Entre máquinas de PrEP, agentes comunitários e lenacapavir, países testam novos caminhos para ampliar a prevenção do HIV

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Sessão na AIDS 2026 reuniu experiências de Brasil, Zâmbia, Eswatini e Filipinas que apostam em novas tecnologias, diferentes formas de acesso e participação comunitária para alcançar pessoas ainda distantes dos serviços tradicionais

Ter uma tecnologia de prevenção disponível não significa, necessariamente, que ela chegará a quem precisa. Distância dos serviços, horários incompatíveis com a rotina, falta de privacidade, dificuldades de transporte e até a preferência por uma modalidade diferente de prevenção continuam interferindo no acesso à PrEP, à PEP e à testagem para o HIV.

Experiências apresentadas durante a 26ª Conferência Internacional de AIDS (AIDS 2026) mostraram como diferentes países estão tentando enfrentar essas barreiras. Em São Paulo, medicamentos podem ser retirados em máquinas instaladas em estações de metrô. Na Zâmbia e em Eswatini, o lenacapavir injetável está atraindo pessoas que nunca haviam utilizado PrEP. Nas Filipinas, jovens participaram do desenho dos próprios serviços de prevenção.

As iniciativas foram apresentadas na sessão “Prevenção na prática, avanços reais na implementação da prevenção do HIV” e, embora partam de contextos muito diferentes, colocaram uma questão comum no centro do debate: a prevenção precisa se adaptar à vida das pessoas — e não esperar que as pessoas se adaptem aos serviços.

Em São Paulo, PrEP e PEP chegam às estações de metrô

Na capital paulista, parte dessa mudança já pode ser vista fora das unidades tradicionais de saúde.

Adriano Queiroz da Silva, da Coordenadoria de IST/Aids da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, apresentou a experiência das máquinas de dispensação automática instaladas em estações de metrô. O sistema permite que pessoas previamente avaliadas por teleconsulta com médico ou enfermeiro recebam a prescrição por WhatsApp ou e-mail e retirem gratuitamente PrEP, PEP ou autotestes de HIV em qualquer horário.

A análise apresentada na conferência procurou identificar quem utiliza as máquinas e por quais motivos. A maior parte dos usuários recorria à PrEP diária como estratégia contínua de prevenção, enquanto outra parcela buscava a PEP após uma exposição recente ao HIV.

Mais do que facilitar a retirada dos medicamentos, os dados sugerem que as máquinas passaram a funcionar como uma porta alternativa de entrada e permanência nas estratégias de prevenção.

“A predominância da prevenção contínua entre os gêneros destaca o papel dessas tecnologias no apoio ao engajamento contínuo com as estratégias de prevenção do HIV”, afirmou Adriano.

Equipe da Coordenação de IST/ Aids da cidade de São Paulo e a empresária Mayuli Fonseca, diretora da empresa HospLog, responsável pela produção das máquinas

Segundo o pesquisador, “as conclusões apontam o potencial dos modelos automatizados para fortalecer a prevenção combinada com o sistema de saúde pública e promover o acesso equitativo à PrEP e à PEP”.

Na Zâmbia, 89% dos usuários de lenacapavir nunca haviam usado PrEP

Se em São Paulo a inovação está principalmente na maneira de chegar ao serviço, na Zâmbia uma nova tecnologia de longa duração está mudando quem chega à prevenção.

Lloyd Mulenga, do Hospital Universitário de Ensino, apresentou os primeiros resultados da implementação do lenacapavir como PrEP no país. Segundo ele, foi a primeira vez que um novo medicamento para HIV chegou à África Subsaariana no mesmo ano em que recebeu aprovação regulatória nos Estados Unidos e na União Europeia.

Até junho de 2026, quase 4 mil pessoas haviam iniciado o uso do lenacapavir na Zâmbia. Desse total, 59% eram mulheres e 20% adolescentes e jovens adultos.

Mas um número se destacou: 89% das pessoas que começaram a utilizar o medicamento nunca haviam usado PrEP anteriormente.

O dado sugere que a modalidade injetável semestral não está apenas substituindo outras formas de prevenção entre pessoas que já utilizavam PrEP. Ela está conseguindo alcançar parte de uma população que permanecia fora dessas estratégias.

Entre aqueles que já deveriam retornar para a segunda aplicação, a persistência geral após seis meses chegou a 81%. Entre adolescentes e mulheres jovens, aproximadamente 90% compareceram para receber a nova dose.

A implementação, entretanto, também revelou obstáculos.

Mulheres grávidas e em período de amamentação apresentaram menor permanência no programa. Entre os fatores apontados estavam dificuldades de transporte e a indisponibilidade do medicamento em algumas unidades comunitárias para as quais retornavam depois do parto.

A oferta limitada do lenacapavir também apareceu como desafio.

“Nós recebemos inicialmente apenas 500 doses, que acabaram em poucas semanas”, relatou Mulenga ao explicar que a expansão precisou acompanhar a chegada de novos estoques.

