Entre a esperança e a urgência: o que os ativistas esperam da Aids 2026, no Rio de Janeiro

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A ciência nunca esteve tão perto de transformar a resposta ao HIV. Ao mesmo tempo, o mundo enfrenta uma das mais profundas crises de financiamento para sustentar os avanços conquistados nas últimas décadas. É nesse cenário de contrastes que lideranças da sociedade civil chegam à Aids 2026, que será realizada entre os dias 26 e 31 de julho, no Riocentro, no Rio de Janeiro. O encontro acontece em meio à redução de recursos internacionais, às ameaças aos organismos multilaterais e ao crescimento de discursos que colocam em risco políticas de prevenção, tratamento e direitos humanos.

Para os ativistas, a conferência precisa ir além da apresentação de descobertas científicas. A expectativa é que o evento resulte em compromissos concretos para ampliar o financiamento da resposta ao HIV, fortalecer os sistemas públicos de saúde, garantir o acesso às novas tecnologias e assegurar que organizações comunitárias participem das decisões que definirão os rumos da epidemia. Também defendem que a discussão sobre inovação esteja acompanhada do enfrentamento das desigualdades que ainda impedem milhões de pessoas de acessar prevenção e tratamento.

Realizada pela primeira vez no Brasil, a Aids 2026 também é vista como uma oportunidade para projetar a experiência do Sul Global no centro do debate internacional. As lideranças ouvidas pela Agência Aids avaliam que o encontro deve reafirmar o papel histórico da sociedade civil na construção da resposta brasileira ao HIV e demonstrar que ciência, políticas públicas e participação comunitária continuam sendo inseparáveis para alcançar a meta de acabar com a aids como problema de saúde pública até 2030.

Confira as expectativas de lideranças do movimento social, pesquisadores e representantes de organizações da sociedade civil:

Eduardo Luiz Barbosa, presidente do Grupo Pela Vidda São Paulo, coordenador do Mopaids e secretário Político da Anaids:

“Não dá pra chegar na Aids 2026 como se fosse mais uma conferência. O cenário é de devastação: cortaram financiamento, fecharam programas, avançam os fundamentalistas, o Unaids corre risco de extinção. O lema ‘Rethink. Rebuild. Rise.’ não pode virar enfeite de banner. A gente precisa sair do Rio com compromissos reais. O que exigimos: 1. Financiamento — chega de promessa vazia. Os cortes dos EUA e Reino Unido já matam na ponta. Queremos compromissos concretos de novos financiadores, não ‘mesas de diálogo’. Defesa do orçamento público para prevenção e tratamento comunitários. Transparência na alocação, com participação social de verdade; 2. Direitos humanos na prática, não no papel. Enquanto houver criminalização de populações-chave, não existe resposta ao HIV que preste. A conferência precisa de posicionamento firme contra o avanço fundamentalista e o encolhimento do espaço cívico. O Unaids não pode morrer; 3. Comunidade no centro, não no enfeite. A Global Village não é vitrine. A comunidade precisa estar nas mesas de decisão, não só nos stands. Financiamento direto para organizações de base, sem burocracia. Saber comunitário vale tanto quanto estudo científico; 4. América Latina como prioridade, não coadjuvante. Pela primeira vez, a conferência é aqui. Se não sair compromisso real com a região, falhamos. Barreiras de acesso a medicamentos e insumos são escolha política — quebra de patentes já. A articulação do Sul Global precisa sair fortalecida; 5. Ciência servindo ao povo, não à indústria. PrEP injetável, novas formulações, pesquisa de cura — tudo precisa chegar na ponta agora, não daqui a 10 anos. Licenciamento voluntário e quebra de patentes, ou é conversa fiada. Prioridade absoluta para negros, indígenas, trans e juventude periférica. A AIDS 2026 é a conferência mais importante desde o início da crise do financiamento global. O que se decidir ali impacta a vida de quem vive com HIV e de quem atua na linha de frente. Precisamos ocupar cada espaço, cada plenária, cada corredor do Riocentro. Não vamos pra passear. Vamos pra cobrar, denunciar e construir saída coletiva. O HIV não espera. Nós também não. Pela vida, por direitos, por financiamento — e pra acabar com a aids de uma vez.”

