Ser uma travesti negra vivendo com HIV no Brasil é existir entre dois projetos de país. De um lado, um projeto que insiste na exclusão, na violência, no abandono e na morte. De outro, um projeto construído cotidianamente pela resistência coletiva, pelo autocuidado, pela organização política e pela luta por dignidade. Os dados mais recentes do Ministério da Saúde e da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) escancaram essa disputa.
Em 2025, 80 pessoas trans foram assassinadas no Brasil. Em um país que lidera há 17 anos o ranking mundial de assassinatos de pessoas trans, a violência letal é apenas a ponta de um iceberg sustentado por estigma, discriminação, exclusão social e negação sistemática de direitos. Em 2024, foram registrados 122 assassinatos; em 2025, esse número caiu 34%. Ainda que esse dado represente um respiro, a Antra alerta para a subnotificação e para o fato de que a violência segue estruturando nossas vidas e engrossando o caldo do racismo estrutural brasileiro: cerca de 78% das pessoas trans assassinadas são negras, o que evidencia que a transfobia no Brasil tem cor.
A maioria das vítimas são travestis e mulheres trans negras, pobres e periféricas. O racismo estrutura a transfobia, e ambos produzem morte. Isso se reflete também nos dados de saúde: mulheres trans e travestis negras apresentam as menores taxas de supressão viral e as maiores taxas de interrupção do tratamento. Não se trata de coincidência, mas da atuação sistemática das desigualdades interseccionais.

Ainda assim, mesmo diante do ódio e da perseguição, a população trans e travesti brasileira segue surpreendendo com sua capacidade de resistência, resiliência e organização na conquista de direitos, e de que somos a vanguarda da luta por saúde sexual e de enfrentamento à epidemia de aids.
O Monitoramento Clínico do HIV e da Aids na População Trans, divulgado pelo Ministério da Saúde com dados de 2024 e 2025, revela uma realidade que confronta narrativas estigmatizantes. A população trans não é sinônimo de negligência ou desinformação em saúde. Ao contrário: 91% das pessoas trans vivendo com HIV no Brasil já conhecem seu diagnóstico. Estamos mais próximas da primeira meta global da UNAIDS do que grande parte da população geral.
Chegamos, inclusive, mais cedo aos serviços de saúde. A proporção de diagnóstico tardio — quando o sistema imunológico já está gravemente comprometido — é de 15% entre pessoas trans e de 14% entre mulheres trans e travestis. Entre pessoas cisgênero, esse índice chega a 24%. Esses números são resultado direto do trabalho histórico das organizações da sociedade civil, da articulação comunitária, dos Serviços de Assistência Especializada e da construção de vínculos de confiança em um sistema que, por muito tempo, tentou nos expulsar.
Para pessoas trans, cuidar da própria saúde nunca foi apenas uma escolha individual. É um ato coletivo, político e profundamente estratégico. É resistência organizada diante de um Estado que, por décadas, nos tratou como exceção — quando não como erro.
Quando conseguimos iniciar a terapia antirretroviral, os resultados são expressivos. Entre mulheres trans e travestis em tratamento, 94% alcançam a supressão viral. Isso significa viver bem, viver mais e não transmitir o vírus. O princípio Indetectável=Intransmissível deixa de ser apenas uma diretriz técnica e se afirma como ferramenta concreta de enfrentamento ao estigma e de fortalecimento da saúde pública.
Esses dados confirmam algo fundamental: quando somos acolhidas, respeitadas e acompanhadas de forma contínua, a adesão ao tratamento acontece. A população trans responde ao cuidado com excelência.
No entanto, é justamente na continuidade do tratamento que se escancaram as falhas estruturais do Estado brasileiro. Mulheres trans e travestis apresentam as maiores taxas de interrupção da terapia antirretroviral e os maiores atrasos na retirada de medicamentos, muitas vezes superiores a 90 dias. Como consequência, as taxas de supressão viral, embora altas, seguem inferiores às da população cisgênero nos parâmetros mais rigorosos.
Essas interrupções não podem — e não devem — ser interpretadas como falhas individuais. Elas são produto direto de um contexto social violento, excludente e profundamente desigual. O cuidado em saúde não acontece no vácuo. Ele depende de moradia digna, renda, segurança, alimentação adequada, acesso ao transporte e, sobretudo, de dignidade.