Eswatini, lenacapavir responde por mais da metade das novas iniciações

A experiência de Eswatini reforçou o potencial da PrEP de longa duração, mas mostrou uma dinâmica diferente.

Mandzisi Mkhontfo, da Jhpiego, apresentou dados dos primeiros meses de implementação do lenacapavir em cinco unidades participantes. Nesse período, mais da metade das novas iniciações de PrEP ocorreu por meio do medicamento.

Entre os 836 usuários que escolheram o lenacapavir, 55% haviam migrado de outras modalidades de PrEP. Outros 44% nunca tinham utilizado nenhuma estratégia preventiva.

Os números apontam, portanto, para dois movimentos simultâneos: pessoas que já faziam prevenção escolhendo uma nova modalidade e outras entrando pela primeira vez na PrEP.

Outro resultado chamou a atenção: mulheres grávidas e lactantes representaram aproximadamente um terço das usuárias.

Em um país com elevada incidência de HIV, particularmente entre mulheres jovens, a adesão desse grupo à modalidade injetável foi apresentada como um sinal importante sobre o potencial das tecnologias de longa duração para ampliar as alternativas disponíveis.

Nas Filipinas, jovens deixam de ser público-alvo e passam a desenhar o serviço

A experiência apresentada por Mac Russelle Cabuso, da FHI 360, trouxe outra perspectiva. Na região metropolitana de Manila, o problema não era a ausência de tecnologias, mas as barreiras existentes entre elas e os jovens.

Antes de desenvolver a intervenção, a equipe identificou obstáculos como transporte, privacidade, confidencialidade e insegurança para realizar o primeiro autoteste de HIV.

A resposta foi a criação da estratégia ALTERS, voltada à ampliação do autoteste e da PrEP oral.

Em vez de elaborar mais uma campanha destinada aos jovens, o projeto os colocou na construção do modelo de atendimento.

Líderes comunitários foram capacitados para fazer buscas por meio das redes sociais, organizar entregas confidenciais de kits de autoteste e oferecer diferentes possibilidades de acompanhamento, presencial ou virtual.

Em apenas dois meses, foram registrados 189 pedidos de autoteste. Desse total, 82% receberam os kits. Entre aqueles que realizaram o teste, 38 nunca haviam feito um teste de HIV anteriormente.

A intervenção também esteve associada a um aumento de 17% na iniciação da PrEP entre pessoas elegíveis.

Para Cabuso, a experiência mostrou que participação comunitária não deve ser tratada apenas como apoio à implementação.

“Os serviços de prevenção do HIV tornam-se mais acessíveis quando são concebidos com a participação de jovens, conduzidos por jovens e adaptados à realidade dos jovens”, afirmou.

Nas Forças Armadas filipinas, o desafio foi impedir que os serviços parassem

A última experiência apresentada deslocou o debate da inovação para outro ponto essencial: a sustentabilidade.

Vamsi Vasireddy, do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, apresentou o trabalho desenvolvido junto às Forças Armadas das Filipinas em meio às mudanças recentes no financiamento internacional da resposta ao HIV.

Uma das transformações relatadas ocorreu na própria política militar, que passou a permitir que pessoas vivendo com HIV permaneçam em serviço após o diagnóstico.

Segundo os dados apresentados, 97% das pessoas diagnosticadas foram vinculadas ao tratamento e 93% alcançaram supressão viral.

Mesmo diante das mudanças no financiamento do PEPFAR, o programa manteve a testagem e a continuidade do tratamento e reorganizou sua cadeia logística para evitar interrupções no cuidado.

Prevenção começa a sair do modelo único

Máquinas de medicamentos em estações de metrô, uma injeção aplicada duas vezes por ano, kits entregues de maneira confidencial, acompanhamento virtual, agentes comunitários e serviços reorganizados para sobreviver às mudanças de financiamento.

As experiências apresentadas na AIDS 2026 são muito diferentes entre si e ainda precisam ser acompanhadas para que se compreenda seu impacto no longo prazo. Mas apontam para uma transformação na maneira de pensar a prevenção do HIV.

Durante décadas, grande parte das políticas foi organizada a partir da oferta disponível: o serviço definia onde, quando e de que maneira a prevenção seria acessada.

Os estudos apresentados sugerem um movimento diferente.

Em vez de perguntar apenas como fazer mais pessoas chegarem aos serviços, pesquisadores e gestores começam a perguntar como fazer os serviços chegarem às pessoas.

É nessa mudança que máquinas de PrEP em São Paulo, lenacapavir na África e estratégias construídas por jovens nas Filipinas acabam se encontrando. Não porque exista uma única solução capaz de responder às diferentes epidemias de HIV, mas justamente porque as experiências mostram o contrário: ampliar a prevenção pode depender cada vez mais da capacidade de oferecer caminhos diferentes para vidas, necessidades e contextos diferentes.

Barbara Clara, especial para a Agência de Notícias da Aids

* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobriu a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.

Apoios