Marta McBritton, presidente do Instituto Cultural Barong:

Essa é a primeira vez que um Congresso da IAS acontece no Brasil e na América Latina. Embora seja um evento global, o fato de ser realizado aqui tem um significado muito especial: nos últimos anos, países importantes da América Latina, como Argentina, Chile, Peru, Colômbia e também o Brasil, em 2019, elegeram presidentes conservadores ou de direita. Essa mudança no cenário político regional nos leva a perguntar quais serão seus reflexos sobre as políticas de HIV e aids, especialmente em temas como financiamento, direitos humanos, diversidade, participação da sociedade civil e acesso universal à prevenção e ao tratamento. Por isso, considero fundamental que a conferência também seja um espaço para encontrar pessoas, organizações e governos que estejam formulando propostas concretas para enfrentar esse cenário e proteger os avanços conquistados ao longo das últimas décadas. O Brasil já foi reconhecido internacionalmente como uma referência na resposta ao HIV, graças ao SUS, ao acesso universal ao tratamento e ao protagonismo da sociedade civil. Mas o cenário mudou. O HIV já não mobiliza a sociedade e os governos com a mesma intensidade de outros momentos, justamente quando enfrentamos novos desafios, como o estigma persistente, a redução do financiamento internacional e o risco de aumento das desigualdades. Vou para esse Congresso com muita esperança, porque sei que veremos avanços científicos que nos aproximam cada vez mais das metas globais para 2030. Ao mesmo tempo, também vou com preocupação. De pouco adianta produzirmos conhecimento e inovação se as pessoas, os serviços de saúde e as organizações comunitárias não conseguirem acessar esses avanços. Também me preocupa o fato de que muitos ativistas brasileiros e latino-americanos ainda enfrentam enormes barreiras econômicas para participar de um espaço como este. Suas vozes são fundamentais e precisam estar presentes, porque a resposta ao HIV só será efetiva se ciência, políticas públicas e comunidade caminharem juntas.”

Márcia Leão, coordenadora Executiva da Parceria Brasileira contra a TB – Stop TB Brasil e do Fórum ONG/Aids do Rio Grande do Sul:

“Vejo a IAS 2026 como um marco histórico por ser a primeira edição realizada no Brasil. A expectativa é que o evento apresente os mais recentes avanços científicos relacionados à prevenção, ao diagnóstico, ao tratamento e à perspectiva da eliminação do HIV como problema de saúde pública, além das inovações em tecnologias de saúde, vigilância e resposta integrada às coinfecções, como a tuberculose. Esperamos que esse conhecimento fortaleça as políticas públicas e amplie o acesso às melhores estratégias de cuidado, especialmente para as populações mais vulnerabilizadas. Ao mesmo tempo, a IAS vai muito além da ciência. O Global Village será um espaço estratégico de mobilização social, reunindo movimentos comunitários, organizações da sociedade civil, pessoas vivendo com HIV, pesquisadores e gestores em um diálogo direto sobre direitos humanos, enfrentamento do estigma e participação social. É uma oportunidade única para que a voz das comunidades latino-americanas ganhe maior visibilidade internacional e reafirme que uma resposta efetiva ao HIV e à tuberculose depende da integração entre evidências científicas e protagonismo comunitário.”

Américo Nunes Neto, presidente do Instituto Vida Nova:

“A minha expectativa é dar luz aos avanços que a sociedade civil organizada tem realizado, com o apoio dos programas de IST/aids. Somos organizações da sociedade civil, mesmo com baixo financiamento, impulsionando inovações em campo, com metodologias operacionais e novas formas de prevenção e cuidado para as pessoas vivendo com HIV/Aids. Este é um momento crucial para viabilizar mundialmente nossas necessidades técnicas e financeiras. É preciso que as agências internacionais também priorizem investimentos para as OSCs brasileiras, e o mundo precisa saber sobre isso. Só assim poderemos acabar com o HIV, em 2030, como problema de saúde pública. Espero também que, na cerimônia magna de abertura, os ativistas brasileiros façam um manifesto impactante pela aquisição do lenacapavir a um custo que o SUS possa sustentar. Assim como pela cura da aids. Três pontos importantíssimos. E, por fim, espero ter notícias sobre as novas tecnologias de prevenção e tratamento, com incidência para que sejam implantadas em nosso país. IAS 2026 é sobre ciência, mas também é sobre network, vidas, luta e financiamento.”

