Entre avanços e desigualdades, ativistas fazem balanço crítico da resposta ao HIV em 2025

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Eliminação da transmissão vertical, ampliação da PrEP e avanços no tratamento convivem com cortes de financiamento, estigma persistente e barreiras de acesso em territórios vulnerabilizados, avaliam lideranças do movimento social.

O ano de 2025 foi marcado por conquistas importantes na resposta brasileira ao HIV/Aids, como a certificação da eliminação da transmissão vertical, a ampliação do acesso à PrEP e a melhoria contínua dos tratamentos antirretrovirais. Ao mesmo tempo, ativistas, lideranças da sociedade civil e representantes de diferentes regiões do país apontam que esses avanços seguem distribuídos de forma desigual, impactados por cortes de financiamento, fragilização das ações comunitárias, estigma persistente e dificuldades de acesso nos territórios mais vulnerabilizados.

Em depoimentos à Agência de Notícias da Aids, eles fazem um balanço crítico do ano, destacando conquistas, alertas e desafios que ainda atravessam a resposta ao HIV no Brasil.

Confira:

Américo Nunes Neto – Presidente do Instituto Vida Nova

“O ano de 2025 foi marcado por desafios e avanços na luta contra o HIV/Aids. O acesso a medicamentos inovadores, como o Lenacapavir, ainda enfrenta obstáculos, especialmente na negociação de preços. A prevenção e o combate ao estigma seguem como prioridades. Além disso, os cortes de financiamento internacionais aumentaram a incerteza sobre os recursos disponíveis. Por outro lado, houve avanços importantes, como o desenvolvimento de medicamentos mais eficazes, com menos efeitos colaterais, e a ampliação do acesso ao tratamento antirretroviral.”

Renata Soares de Souza – Movimento Nacional de Cidadãs Posithivas no Conselho Nacional de Saúde

“Consolidamos 2025 como um ano de avanços significativos na resposta ao HIV/Aids no Brasil, especialmente com o reconhecimento da OMS pela eliminação da transmissão vertical do HIV como problema de saúde pública. Essa conquista resulta do fortalecimento do SUS, do acesso universal ao pré-natal, da ampliação da testagem e do tratamento antirretroviral, mas também da luta histórica da sociedade civil organizada e das pessoas vivendo com HIV. Ainda assim, o ano evidenciou desafios persistentes, como o enfrentamento do preconceito, do estigma, das desigualdades sociais e da fragilização das ações comunitárias, que seguem impactando de forma desproporcional as populações mais vulnerabilizadas.”

Eduardo Barbosa – Secretário político da ANAIDS

“O ano de 2025 foi marcado por avanços importantes, como a certificação do Brasil pela eliminação da transmissão vertical do HIV e o aumento significativo da oferta de PrEP, além do fortalecimento da prevenção combinada. Também houve a retomada de espaços de participação social junto ao governo federal. No entanto, seguimos sem alcançar uma parcela expressiva da população em maior vulnerabilidade. O preconceito e a discriminação continuam sendo grandes barreiras, gerando medo, afastamento dos serviços de saúde e isolamento.”

Marta McBritton – Fundadora do Instituto Cultural Barong

“Em 2025, um dos acontecimentos mais marcantes na resposta ao HIV/Aids foi o corte expressivo de verbas promovido pelo governo dos Estados Unidos, seguido por um silêncio internacional preocupante. Essa ausência de reação revela a persistente invisibilidade do HIV e o avanço de uma onda conservadora que relativiza direitos e vidas. Esse cenário reforça a importância histórica da sociedade civil, que sempre foi central para a construção e a defesa de políticas públicas eficazes no enfrentamento da epidemia.”

 

 

Liliana Mussi – Vice-presidente do Fórum das ONG/Aids do Estado de São Paulo

“O ano de 2025 foi marcado por avanços relevantes na resposta ao HIV/Aids no Brasil, com destaque para a certificação da eliminação da transmissão vertical do HIV como problema de saúde pública. Também houve ampliação do acesso à PrEP e à PEP, fortalecimento da prevenção combinada e consolidação do tratamento como prevenção. Ao mesmo tempo, persistem grandes desafios, como desigualdades territoriais, estigma, discriminação e barreiras de acesso para populações mais vulnerabilizadas, além de retrocessos no financiamento e na priorização política do tema.”

