
A psicóloga clínica e hospitalar do HFMUSP Carina Pirró (crédito: arquivo pessoal)
Após mais de 6 décadas da criação do movimento feminista que luta pelos direitos humanos do que Simone de Beauvoir chamou de “o segundo sexo”, cresce em escala mundial o ódio e a discriminação contra mulheres. No Brasil, por exemplo, um estudo recente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública registrou recorde de casos de feminicídio no país, um número que seria ainda maior se não houvesse a subnotificação.
Movimentos de homens que pregam o machismo, estimulam a misoginia e a violência contra a mulher se fortalecem na internet promovendo linchamentos virtuais contra mulheres e muitas vezes extrapolam as redes e se concretizam em ameaças de agressão e até morte. Um desses grupos é formado por homens que se autodenominam Red Pills, que recentemente atacaram pessoas vivendo com HIV no Twitter, disseminando preconceito e informações falsas sobre a infecção pelo vírus.
Para entender como agem, conversamos com a psicóloga clínica e hospitalar Carina Pirró do HCFMUSP. Confira a entrevista.
AGÊNCIA AIDS: O que são Red Pills?
CARINA PIRRÓ: Os “movimentos Red Pill” são comunidades compostas principalmente por homens que promovem uma visão de mundo centrada na ideia de que homens são frequentemente vítimas de discriminação e injustiças em áreas como relacionamentos, sexo, família e sociedade em geral. O termo “Red Pill” é uma referência ao filme “Matrix”, onde tomar a “pílula vermelha” representa uma escolha de ver o mundo como ele realmente é, mesmo que seja desagradável ou desconfortável. Esses grupos argumentam que as questões enfrentadas pelos homens, como disparidades de gênero em divórcios, custódia dos filhos, acusações falsas de abuso e expectativas sociais prejudiciais, são frequentemente ignoradas ou minimizadas pela sociedade. Eles buscam promover a conscientização sobre essas questões e oferecer apoio mútuo aos homens que se sentem marginalizados ou prejudicados. No entanto, é importante observar que os movimentos Red Pill também têm sido criticados por promoverem ideologias misóginas, sexistas e antifeministas. Algumas de suas ideias e práticas são consideradas problemáticas e controversas, e vale o alerta de observar os riscos da adoção de uma mentalidade extremista ou de se envolver em comportamentos prejudiciais em nome dessas comunidades.
Por que os Red Pills odeiam as mulheres?
Os motivos pelos quais certos membros dos movimentos Red Pill têm uma visão negativa das mulheres podem variar. Histórias pessoais de rejeição, mágoa ou conflito com mulheres em suas vidas, pode ser uma das causas da generalização destas experiências para todas as mulheres. Outros podem acreditar em ideias de supremacia masculina, onde os homens são vistos como naturalmente superiores às mulheres em várias áreas da vida, como inteligência, liderança ou habilidades sociais. Muitos membros dos movimentos Red Pill acreditam que as relações de gênero são injustas para os homens, com mulheres recebendo tratamento preferencial em áreas como divórcio, custódia dos filhos e questões legais. Além disso, alguns grupos e fóruns online frequentados por membros dos movimentos Red Pill muitas vezes promovem uma cultura de misoginia e hostilidade em relação às mulheres, incentivando a disseminação de ideias e atitudes negativas.
Red Pills têm algum tipo de relacionamento com mulheres?
Os “Red Pills” são conhecidos por adotarem uma visão bastante crítica das mulheres e dos relacionamentos entre homens e mulheres. No entanto, é importante ressaltar que nem todos os membros dessas comunidades têm as mesmas opiniões ou atitudes. Acho importante ressaltar isso para não cometermos o mesmo erro de generalização. “Diga-me o que tu pensas que te direi como te relacionas”. Se quiser saber como um Red Pill se relaciona com uma mulher, primeiro precisa entender qual sua visão sobre a mulher, homem, relacionamento e tudo que envolve este encontro. Alguns membros podem adotar uma postura de desconfiança ou distância em relação às mulheres, evitando envolvimentos emocionais profundos ou relacionamentos comprometidos. Outros podem se engajar em relacionamentos, mas com uma abordagem mais calculada e estratégica, aplicando técnicas de sedução ou manipulação ensinadas nos fóruns Red Pill. Percebi também no contato com alguns destes membros, que o machismo estrutural pode encontrar uma justificativa, agora apoiada por literatura ou debates com mentores que confirmem suas crenças.
Por que existem mulheres que concordam com Red Pills?
Primeiro eu diria que vivemos numa sociedade que, em sua maioria, não aprofunda seu conhecimento sobre assuntos diversos. Não é incomum encontrar pessoas levantando bandeira na rua apoiando alguma causa que na realidade nem sabe exatamente qual é. Dito isso, eu diria que as pessoas apoiam aquilo que vai de encontro com suas crenças pessoais ou àquelas ideias que dão conforto ou explicação para alguma questão individual que tenha no momento. Digo muito isso para meus pacientes: imagine que você não está conseguindo ter relacionamentos amorosos e tem um grupo que aparenta ter as respostas para seus dramas pessoais. Não te parece incrível. Pois então, existe isso em várias ideologias sendo vendidas por aí.
Existem Red Pills homossexuais? ou são majoritariamente heterossexuais?
Embora os movimentos Red Pill geralmente sejam associados a homens heterossexuais, também existem versões adaptadas para pessoas LGBTQ+.
Marina Vergueiro (marina@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista:
Carina Pirró – https://www.instagram.com/terapia_no_insta/



