No Dia Mundial da Amamentação, debate que atravessou a AIDS 2026 expõe uma mudança delicada na resposta ao HIV: embora o risco de transmissão pelo leite materno não seja considerado zero, novas diretrizes e experiências internacionais já defendem que mulheres com carga viral indetectável possam participar da decisão
Durante décadas, a orientação foi apresentada como absoluta: mulheres vivendo com HIV não deveriam amamentar. A recomendação ajudou a evitar novas infecções e permanece oficialmente adotada no Brasil. Mas os avanços do tratamento antirretroviral, a possibilidade de manter a carga viral indetectável e as experiências de acompanhamento já desenvolvidas em diferentes países estão deslocando essa discussão. A pergunta já não é apenas se existe algum risco de transmissão pelo leite materno — porque existe, ainda que muito pequeno —, mas quem tem o direito de decidir diante dele e em quais condições essa escolha pode ser feita com segurança.
O debate ganhou força na 26ª Conferência Internacional de Aids, a AIDS 2026, realizada no Rio de Janeiro, e chega ao centro das atenções na semana de 1º de agosto, data que marca o início da Semana Mundial da Amamentação. De um lado, especialistas lembram que a fórmula infantil e o leite humano pasteurizado são as únicas alternativas capazes de eliminar a possibilidade de transmissão do HIV pela alimentação. De outro, cresce internacionalmente a defesa de que mulheres em tratamento, com carga viral indetectável de forma sustentada e sob acompanhamento rigoroso, sejam informadas sobre o risco residual e participem da decisão sobre amamentar.
Não se trata de afirmar que “indetectável é igual a intransmissível” durante a amamentação. Essa segurança, já comprovada para a transmissão sexual do HIV, ainda não pode ser automaticamente transferida para o leite materno. Trata-se de reconhecer que a medicina entrou em um território mais complexo, no qual proteção da criança, autonomia da mulher, adesão ao tratamento, estigma e condições sociais precisam ser analisados conjuntamente.

A infectologista Rosana Del Bianco, do Centro de Referência e Treinamento em IST/Aids de São Paulo, participou das discussões da AIDS 2026 e defende que mulheres com supressão viral prolongada tenham ao menos o direito de conversar com a equipe de saúde sobre a possibilidade de amamentar.
“A amamentação é uma grande discussão porque, nesse caso, indetectável não significa risco zero, como ocorre na transmissão sexual. No entanto, mulheres que tomam regularmente os medicamentos e mantêm a carga viral indetectável por um longo período têm, sim, o direito de discutir essa possibilidade. O risco está na faixa de 0,2%. É próximo de zero? É. Mas não é zero. A mulher precisa conhecer esse risco e tomar uma decisão consciente.”
A diferença parece pequena quando expressa em números, mas envolve uma questão clínica e ética decisiva. Para cada mulher, não existe “0,2% de criança”: existe o seu filho e a possibilidade, mesmo remota, de uma transmissão que poderia ser evitada com a substituição do leite materno. Ao mesmo tempo, impedir qualquer discussão não elimina as situações sociais, familiares e emocionais enfrentadas por mulheres que precisam justificar por que não amamentam.
Quando não amamentar também revela o diagnóstico
A recusa ou a impossibilidade de amamentar pode despertar perguntas dentro da família e, em alguns casos, expor involuntariamente o diagnóstico de HIV. Dra. Rosana afirma ter acompanhado mulheres submetidas a fortes pressões de companheiros e familiares, especialmente quando a condição sorológica era mantida em sigilo.
“Já acompanhei mulheres que enfrentaram problemas enormes para explicar à família por que não iriam amamentar. Algumas vivem com parceiros ou em famílias que não compreendem ou não aceitam essa decisão. São problemas sociais reais. A mulher tem o direito de escolher se quer amamentar, desde que saiba que existe um risco, mesmo que pequeno. Ela precisa ser informada e precisa participar da decisão.”
A declaração toca em um ponto que ultrapassa a infectologia. Para muitas mulheres, não amamentar não é apenas adotar outra forma de alimentar o bebê. Pode significar enfrentar cobranças, suspeitas, julgamentos e o risco de revelar uma informação privada. É por isso que diretrizes internacionais mais recentes passaram a defender uma abordagem de decisão compartilhada, em vez de uma relação baseada apenas em proibição.
Essa mudança, entretanto, não representa uma liberação indiscriminada da amamentação. A recomendação depende de condições rigorosas: uso contínuo dos antirretrovirais, carga viral indetectável durante a gestação e a lactação, acompanhamento frequente da mulher e da criança e capacidade de interromper a amamentação diante de qualquer alteração clínica ou laboratorial.
Um risco pequeno, mas que não pode ser escondido
Questionada sobre a possibilidade de uma criança adquirir o HIV por uma decisão que poderia ter sido evitada, dra. Rosana reconhece que a ciência ainda precisa produzir respostas mais sólidas.
“Essa é uma decisão que a mulher precisa tomar com informação. Ainda sabemos pouco sobre esse percentual de 0,2%. Estudos apresentados na conferência também mostraram a passagem de anticorpos protetores pelo leite materno. Precisamos estudar mais profundamente essa questão. Acredito que, com a evolução das pesquisas, poderemos chegar a uma situação de risco zero.”
A médica lembra que diversos protocolos considerados indispensáveis no passado foram modificados à medida que o conhecimento científico avançou. A cesariana deixou de ser obrigatória para todas as gestantes vivendo com HIV com controle adequado da infecção, e o uso de AZT injetável durante o parto também deixou de ser necessário em determinadas situações.
