Entre normas e vidas reais: um tributo ao cuidado ético e às existências trans

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Realizado no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, evento reuniu profissionais, pesquisadoras e pessoas trans para discutir cuidado, saúde mental e políticas públicas no Mês da Visibilidade Trans.

O cuidado em saúde costuma ser apresentado como algo técnico, neutro, guiado por protocolos e normas. Mas, para pessoas trans, ele quase nunca chega dessa forma. Muitas vezes, vem atravessado por desconfiança, burocracia, violência institucional e decisões que pouco dialogam com a vida real. Foi a partir dessa tensão — entre regras e existências — que se construiu o evento “Tributo ao Cuidado Ético e às Existências Trans”.

Realizado no dia 29 de janeiro, data que marca o Mês da Visibilidade Trans, no auditório do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, o encontro aconteceu das 13h30 às 18h e foi idealizado por Paola Souza, doutora em Psicologia e pesquisadora da saúde trans, em nome da Casa de Pesquisa e do Ambulatório Trans do CRT DST/Aids de São Paulo.

Ao longo da abertura e da primeira mesa, dedicada às práticas institucionais no cuidado trans, profissionais da saúde, pesquisadoras, gestoras públicas e pessoas trans compartilharam experiências, dados e reflexões que ajudaram a traduzir, para além do discurso técnico, o que significa cuidar — ou falhar no cuidado — dentro do SUS.

Antes mesmo de qualquer debate técnico, a abertura do evento partiu de um ponto fundamental: para existir cuidado, é preciso que pessoas trans se sintam seguras dentro dos serviços de saúde. Ao falar em nome da direção do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, Luiz Carlos Pereira Júnior destacou o compromisso institucional do hospital com o enfrentamento à transfobia e a construção de um espaço efetivamente acolhedor.

“O hospital Emílio Ribas é a casa de todas, de todos e de todes. A gente põe isso por escrito e divulga dessa maneira”, afirmou. Segundo ele, o cuidado ético não se limita à assistência clínica, mas envolve decisões administrativas, formação de equipes e responsabilização diante de denúncias. “A gente não tolera nenhum tipo de reação contra, de fechamento de espaços. Diante de qualquer denúncia, a gente abre apuração, porque as pessoas vão ter que responder.”

Responsável pela mediação da mesa, Paola Souza conduziu a discussão a partir de uma crítica direta à forma como a saúde pública historicamente enxerga pessoas trans. Para ela, a centralidade excessiva em dados biomédicos empobrece o cuidado e afasta o sistema da vida concreta.

Paola Souza

“A gente fala de prevalência, incidência, material biológico, mas não fala de paixão, não fala de sonhos. A gente não sabe a cor dos olhos da pessoa, qual o disco preferido”, afirmou. Segundo Paola, esse distanciamento ajuda a explicar por que muitas políticas não conseguem produzir pertencimento nem confiança.

Ela também destacou que a experiência trans produz um tipo de saber que não pode ser plenamente aprendido apenas pela técnica. “O cuidado que a gente faz diariamente, nenhum profissional da saúde cisgênero tem condição de aprender se não tiver uma experiência trans no mundo. É impossível.” Para Paola, reconhecer esse limite é parte fundamental de um cuidado mais ético.

Gestão pública em meio ao retrocesso

Ao trazer a perspectiva da gestão pública, Tânia Corrêa, coordenadora da Área Técnica de Saúde Integral da População LGBTQIA+ da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, falou sobre o impacto da recente resolução do Conselho Federal de Medicina no cotidiano dos serviços. A medida, segundo ela, atingiu diretamente equipes e usuários que já estavam em acompanhamento.

“Eu chorei quando vi aquilo”, relatou, ao lembrar do momento em que percebeu que parte do trabalho construído ao longo dos anos poderia ser desfeito. “Fomos pegos de surpresa. Tudo que a gente tinha construído parecia estar indo por água abaixo.”

Tânia Corrêa

Apesar das dificuldades, Tânia explicou que a rede municipal buscou caminhos para manter o cuidado, inclusive por meio de diálogo com o Ministério da Saúde. Ainda assim, o cenário passou a ser marcado por insegurança. “Existem médicos que têm medo do CRM, e a secretaria não pode obrigar ninguém a descumprir uma resolução. Mas outros resolveram peitar”, afirmou.

Infâncias, adolescências e o custo das decisões

As consequências dessas decisões aparecem de forma ainda mais dura quando o foco são crianças e adolescentes trans. Saulo Vito, psiquiatra do Núcleo Trans da Unifesp, compartilhou relatos de projetos interrompidos de forma abrupta, mesmo após longos processos de acompanhamento com famílias.

“As pessoas chegaram para fazer o bloqueio. Na semana em que fariam, saiu a resolução. Tivemos que dizer que não podíamos mais”, contou. Segundo ele, a impossibilidade de acesso ao cuidado levou ao aumento da auto-hormonização e ao agravamento do sofrimento psíquico.

