
“A cura é real, possível, não só do preconceito, da discriminação ou da associação aids-morte. Ela é a eliminação do HIV do nosso corpo. Não teremos mais medicamentos para tomar e passar mal com eles, não teremos mais efeitos colaterais decorrentes de seu uso por décadas. Não seremos mais estigmatizados por ter um vírus no nosso corpo. O dia da cura chegou, está ao alcance do nosso ativismo pulsante, maduro e comprometido com o fim da epidemia de aids. Nós, mulheres com HIV/aids, que perdemos nossos amores, filhos, companheiros e amigos vamos celebrar esse dia. Lutamos por eles, elas e por todas nós. Aprendemos nesses 40 anos de epidemia que viver com HIV/aids é ser desafiado dia e noite. Vencer cada um desses desafios exige informação, assistência, investimentos, politicas, comida, casa, amigos e ativismo. Ingredientes que juntos criam condições para esse viver.”
O texto acima é um trecho da mensagem que a ativista Nair Brito, fundadora do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas, leu na tarde deste sábado (11), no debate “O fim da aids na perspectiva da Agenda 2030”, no X Encontro Nacional do MNCP, em São Paulo.
Emocionada e com um tom de urgência na fala, Nair convocou as mulheres para a luta pela cura do HIV. “Muitas de nós está enfraquecida, seja pela ação do vírus, da idade, das desesperanças atribuídas aos descasos com as políticas, as quais deveriam nos proteger da fome, falta de emprego, falta de moradia, enfim seja qual for o motivo, por favor, não desistam, estamos mais próximas do que estávamos antes.”
Ao criticar as metas da ONU para o fim da epidemia até 2030, que em sua avaliação são pautadas no discurso biomédico, a ativista disse que estar indetectável não é estar curado. “Estamos embotados. No ano passado, mais de 600 mil pessoas morreram no mundo em decorrência da aids, boa parte estava indetectável. Então, não aceito só o indetectável, é preciso a cura. Como? Não sei, mas temos que acreditar.”
Ainda lembrando do seu protagonismo, em 1995, na luta pelo acesso gratuito aos antirretrovirais, a militante destacou que naquele momento muitas pessoas disseram que seria impossível garantir medicamentos para todos no Brasil. “Vencemos a luta por medicamentos, e isso foi uma de nós, que acreditou que era possível, nos garantiu um folego até aqui. Agora é hora de concluir nossa etapa. Lutemos pela cura da aids.”
Na avaliação de Nair, o primeiro passo para a cura do HIV é acreditar que é possível, depois, lutar para ficar vivo. “E nesse caminho vamos nos qualificando, amadurecendo nossos discursos e práticas. Desde já podemos definir que todas as pesquisas envolvendo nossos corpos sejam respeitosas, afetivas e éticas, sem nos usar como objetos. Que haja financiamento suficiente a curto prazo para novas pesquisas em busca da cura e com foco nas mulheres.”
Por fim, Nair destacou que “a aids é movida por vontade política e econômica, e, nós, pela vida. Creio que o nosso motivo é mais forte, e esse sempre nos impulsionou. A nossa crença de que juntas somos mais fortes vencerá esses dois gigantes que tentam nos fazer recuar. Porque afinal, estamos vivas, livres e juntas.”
Outras falas

Também participaram do debate sobre o fim da aids na perspectiva da Agenda 2030 a médica Naila Janilde, do Programa Estadual de IST/Aids de São Paulo; a farmacêutica Pamela Cristina Gaspar, da Coordenação Geral de Vigilância das IST, no Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e ISTs, do Ministério da Saúde; e Aranaí Guarabyra, da Opas.
“A maior incidência de mulheres vivendo com aids em São Paulo são mulheres pretas e pardas, com baixa escolaridade. As diversas violências que mulheres enfrentam todos os dias e a falta de acesso as tecnologias de prevenção contribuem para o avanço da doença nesta população”, disse a médica Naila, lembrando que das mais de 60 mil pessoas em uso de PrEP no Brasil, apenas 3060 são mulheres.

Aranaí disse que o Brasil faz parte das metas da OMS pela eliminação de doenças como problema de saúde pública até 2030, isso inclui a eliminação da transmissão vertical do HIV, da sífilis, entre outros. “Cuba foi o primeiro país no mundo a eliminar a transmissão vertical do HIV. São Paulo, que é uma cidade maior do que Cuba, também eliminou. Ou seja, estamos próximos de eliminar a transmissão vertical do HIV no Brasil”, comemorou.
Eliminação de doenças
Na mesma linha, Pamela Cristina contou que várias cidades do Brasil e alguns Estados receberão, em dezembro, “a Certificação da Eliminação da Transmissão Vertical (TV) do HIV e de outros agravos determinados socialmente é uma estratégia do Ministério da Saúde para fortalecer a gestão e a rede de atenção do Sistema Único de Saúde. O objetivo é aprimorar as ações de prevenção, de diagnóstico, de assistência e de tratamento das gestantes e das crianças.”

A certificação busca garantir a qualificação da vigilância epidemiológica e dos sistemas de informação, monitoramento e avaliação contínua das políticas públicas voltadas à eliminação da transmissão vertical e do HIV no Brasil.
Para receber a certificação, o município deve atender a uma série de critérios estabelecidos pela Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que incluem a qualidade dos programas e serviços de saúde, da vigilância epidemiológica, dos laboratórios, das questões relativas ao respeito aos direitos humanos, igualdade de gênero e a participação da comunidade.
São elegíveis à certificação municípios com mais de 100 mil habitantes. Além disso, também são levados em conta os indicadores epidemiológicos dos últimos três anos. Neles, é fundamental que a taxa de incidência (casos novos) seja menor que 0,3 crianças em cada mil nascidos vivos e que a proporção anual de crianças infectadas seja menor que 2%.
A conversa chegou ao fim com um pacto das mulheres na luta pela cura.
Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
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