latina sobre aids, garantindo confidencialidade, combate à discriminação e acesso universal à assistência.
Em 1996, incorporou a terapia antirretroviral ao sistema público e, anos depois, passou a investir em redução de danos, distribuição de preservativos e fortalecimento de organizações da sociedade civil.
Mais recentemente, em 2022, incorporou a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) ao sistema público e aprovou uma nova legislação que ampliou direitos para pessoas vivendo com HIV. Hoje, aproximadamente 140 mil argentinos vivem com o vírus.
No entanto, especialistas e organizações da sociedade civil vêm demonstrando preocupação com mudanças implementadas pelo governo do presidente Javier Milei.
O orçamento destinado ao Programa Nacional de Resposta Integral ao HIV, Hepatites Virais, ISTs e Tuberculose sofreu redução de 76% em 2024, primeiro ano da atual gestão. As consequências começaram a aparecer rapidamente.
Entre 2023 e 2024, a distribuição de preservativos caiu 58,4%. Em janeiro de 2025, cerca de 40% dos profissionais que atuavam no programa nacional foram demitidos. Além disso, diretorias responsáveis por áreas estratégicas da saúde pública foram encerradas durante a reorganização administrativa promovida pelo governo.
Para organizações que acompanham a resposta ao HIV no país, o receio é que décadas de conquistas construídas por governos, profissionais de saúde e movimentos sociais sejam gradualmente enfraquecidas.
Populações vulneráveis seguem concentrando a epidemia
A epidemia argentina permanece concentrada principalmente entre populações-chave. Homens que fazem sexo com homens respondem por aproximadamente 45% dos casos registrados e apresentam prevalência próxima de 12%.
Pessoas trans continuam entre os grupos mais afetados do continente, com prevalência superior a 30%. As relações heterossexuais representam cerca de 40% das novas infecções notificadas.
Embora os indicadores ainda coloquem a Argentina entre os países mais estruturados da região no enfrentamento ao HIV, especialistas alertam que a redução de investimentos pode comprometer a prevenção justamente em grupos mais vulneráveis.
Na Argélia, número de pessoas vivendo com HIV cresce
Se na Argentina o debate gira em torno da preservação de avanços históricos, na Argélia o desafio é ampliar a resposta diante do crescimento da epidemia.
Dados do Unaids indicam que o número de pessoas vivendo com HIV passou de 25 mil em 2022 para 30 mil em 2024 — aumento de 20% em apenas dois anos.
Atualmente, cerca de 86% das pessoas vivendo com HIV conhecem seu diagnóstico, enquanto 79% estão em tratamento antirretroviral.
Embora a prevalência na população geral permaneça pouco acima de 0,1%, a epidemia é considerada concentrada.
Homens que fazem sexo com homens apresentam prevalência superior a 13%, enquanto mulheres profissionais do sexo registram prevalência de 4,4%.
Os dados mostram que a transmissão continua afetando de forma desproporcional populações mais vulneráveis, cenário semelhante ao observado em diversos países da região do Norte da África e Oriente Médio.
Acesso a medicamentos avançou, mas prevenção ainda enfrenta obstáculos
A Argélia iniciou suas políticas nacionais de combate ao HIV ainda nos anos 1980, pouco depois da identificação dos primeiros casos no país.
Nos últimos anos, o governo ampliou o acesso a medicamentos mais modernos por meio de acordos internacionais que permitiram a oferta de tratamentos à base de dolutegravir, considerado um dos antirretrovirais mais eficazes atualmente.
Em 2023, mais de 1.200 pacientes receberam tratamento financiado por iniciativas internacionais voltadas à ampliação do acesso a medicamentos contra o HIV. Apesar dos avanços terapêuticos, uma das principais lacunas continua sendo a prevenção.
A PrEP, estratégia considerada fundamental para reduzir novas infecções em populações vulneráveis, ainda não está disponível no sistema público argelino. Até o momento, não há previsão oficial para sua incorporação.
Dois países, duas trajetórias
Argentina e Argélia chegam à Copa do Mundo separadas por oceanos, culturas e histórias diferentes.
Uma entra em campo carregando o peso de ser a atual campeã mundial e a responsabilidade de preservar um legado reconhecido internacionalmente na resposta ao HIV.
A outra busca crescer dentro e fora dos gramados, enquanto tenta conter o avanço silencioso de uma epidemia que vem ganhando espaço nos últimos anos.
Redação da Agência de Notícias da Aids