Saulo Vito

Saulo também fez uma reflexão crítica sobre o lugar historicamente ocupado pela psiquiatria. “O psiquiatra geralmente chega quando todo o resto falhou: quando a escola falhou, quando houve bullying, quando não houve acesso.” Para ele, o cuidado precisa começar antes, em espaços como a escola, a cultura e as políticas públicas.

Cuidar da saúde mental é criar pertencimento

A discussão sobre saúde mental ganhou densidade com a apresentação de dados de pesquisas recentes. José Luís Gomes Nunes, pesquisador do Núcleo de Direitos Humanos e Saúde da População LGBT (NUDHES), compartilhou resultados que ajudam a dimensionar o sofrimento vivido por mulheres trans e travestis.

Em um estudo com 392 participantes, 42% apresentaram sofrimento psíquico moderado a grave, 65% relataram ideação suicida e 10% haviam tentado suicídio no último ano. A partir desses achados, foi desenvolvido o projeto Aurora Trans, baseado na navegação de pares em saúde mental. “Não era um projeto de terapia, mas de fortalecimento de recursos emocionais e criação de espaços de cuidado”, explicou.

José Luis Gomes

Histórias simples ajudaram a traduzir o impacto do projeto: uma participante que nunca comemorava aniversário levou um bolo para dividir com o grupo; outra deixou de usar substâncias para estar presente nos encontros.

Incluir em vez de diagnosticar

Ao recuperar a história do Ambulatório Trans do CRT, criado em 2009, Ricardo Barbosa, psicólogo e diretor do Ambulatório Trans do CRT DST/Aids-SP, destacou que a proposta do serviço nunca foi diagnosticar gênero, mas garantir acesso ao sistema de saúde.

“Diagnóstico de gênero é uma abstração anticientífica e antiética”, afirmou. Para ele, a criação do ambulatório representou um movimento de despatologização ao priorizar a escuta e a inclusão de uma população historicamente excluída do SUS.

Ricardo Barbosa

Ricardo reconheceu que essa mudança de paradigma gerou desconfortos internos, mas também abriu espaço para criação de novas práticas. “Isso produziu desconforto, mas também criação.”

Uma rede que se constrói no caminho

Ao trazer um panorama histórico da implantação do Ambulatório Trans no estado de São Paulo, a dra. Naila Janilde, médica do CRT DST/Aids-SP, lembrou que a demanda pelo serviço superou rapidamente qualquer expectativa inicial.

Naila Janilde

“A demanda era muito maior do que todo mundo imaginava”, afirmou. Segundo ela, esse cenário impulsionou a descentralização do atendimento e a formação de profissionais em diferentes regiões do estado. Ao longo do percurso, novos desafios surgiram, especialmente no atendimento a pessoas não binárias. “Isso a gente foi aprendendo na prática, com os usuários.”

Produzir dados para transformar políticas

Encerrando a mesa, Bárbara Barroso, pesquisadora e coordenadora do Mapeamento da População Trans, destacou a importância da produção de dados como ferramenta política. Para ela, mapear a população trans não é apenas produzir números, mas criar condições para pressionar o Estado por políticas públicas.

“Quando a gente gera dados, a gente tem subsídio para pressionar o governo”, afirmou. Bárbara ressaltou que os dados revelam dores profundas, especialmente relacionadas à infância, juventude e renda. “Os dados sobre renda fazem a gente chorar.”

Bárbara Barbosa

Ela defendeu que o mapeamento seja usado para impulsionar políticas que vão além da saúde, incluindo trabalho, renda e direitos. “É uma bola de neve de pressão, de força comunitária e de poder trans.”

Ao reunir diferentes experiências, o Tributo ao Cuidado Ético e às Existências Trans mostrou que o cuidado em saúde não se resume a normas ou protocolos. Ele é feito de escolhas, disputas, vínculos e da capacidade de reconhecer pessoas trans como sujeitas de direitos.

Em um mês dedicado à visibilidade, o encontro deixou claro que tornar vidas trans visíveis também significa garantir que elas sejam cuidadas com dignidade, escuta e humanidade — dentro e fora das instituições.

Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)

Estagiário em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

Dicas de entrevista

Instituto de Infectologia Emílio Ribas

Telefone: (11) 3896-1200

Paola Souza

Instagram: paola.alves.souza

Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo

Telefone: (11) 5461-5600

Núcleo Trans da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

Site: nucleotrans.unifesp.br

Núcleo de Direitos Humanos e Saúde da População LGBT (NUDHES)

Site: nudhes.org

CRT DST/Aids de São Paulo

E-mail: contato@crt.saude.sp.gov.br

Unifesp

Site: csp.unifesp.br

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