Luciana Kamel, pesquisadora, doutoranda do IMS/UERJ e ativista:

“A realização da Conferência Internacional de Aids 2026 no Brasil tem um significado que vai além de sediar um grande evento. Ela coloca a América Latina no centro do debate global sobre a resposta ao HIV, dando visibilidade às experiências e aos desafios da nossa região. O Brasil tem uma trajetória importante na construção de políticas públicas para o HIV, baseada na articulação entre ciência, um sistema público universal de saúde e participação social. Esse diálogo entre Estado, comunidade científica e sociedade civil foi determinante para construir uma resposta baseada em evidências, na defesa dos direitos e no acesso ao cuidado. Receber essa conferência é uma oportunidade para reafirmar uma lição que permanece atual: não há resposta efetiva ao HIV sem ciência, sem políticas públicas consistentes e, sobretudo, sem colocar as comunidades no centro da resposta à epidemia. Esse é um princípio que também deve orientar o enfrentamento de outras epidemias e desafios da saúde pública.”

Pisci Bruja, antropóloga, doutoranda em Saúde Coletiva, pesquisadora em HIV/aids e saúde trans, educadora comunitária e Managing Editor da Global Public Health:

“Eu tenho várias expectativas em relação a essa conferência. É um momento muito oportuno para o Brasil mostrar a sua força, mostrar por que se consolidou como um país que é referência em tratamento, prevenção, enfrentamento da epidemia de aids no mundo inteiro, construindo uma resposta que se tornou conhecida como modelo brasileiro. E esse modelo brasileiro é fundamentado não só nas políticas biomédicas, mas na resposta comunitária. Então, esse investimento e todo esse know-how que a gente tem, essa expertise a partir da produção dos saberes comunitários, tornaram o Brasil uma referência global. A minha expectativa é que isso esteja em evidência, fortalecido dentro da conferência, através de manifestações, de atos, de participação popular e comunitária. E aí vem uma… Tenho medo de me frustrar, inclusive, porque a gente sabe das enormes barreiras em relação a essa conferência. Do valor altíssimo, da questão do transporte de pessoas do Brasil todo. Acho que não vai ser algo muito representativo do território nacional. E isso acaba, enfim, prejudicando toda a nossa potência e a gente mostrar toda a nossa potência enquanto território nacional. Então, isso pode ser uma frustração em relação à minha expectativa. Mas é algo que eu já estou esperando por conta das barreiras mesmo, porque a América Latina e o Brasil não receberam tantas bolsas assim como deveriam ter recebido, e tiveram vários entraves. Por exemplo, na solicitação de bolsa, uma das coisas que eles estavam pedindo era o número do passaporte para brasileiro. E aí, quem não conseguiu, não tem passaporte, não colocou o passaporte, ficou sem a passagem aérea na hora de conseguir a bolsa. Eu vi casos assim acontecerem. Tem várias barreiras acontecendo, mas, mesmo assim, eu espero que seja forte o momento de mover o olhar para o Sul Global, para as respostas que estão sendo produzidas no Sul Global, que é onde as populações são historicamente mais marginalizadas e suscetíveis à violência. A gente está num nível de avanço farmacológico, biomédico, tão grande que ainda tem infecção e mortalidade por aids. Isso é fruto dessas outras violências que atravessam o cotidiano das pessoas no Sul Global. É importante que a conferência seja aqui, e eu espero que a gente consiga mostrar nossa força e consiga cobrar, que a gente consiga cobrar tratamentos injetáveis para as pessoas que vivem com HIV, a atualização nos tratamentos, que a gente possa cobrar a entrada do lenacapavir, que a gente consiga quebrar a patente do lenacapavir. Não é possível que o Brasil tenha contribuído com quase 40% do material biológico através dos recrutamentos e fique de fora dos acordos da patente. Isso é imoral, para dizer o mínimo, sabe? Então, essas coisas a gente vai ter que estar lá, botando o dedo na cara e pontuando. Também tenho muita expectativa de que a gente possa falar mais sobre cura do HIV, no sentido de reivindicar a construção de infraestrutura de pesquisas de cura nesse território, que a gente possa falar mais sobre cura em outros aspectos também, que não só biomédicos. Eu acho que isso é importante também porque envolve a transformação, o enfrentamento das estruturas de violência que a gente tem nesse território, que é muito frequente no Sul Global e que faz a manutenção da colonialidade. Pensar em cura do HIV vai precisar extrapolar o âmbito biomédico, vai precisar passar pelo enfrentamento do estigma HIV/aids. Estigma enquanto uma relação de poder. Se a gente tem que enfrentar as relações de poder, a gente tem que fortalecer as populações destituídas de acesso, de dignidade e de cidadania. Então, é disso que a gente está falando. A cura precisa passar por isso. Ela é um processo, e não um produto para ser consumido na prateleira.”