 

 

Djair Gomes – Influenciador

“O ano de 2025 trouxe avanços importantes, como a queda histórica no número de mortes por Aids e a melhoria contínua dos tratamentos antirretrovirais, com esquemas mais simples e menos tóxicos. Também houve ampliação do uso da PrEP. No entanto, ainda enfrentamos desafios significativos, como o diagnóstico tardio e as desigualdades regionais, que seguem criando barreiras no acesso à prevenção e ao tratamento.”

 

Márcia Leão – Coordenadora-executiva do Fórum ONG Aids do Rio Grande do Sul

“Avalio 2025 como um ano contraditório na luta contra o HIV/Aids. Houve avanços no reconhecimento do papel da sociedade civil, na ampliação do debate sobre prevenção combinada e na reafirmação do SUS como eixo estruturante da resposta. Por outro lado, o desfinanciamento da saúde e a não execução do orçamento prejudicaram ações estratégicas, aprofundaram a descontinuidade de políticas, fragilizaram serviços e ampliaram desigualdades já existentes.”

 

Robson Lucas Oliveira Ferreira – Rede Jovem SP+

“Do ponto de vista da juventude, 2025 foi um ano de avanços, mas também de desafios sentidos na prática. Houve fortalecimento do cuidado, da testagem e da prevenção, mas os dados mostram que jovens seguem representando uma parcela expressiva dos novos diagnósticos. A dificuldade de manter projetos comunitários por falta de financiamento e a ausência de ações contínuas nas escolas limitam o alcance da prevenção. As desigualdades no acesso à informação e aos serviços continuam afetando principalmente jovens negros, LGBTQIAPN+ e moradores das periferias.”

Toni Reis – Presidente da Aliança Nacional LGBTI+ e diretor financeiro da Rede GayLatino

“Mesmo diante de um Congresso extremamente conservador, o Brasil apresentou avanços importantes em 2025, como a ampliação da cobertura da PrEP pelo SUS, o fortalecimento da prevenção combinada e o avanço rumo à eliminação da transmissão vertical do HIV. O país também manteve o tratamento universal e gratuito, com altos índices de pessoas vivendo com HIV que conhecem seu status sorológico. No entanto, o financiamento destinado à sociedade civil foi extremamente insuficiente, o que compromete a sustentabilidade das organizações e das ações de base.”

Janailson Lobo Giron – Diretor de Comunicação da Coalizão + Brasil e representante estadual suplente da RNP+ Brasil – Núcleo Pará

“O ano de 2025 deixou claro que o Brasil tem capacidade técnica, científica e política para avançar no enfrentamento do HIV, com a eliminação da transmissão vertical, a ampliação da testagem e a queda das taxas de óbito. Ao mesmo tempo, ficou evidente que esses avanços não chegam de forma igual a todos os territórios. Na Amazônia, desafios como distâncias, logística precária, falta de capacitação e vulnerabilidades sociais seguem criando brechas perigosas, especialmente para populações ribeirinhas, indígenas, quilombolas e extrativistas.”

 

Luis Baron – da ONG EternamenteSou

“O ano de 2025 foi marcado por uma dualidade: ao mesmo tempo em que tivemos avanços importantes, como o desenvolvimento de medicamentos de longa duração e o fortalecimento da prevenção combinada, também enfrentamos retrocessos significativos com cortes de financiamento internacional. Além disso, ainda existe uma grande desigualdade no acesso à informação e à prevenção, especialmente em territórios periféricos e afastados dos grandes centros, onde muitas pessoas sequer sabem o que são PrEP e PEP.”

 

Evalcilene Santos, do Fórum de ONGs/Aids da Amazônia

“2025 foi um ano de retomada de espaços importantes para o movimento social, com debates, participação em eventos e fortalecimento de algumas articulações. No entanto, ainda há muito a avançar na política de HIV/Aids no Brasil, especialmente no acesso a novos medicamentos, na ampliação da prevenção em todos os territórios e no reconhecimento das pessoas que atuam na base, nos municípios e nas comunidades, onde muitas vezes é o movimento social que acolhe, cuida e salva vidas.”

