A falta de sintomas claros, somada à desinformação e à baixa percepção de risco, mantém as hepatites virais como um problema persistente de saúde pública. Embora tenham formas de prevenção, diagnóstico e tratamento disponíveis, muitos casos ainda são descobertos apenas em estágios avançados da doença — quando o fígado já apresenta comprometimentos importantes.
As hepatites são infecções virais que atingem diretamente o fígado e podem evoluir de forma silenciosa por anos. Esse é um dos principais entraves para o controle da doença. “É uma doença viral que provoca inflamação no fígado, mas na maior parte dos casos, não apresenta sintomas, é silenciosa, então muitas pessoas só descobrem quando o quadro já está avançado, o que traz a importância da testagem frequente”, explica a infectologista Dra. Patrícia Rady Müller.
Quando surgem, os primeiros sinais costumam ser ignorados. Cansaço, coceira e sintomas semelhantes aos de uma gripe não costumam acender um alerta imediato. “Alguns sinais são mais leves, como cansaço, coceira ou até sintomas parecidos com gripe, o que faz com que muitas pessoas não procurem atendimento”, afirma a médica. Em fases mais avançadas, o corpo dá sinais mais evidentes: olhos amarelados, urina escura “cor de Coca-Cola”, além de diarreia e enjoo.

Mitos ainda moldam a percepção de risco
Mesmo com ampla circulação, as hepatites ainda são cercadas por equívocos — inclusive sobre suas formas de transmissão. As hepatites B e C, por exemplo, também podem estar relacionadas às infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), embora essa associação ainda seja pouco reconhecida.
No caso da hepatite B, a transmissão pode ocorrer em relações sexuais desprotegidas, já que o vírus está presente em fluidos como sangue, sêmen e secreções vaginais. Já a hepatite C está mais associada ao contato com sangue contaminado, especialmente no compartilhamento de objetos perfurocortantes.
“A contaminação está mais relacionada ao compartilhamento de objetos, como alicates de unha e lâminas de barbear”, destaca a especialista.
Entre os mitos mais persistentes, está a ideia de que a doença não representa gravidade. “Muita gente acha que não mata, mas ela pode evoluir para câncer de fígado, comprometer outros órgãos e até levar à morte”, alerta.
Testagem ainda não faz parte da rotina
A ausência de sintomas contribui diretamente para o diagnóstico tardio. Sem sinais claros, a testagem acaba ficando fora da rotina de cuidados da maior parte da população.
“A recomendação é fazer testagem anual, que está disponível no SUS”, reforça a infectologista.
Embora o exame seja indicado para todos, a atenção precisa ser maior entre pessoas sexualmente ativas, usuários de PrEP e pessoas vivendo com HIV, que já costumam ter um acompanhamento mais frequente. Ainda assim, a baixa percepção de risco segue como um obstáculo importante.
Entre o resultado rápido e a confirmação demorada
O SUS oferece testes rápidos capazes de indicar, em cerca de 30 minutos, se houve contato com o vírus. No entanto, quando há resultado positivo ou necessidade de confirmação, o diagnóstico depende de exames laboratoriais mais detalhados.
Esses testes, realizados por técnica de PCR, podem levar cerca de duas semanas para ficarem prontos. O intervalo, embora necessário para garantir precisão, cria um gargalo no cuidado: pode gerar ansiedade, dificultar o retorno ao serviço de saúde e atrasar o início do tratamento.
A médica chama atenção para situações de urgência, como casos de violência sexual. “Em até 72 horas conseguimos fazer essa prevenção, evitando uma evolução maior e mais perigosa das infecções”, informa a Dra. Patricia.
Ela reforça que, nesses casos, a testagem rápida para hepatites e outras ISTs é essencial para permitir intervenções precoces e reduzir o risco de desenvolvimento da doença.
Tratamento avança, mas exige atenção
Apesar dos desafios no diagnóstico, o tratamento das hepatites teve avanços significativos nos últimos anos. A hepatite C, por exemplo, apresenta taxas de cura superiores a 95% com o uso de antivirais orais. Já a hepatite B pode ser controlada com acompanhamento adequado e uso contínuo de medicação.
Mesmo com tratamento disponível, o cuidado com o fígado exige atenção no dia a dia. “Remédios como o paracetamol, chamado muitas vezes pelo nome de tylenol, podem piorar o quadro, podendo levar até a uma hepatite aguda”, explica a médica.
O consumo de álcool também deve ser evitado, assim como alimentos que possam intensificar a inflamação hepática.
No caso da hepatite A, transmitida por água ou alimentos contaminados, a maioria dos adultos já desenvolveu anticorpos ainda na infância.
Informação ainda é a principal barreira — e solução
A prevenção das hepatites passa por medidas conhecidas: vacinação (disponível no SUS para os tipos A e B), uso de preservativos e o não compartilhamento de objetos perfurocortantes.
Ainda assim, a informação segue sendo um dos principais desafios — e também a principal ferramenta para reverter esse cenário.
“A falta de conhecimento pode agravar a doença e atrasar o diagnóstico, o que leva a casos de desenvolvimento de câncer ou a morte, se tornando uma hepatite aguda”, afirma a especialista.
Diante de uma doença que avança de forma silenciosa, ampliar o acesso à informação, incentivar a testagem regular e garantir diagnóstico em tempo oportuno continuam sendo passos decisivos para reduzir complicações e salvar vidas.
Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)
Estagiária em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dica de entrevista
Dra. Patrícia Rady Müller.
Instagram: @drapatriciaradymuller