A violência que afasta pessoas trans do cuidado não é apenas letal. Ela se manifesta no desrespeito ao nome social, na recusa em reconhecer identidades, no atendimento hostil, na transfobia institucional e na ausência de políticas públicas que garantam condições mínimas de vida. O próprio Ministério da Saúde reconhece que o estigma, a discriminação e o acolhimento inadequado comprometem a construção de vínculos terapêuticos. A chamada “transfobia institucional” transforma serviços de saúde em espaços de medo, quando deveriam ser territórios de cuidado.
Esse cenário se agrava com a ascensão de uma ofensiva antitrans articulada, marcada por uma litigância predatória que busca revogar direitos básicos, como o uso de banheiros, o respeito ao nome social e o reconhecimento de identidades de gênero. O Dossiê da Antra alerta que, mesmo sob um governo progressista, há inércias e recuos preocupantes na defesa institucional da vida trans. Esse silêncio cúmplice cria um vácuo político que tem sido ocupado pelo extremismo e pelo fundamentalismo.
Nesse contexto, a luta contra a aids não pode ser dissociada da luta pelo direito de existir da população trans. Os medicamentos antirretrovirais garantem a supressão do vírus, mas não blindam nossos corpos contra tiros, espancamentos, despejos ou contra a exclusão sistemática do mercado de trabalho, que empurra cerca de 90% da população trans para a prostituição compulsória. Não há adesão sustentável ao tratamento quando a sobrevivência é permanentemente ameaçada.

É nesse ponto que educação, trabalho e saúde se revelam direitos indissociáveis. Não haverá enfrentamento efetivo da epidemia de HIV enquanto a população trans seguir sendo empurrada para fora das escolas, das universidades e do mercado de trabalho formal. A exclusão educacional e profissional alimenta um ciclo de precarização que impacta diretamente a saúde, a expectativa de vida e a possibilidade de projetar futuro.
Por isso, políticas como as cotas para pessoas trans nas universidades, programas como o Transcidadania (que destina bolsas por 3 anos para que pessoas trans terminem o Ensino Básico) e a ampliação de políticas públicas de empregabilidade devem ser compreendidas como estratégias centrais de saúde pública. Garantir acesso à educação, trabalho formal, renda e proteção social é garantir adesão ao tratamento, continuidade do cuidado e vida digna.
As cotas trans não são privilégio. São instrumentos de reparação histórica frente a um projeto secular de apagamento que atravessa a escravidão, a colonização, as políticas higienistas e a violência de Estado, como evidenciam figuras como Xica Manicongo e episódios como a Operação Tarântula. Democratizar o acesso à universidade é romper com esse ciclo e afirmar que pessoas trans têm direito ao futuro.
Mas o acesso precisa vir acompanhado de permanência: bolsas, assistência estudantil, respeito ao nome social, combate à discriminação institucional e ambientes seguros. Da mesma forma, é urgente avançar em políticas de empregabilidade, com incentivos à contratação de pessoas trans, qualificação profissional, reserva de vagas em concursos públicos e enfrentamento à discriminação no mundo do trabalho.
Também é indispensável cobrar do Estado brasileiro e do IBGE a produção sistemática e qualificada de dados sobre a população trans. A ausência de informações oficiais sobre identidade de gênero, violência letal, acesso a direitos e condições de vida compromete a formulação de políticas públicas eficazes. Sem dados, nossas mortes seguem sendo naturalizadas e nossas vidas, invisibilizadas.
Tratar a saúde da população trans apenas como um problema biomédico é uma escolha política equivocada. Garantir acesso à universidade por meio de cotas, criminalizar a transfobia na prática, enfrentar a litigância antitrans e produzir dados oficiais sobre violência e exclusão são medidas de saúde pública tão ou mais importantes do que a distribuição de pílulas. Sem isso, continuaremos enxugando gelo com sangue.
Enquanto parlamentar, pessoa intersexo, travesti e vivendo com HIV, afirmo com convicção: não haverá eliminação da aids como problema de saúde pública sem o enfrentamento direto e estrutural da transfobia, do racismo, da exclusão social e do silêncio institucional. Distribuir medicamentos é fundamental, mas não basta. É preciso garantir cidadania.
Garantir o direito à saúde da população trans é garantir o direito à vida, à educação, ao trabalho e à dignidade. Não como concessão, mas como obrigação constitucional. Nossa existência não é exceção. É parte indissociável do projeto democrático que insistimos em construir.
Seguiremos vivas, organizades, em tratamento, com trabalho, estudo e futuro. Indetectáveis, mas nunca invisíveis. Porque cuidar de nós é, também, cuidar do Brasil.
* Carolina Iara é CoDeputada Estadual de São Paulo pela Bancada Feminista. Doutoranda em Antropologia pela USP.