“Antigamente, o que fazíamos? Indicávamos cesariana. Com o avanço do conhecimento, passamos a permitir o parto normal em condições seguras. Também utilizávamos AZT injetável e depois essa conduta foi modificada. À medida que adquirimos conhecimento, eliminamos procedimentos que deixam de ser necessários. Depois de tantos anos trabalhando com aids, acredito que vamos evoluir até demonstrar que a amamentação pode ser muito segura.”
A comparação não significa que o risco já tenha desaparecido. Mostra, porém, como a história do HIV foi transformada por evidências capazes de rever condutas antes consideradas definitivas.
Brasil ainda recomenda que mulheres com HIV não amamentem
No Brasil, o protocolo oficial permanece claro: mulheres vivendo com HIV são orientadas a não amamentar, mesmo quando utilizam corretamente os antirretrovirais e apresentam carga viral indetectável. A recomendação procura eliminar qualquer possibilidade de transmissão pelo leite materno, e o Sistema Único de Saúde prevê o fornecimento de fórmula infantil para os bebês expostos ao HIV.
Dra. Rosana considera que essa orientação ainda deve ser respeitada, mas defende a ampliação do debate e a criação de serviços especializados para acompanhar mulheres que desejam amamentar.
“Precisamos criar núcleos de excelência para acompanhar essas mulheres. É necessário montar ambulatórios preparados, monitorar a mulher durante a amamentação e acompanhar também o bebê. Assim poderemos avaliar, com dados brasileiros, quantas crianças permaneceram negativas e se houve alguma transmissão. A Argentina já está fazendo esse acompanhamento.”
Segundo a infectologista, experiências desenvolvidas em países como Argentina, México e Paraguai indicam um movimento de abertura para a amamentação acompanhada.
“Argentina, México e Paraguai já possuem experiências nesse sentido. Existem núcleos de acompanhamento, e é exatamente essa discussão que precisamos fazer: criar serviços nos quais as mulheres possam amamentar, mas sob controle rigoroso. Não é possível oferecer essa possibilidade a uma mulher que toma o medicamento hoje e deixa de tomar amanhã. A adesão é o ponto central.”
A especialista fez questão de reforçar novamente: “Nunca pode parar de tomar o medicamento. Precisa manter a carga viral indetectável durante um período prolongado e ao longo de toda a gestação. Não é o CD4 que determina essa segurança. O fundamental é a carga viral indetectável e sustentada. Se a mulher não manteve a indetectabilidade durante a gestação, não deve amamentar.”
A carga viral precisaria continuar sendo monitorada durante todo o período de lactação. Qualquer resultado detectável exigiria avaliação imediata e poderia levar à suspensão da amamentação.
A integridade das mamas também é fundamental: “A carga viral indetectável é uma exigência. Além disso, não pode haver fissuras, ferimentos ou sangramento no peito ou no mamilo, porque essas lesões podem facilitar a passagem do HIV. O mamilo precisa estar íntegro durante a amamentação.”
Mastite, fissuras, sangramentos ou outras inflamações precisam ser rapidamente avaliados. Também é necessário acompanhar a criança com testes periódicos para o HIV durante e depois da amamentação.
A mulher que amamenta escondida fica ainda mais vulnerável
A infectologista argumenta que uma abordagem exclusivamente proibitiva pode produzir um efeito contrário ao esperado. Algumas mulheres podem decidir amamentar mesmo sem autorização da equipe e esconder essa informação, deixando de receber acompanhamento adequado.
“Eu explico tudo o que pode acontecer. Se a mulher decidir amamentar, é preferível que eu saiba, porque assim consigo acompanhá-la. Não adianta fingir que essa possibilidade não existe. Quando uma pessoa decide que vai fazer alguma coisa, ela pode fazê-la independentemente da orientação médica. Se isso acontecer escondido, o risco será ainda maior.”
A fala não elimina a responsabilidade médica nem transforma qualquer escolha em uma conduta automaticamente segura. Ela evidencia, porém, que acolhimento e vínculo com o serviço de saúde são ferramentas de proteção. Uma mulher que teme julgamento pode deixar de informar falhas na adesão, alterações nas mamas ou dificuldades para realizar os exames. Uma mulher acompanhada tem mais condições de reconhecer os riscos e interromper a amamentação quando necessário.
Benefícios do leite materno também entram na decisão
O leite materno oferece nutrientes, anticorpos e fatores imunológicos importantes para o desenvolvimento da criança e para a proteção contra diversas infecções. É justamente por esses benefícios que a discussão se tornou mais intensa à medida que o tratamento do HIV avançou.
“As vantagens são inúmeras. O leite materno contribui para a imunidade e para o desenvolvimento da criança. A mãe transmite anticorpos adquiridos ao longo da vida e também anticorpos produzidos após a vacinação, como ocorre com qualquer mulher que amamenta.”
Uma discussão que o Brasil terá de enfrentar
No Dia Mundial da Amamentação, a pergunta sobre mulheres vivendo com HIV revela como os avanços científicos podem criar dilemas tão complexos quanto as doenças que ajudam a controlar. O tratamento antirretroviral transformou a gestação, o parto e a expectativa de que uma criança nasça sem o vírus. Agora, a medicina começa a discutir se essa transformação também poderá chegar à amamentação.
Entre proteger a criança e respeitar a autonomia da mulher, o desafio da saúde pública será construir um caminho que não enfraqueça nenhuma dessas duas responsabilidades.
Redação da Agência de Notícias da Aids
* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobriu a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.