Harley Henriques, do Fundo Positivo:

“Estamos vivendo um momento que acontece a esse, com dois grandes pontos a se trabalhar. Um é os avanços que a ciência tem trazido, prep de longa duração, medicamentos de uso semestral, são muitos avanços, mas temos que discutir como esses avanços chegam até as pessoas, ou seja, a questão das desigualdades e do acesso ligado à inovação. Isso é um ponto que tem que ser discutido. Um outro ponto na IAS a ser discutido é como lidar com esses avanços no momento de uma crise financeira sem precedentes, aonde existe, sim, cortes no financiamento global para a aids. Então essas questões são muito importantes de discutir na IAS, eu espero que isso seja discutido, mas é muito importante que a IAS esteja acontecendo no sul global, especialmente no Brasil, um país que optou por trabalhar com a sociedade civil para alcançar os feitos, as conquistas da sua política de aids. Um país que trabalhando com a sociedade civil foi possível fazer uma revolução na política de saúde pública, trazendo benefícios para além da questão do HIV/aids, como mudança na política farmacológica, nos protocolos dos planos de saúde, de uma lei de acesso universal no sistema único de saúde. Isso só foi possível porque foi construído com o movimento de HIV. Então é importante firmar o compromisso e mostrar o que o sul global e o Brasil têm, com a sua experiência, poder servir de farol para outras políticas do mundo relacionadas à aids.”

Javier Angonona, diretor da Ong Motirô – Salvador, Bahia:

Estou com muitas expectativas para a Conferencia da IAS, Aids2026, na cidade do Rio de Janeiro. Eu participei das duas últimas, Montreal e Munique, onde se divulgaram grandes avanços na prevenção e tratamentos, mas foi triste ver tantos ativistas, e até cientistas, não conseguir participar pelos altos custos e pelas barreiras migratórias. Acredito que no Brasil não teremos esses problemas e muitos ativistas do mundo todo conseguirão participar. Também é especial para mim, pois o primeiro contato que tive com o ativismo internacional foi precisamente no Rio, no Congresso Latino-americano de Aids – Rio2000, que foi um divisor de águas no meu ativismo e participação. Esperamos que nesta versão da Conferência se avance mais no acesso a recursos e acesso às inovações tecnológicas, como a PrEP de longa duração e a Doxiprep. Também trará de unir mais o ativismo ante os desafios do avanço da extrema-direita mundial no nosso continente e no resto do mundo. A Motirô BA está associada à Rede LUSO+, de pessoas que vivem com HIV, de língua portuguesa, com um importante espaço na Gobal Vilage e esperamos mobilizar o ativismo, para que não nos surpreendam os reacionários com políticas de retrocesso. Longa vida ao ativismo!

Redação da Agência de Notícias da Aids

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