Moyses Toniolo – Coordenador da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids, núcleo Bahia

“O ano de 2025 marca mais de quatro décadas de enfrentamento do HIV/Aids e evidencia avanços históricos, como o acesso universal ao tratamento antirretroviral pelo SUS e a redução expressiva da transmissão vertical. Essas conquistas mostram o protagonismo do Brasil na resposta à epidemia, baseada em direitos humanos. Ao mesmo tempo, persistem desafios importantes, como o impacto dos retrocessos internacionais no financiamento e a necessidade de ampliar o diálogo com populações mais vulnerabilizadas para reduzir a incidência e combater o estigma.”

Silvia Almeida – Ativista e aposentada

“Encerramos 2025 com um marco importante, que foi a certificação da eliminação da transmissão vertical do HIV. No trabalho de campo, especialmente em municípios pequenos e remotos, fica evidente o quanto essa conquista depende de ações contínuas na ponta. Ainda é necessário levar mais informação, combater a discriminação e atualizar a compreensão da população sobre o HIV, que muitas vezes ainda está presa à visão do início da epidemia.”

Veriano Terto Jr. – Vice-presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA)

“Avalio 2025 como um ano de paradoxos. Tivemos bons resultados, como a certificação da eliminação da transmissão vertical e a queda da mortalidade, mas a epidemia segue crescendo em algumas regiões e afetando de forma desproporcional pessoas negras e jovens. O estigma, o racismo, a homofobia e a transfobia continuam impedindo que os avanços cheguem de forma universal, o que revela que os resultados positivos ainda não se distribuem igualmente pela população.”

Alessandra Nilo – co-fundadora da ONG Gestos – Comunicação e Sexualidade

Alessandra Nilo

“O ano de 2025 foi extremamente desafiador para a resposta ao HIV/Aids. Ao mesmo tempo em que avançamos na ciência, com melhorias nos medicamentos e nas tecnologias de cuidado, enfrentamos um forte retrocesso político, marcado por cortes de financiamento e ataques aos valores que estruturam a resposta ao HIV, no Brasil e no mundo. Esse cenário tornou a luta mais intensa e evidenciou o impacto direto das decisões políticas na vida das pessoas.”

 

Harley Henriques – Coordenador geral do Fundo Positivo

“O ano de 2025 foi um dos mais difíceis da história da epidemia de HIV/Aids. A posse do presidente Trump gerou um efeito dominó de retrocessos na política internacional, com o fechamento de importantes instituições de cooperação e a redução drástica do financiamento para ações de prevenção, tratamento e direitos humanos, especialmente em países do Sul Global. Esse cenário agravou a dificuldade de captação de recursos e impôs grandes desafios para a resposta ao HIV no Brasil e no mundo.”

Os relatos reunidos revelam que 2025 consolidou evidências de que políticas públicas baseadas em ciência, SUS fortalecido e participação social salvam vidas. No entanto, também escancarou que o enfrentamento ao HIV/Aids segue condicionado a decisões políticas, financiamento adequado e compromisso real com a equidade. Para o movimento social, o balanço do ano reforça uma mensagem central: não basta avançar em indicadores nacionais se esses resultados não chegam de forma efetiva às periferias, à Amazônia, à juventude, às mulheres, às populações negras e LGBTQIAPN+. A resposta ao HIV segue viva, necessária e profundamente ligada à defesa de direitos humanos.

Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)

Estagiário em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

Dicas de entevista:

Américo Nunes

Instagram: americo.nunes.773

Renata Soares

Instagram: renatasouzaprudente

Eduardo Barbosa

Instagram: eduardo_luiz _barbosa

Marta Mc Britton

Instagram: martamcbritton

Liliana Mussi

E-mail: liliana_jornalista@hotmail.com

Djair Gomes

Instagram: soudjair

Márcia Leão

Instagram: marciableao

Robson Oliveira

Instagram: robson_oliveir4

Toni Reis

Instagram: toni_reis

Janailson Lobo

Instagram: janailsonlg

Luis Baron

Instagram da EternmenteSou: eternamente.sou

Evalcilene Santos

Facebook: Val Santos

Moysés Toniolo

Instagram: toniolomoyses

Silvia Almeida

Instagram: silviaadalmeida

Veriano Terto Jr.

Site da ABIA: abiaids.org.br

Alessandra Nilo

Instagram: alessandra.nilo

Harley Henriques

Instagram: harleyhenriques

 

Apoios